Nuno Lopes é um santo no inferno

Portugal e a troika. O mundo do boxe e a família. Nuno Lopes com um santo no seu inferno. Marco Martins e um tour de force ficcional a partir da violência da realidade. Chama-se São Jorge um dos grandes títulos deste ano. Estreia-se na secção Horizontes do Festival de Veneza.

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Um homem que observa e cujo olhar nos devolve a sua cidade: Nuno Lopes assume a importância para o seu trabalho de um filme como Taxi Driver
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O realizador Marco Martins

Marco Martins começou a pensar num “homem perdido que se movimenta sem saber para onde”. Foi há cerca de cinco anos. “Era o que se passava na altura em Portugal: começava a falar-se de crise mas sem se saber bem do que se falava, a crise não tinha rosto. Era a ideia de alguém que olha para o que está à volta sem conseguir descodificar. O que é que ele sabe? O que é que ele projecta?”.

Por essa altura, envolvia-se num projecto, Estaleiros, com 16 trabalhadores dos parados Estaleiros Navais de Viana do Castelo, a quem dava o protagonismo da peça de Samuel Beckett, À Espera de Godot. Deixando progressivamente Beckett para trás, improvisava com eles, dava-lhes espaço para falarem do trabalho e da falta dele, devolvia-lhes auto-estima e a possibilidade de suspenderem a angústia de estarem à espera das suas vidas. Tinha um cúmplice nessa improvisação com intérpretes não-profissionais, o actor Nuno Lopes (que nas conversas que mantinham lhe falava, há algum tempo, do desejo de interpretar num filme um boxeur: “Tenho ombros largos, achei sempre que era possível, que podia levar porrada mesmo”).

Para ambos, Estaleiros, em 2012, foi o embate com um trabalho de matriz política e social – e para Marco, que em 2010 transformara o bairro cigano de Sanguedo, em Santa Maria da Feira, numa instalação artística (o projecto Baralha, com Beatriz Batarda), foi a perda definitiva do medo de trabalhar com não-actores, descobrindo uma forma de contar histórias a partir da matéria documental. “O país estava a mudar. Houve a aproximação à matéria documental sobre a qual nunca tinha trabalhado. Comecei a gostar muito de trabalhar com não-actores”, conta. Passaram então aí os dois, Marco e Nuno, a falar na possibilidade de um filme que documentasse estes tempos. O que é “perigoso”, sublinha Marco, fazer ficção a quente, em cima dos acontecimentos. “Mas não era possível não falar disso, da austeridade”, sublinha por seu lado Nuno.

Boxe para repescar o antigo desejo do actor  e crise? “O boxe nunca me interessou muito, é um ‘género’, não estaria muito interessado num filme sobre boxe, e havia a sombra do Belarmino [Fernando Lopes, 1964]. Belarmino e troika? Não me apetecia." Marco deu o benefício da dúvida: foi pesquisar, ver o que acontecia. Mergulhou-se na noite do boxe, mundo depauperado povoado por figuras tocadas por uma divisão violenta, boxeurs que trabalham como polícias e seguranças e que para subsistirem fazem cobranças “difíceis” junto de quem, como eles, está em dificuldades e não pode pagar – ao fim dessa noite de pesquisa encontrava-se a ideia inicial de dar rostos aos números e à abstracção chamada crise. Nuno, por essa altura, entrava para o ginásio, para o boxe.

Eis o que saiu dali: São Jorge, o filme que esta semana levará o realizador e o actor ao Festival de Veneza (de 31 de Agosto a 10 de Setembro), onde compete na secção paralela Horizontes, que dá atenção às novas correntes do cinema mundial (primeira projecção de imprensa esta quarta-feira).

Parecer um deles

“Quando fui para o boxe” – na fase mais intensa de treino, seis horas por dia com crossfit, Nuno ficou a pesar mais 20 quilos –, “o que eu procurava era uma osmose. Pelo facto de estar lá, todos os dias, esperava que qualquer coisa deles se pegasse a mim. Não é questão de ‘Método’, porque o meu método varia de filme para filme. Era querer ficar inserido num determinado ambiente para que houvesse algo que se agarrasse a mim.” Foi conversar para o problemático Bairro da Bela Vista, na margem Sul do Tejo. Ficou com “horas e horas gravadas no iPhone”, a ouvir “as preocupações das pessoas” cujas vidas são interceptadas pela violência, como se estivessem diariamente no boxe. “O grande desejo sempre o foi o de ser verdadeiro. Como estar no meio deles todos e parecer um deles?".

É a essência de São Jorge. E da personagem de um boxeur que, para subsistir, para ficar com o filho, para poder ficar com a mulher, imigrante brasileira tão esmurrada quanto ele, passa do estatuto de observador do que acontece à sua volta para o de cobrador. É um tipo com dívidas que, para as pagar, ameaça quem tem dívidas por pagar.

Jorge é, e para voltar às palavras iniciais de Marco Martins, esse homem perdido que se movimenta sem saber para onde. Pouco fala sobre as deflagrações que alastram por ele dentro. Mas devolve-nos com o olhar uma visão do seu inferno. Nuno confirma a importância que teve para o seu trabalho, para além de todos os filmes de boxe que conseguiu ver, para além de Rocco e os seus Irmãos (Luchino Visconti, 1961), dos filmes do neo-realismo italiano e do cinema americano dos anos 70 “em que a personagem era mais decisiva do que a narrativa”, outro homem que olha e que, insone, nos devolve a sua cidade: o Travis Bickle de Taxi Driver (Martin Scorsese, 1976) – “estão ambos no inferno, de alguma maneira são santos”.

Mas a personagem Jorge  e Nuno, o actor – é por isso também um intermediário, vulto que paira entre a ficção e a realidade, permitindo a aproximação de uma a outra, para chegar a essa osmose. É que Nuno está muitas vezes nos planos para permitir que os outros falem, sobre política e sobre o bairro, para deixar que o documento comunique as histórias à ficção – redistribuindo assim, perante a câmara de filmar, e sem perder a verdade, os temas que tinham sido elencados e discutidos numa fase de pesquisa com os habitantes do bairro da Bela Vista. Porque nenhum daqueles diálogos, que nasciam durante conversas improvisadas de cerca de quatro horas (“máquinas de argumento”, diz a equipa: eles falavam e a câmara registava), poderia ser “escrito” sem correr o risco de se revelar falso, como diz Nuno. Porque nenhuma daquelas personagens poderia ser “interpretada” por um actor profissional sem risco de intromissão grosseira da ficção  era esse o perigo, o do “retrato caricatural”, concorda Marco.

Perto do film noir

É essa uma das singularidades deste belíssimo São Jorge: a forma como responde com ficção à interpelação da realidade. É uma proposta diferente, por exemplo, da que era trabalhada em As Mil e uma Noites, o tríptico de Miguel Gomes sobre o Portugal da crise, que, e não é apenas coincidência, também esteve nos estaleiros de Viana do Castelo. Também é concretização diferente, na forma de fazer coabitar o ficcional e o documental, dos pressupostos encontrados no projecto Estaleiros. Marco conta que enquanto se procedia à pesquisa, enquanto vibrava a matéria documental à espera de ser colhida, o argumento ia-se aventurando “para a história de uns tipos que andavam atrás de outros tipos para cobrar, e tudo à volta de uma coisa muito americana que é o dinheiro, coisa que temos sempre muito pudor em filmar – e eu queria mostrar o dinheiro”.

O pressuposto documental, a pesquisa dentro do bairro, o trabalho com não-profissionais, cuja escolha foi exaustiva, para lhes dar espaço e às suas histórias, começava a ter uma tradução que podia ser contraditória, conflituosa mesmo, com um argumento mais próximo do film noir do que outra coisa – com as possibilidades do digital que Marco utiliza pela primeira vez, muitos planos puderam ser filmados sem um único projector, a imersão na noite e no onirismo foi profunda. Tratava-se, então, de fazer tudo para “conter a matéria documental na ditadura de uma ficção sem perder a vitalidade daquelas histórias”. Em tempos de “ficções do real”, a ficção, assim sem mais, pode ser o elo mais fraco. São Jorge não desiste dela. Nobilita-a  no dossier de imprensa, Marco fala no film noir, cita Robert Rossen (Corpo e Alma, 1947, com John Garfield) e Jules Dassin, cineasta que entre 1947 (Brutalidade) e 1955 (Rififi) foi poderoso a conduzir a matéria documental até um espaço cheio de marcas, as do "filme de género". São Jorge é, nesse sentido, um tour de force.

“Nunca houve um filme como este em que eu sentisse que também era o meu bebé”, assume Nuno Lopes. Apesar de Alice (2005) já ter sido uma experiência com um cineasta que, segundo o actor, trabalha sem medo da colaboração (e sem medo da instabilidade da rodagem, que é a continuação orgânica da descoberta artística), São Jorge é um novo código genético para ambos. “Não querendo prever o futuro, acho que não vamos querer perder este mundo social, que conhecemos no Estaleiros, que conhecemos aqui. Até para não deixar órfãs estas pessoas. É uma forma de lhes dizer que foram muito importantes para as nossas vidas”, diz Nuno. “Não foi programado, Aconteceu. Não iria para lá, fui levado, por causa dos convites para os projectos Baralha e Estaleiros, e houve um crescimento. Passou a ser decisivo para a minha forma de pensar a representação”, diz Marco.

Alice foi há uma década. Há coisas que não mudam. A forma de Marco inventar as cidades, como aventuras plásticas no desconhecido. E a fidelização de um corpo, o de Nuno, a um espaço familiar, que protege até à loucura e ao excesso. O actor diz que não sabe porque é que o realizador o vê assim, mas propõe: a família é espaço de possibilidades eufóricas, em nome dela tudo pode acontecer  num filme. Marco tem uma resposta: “Sou incapaz de olhar para um actor e esperar que ele seja igual à personagem. Mas no caso do Nuno a característica mais forte é uma inocência do olhar, que faz com que a personagem espere sempre alguma coisa, continue sempre a acreditar. Isto é o Nuno, como pessoa e como actor. O Nuno é muito coração, resolve tudo através da emoção. Isto é muito bonito, e é impossível de ser escrito."

Sobre o boxe, afinal, há poucas sequências em São Jorge. Começam já todos esmurrados.