Festival de Veneza abre com a verdade e fecha com a heresia

The Burnt Orange Heresy, do realizador italiano Giuseppe Capotondi, foi o filme escolhido para encerrar o festival, que abre a 28 de Agosto com The Truth, do japonês Hirokazu Kore-eda.

Fotograma de <i>The Burnt Orange Heresy</i>
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Fotograma de The Burnt Orange Heresy DR

A exibição, em estreia mundial, do filme The Burnt Orange Heresy, de Giuseppe Capotondi, vai fechar, no dia 7 de Setembro, a 76.ª edição do Festival de Cinema de Veneza, que decorrerá como habitualmente no histórico Palazzo del Cinema, na ilha de Lido. A escolha do filme de encerramento foi divulgada esta segunda-feira pela organização, que já anunciara na semana passada que o festival iria abrir a 28 de Agosto com a mais recente obra de Hirokazu Kore-eda, The Truth (A Verdade).

Baseado no romance policial homónimo que o escritor americano Charles Willeford (1919-1988) publicou em 1971 – e que o cineasta italiano transportou para a Itália dos nossos dias –, The Burnt Orange Heresy (em tradução literal: A Heresia da Laranja Queimada) é protagonizado por um ambicioso crítico de arte, James Figueras (Claes Bang), que se envolve com uma sedutora turista americana, Berenice Hollis (Elizabeth Debicki, a actriz que encarnou Virginia Woolf no recente Vita & Virginia), sendo ambos desafiados por um coleccionador excêntrico (Mick Jagger) a roubar uma obra do esquivo criador Jerome Debney (Donald Sutherland), espécie de J. D. Salinger do mundo da arte.

Este novo filme de Capotondi, que surge uma década após a sua estreia na longa-metragem com A Hora Dupla (2009), é descrito nos materiais promocionais do festival como “um erótico e elegante thriller neo-noir”.

Com formação académica em Filosofia, Giuseppe Capotondi, há muito radicado em Londres, tinha já uma longa e prolífica carreira como realizador de vídeos musicais e publicitários antes de chegar ao cinema, tendo colaborado com cantoras como Melanie C[hisholm], Emma Bunton ou Natalie Imbruglia, e ainda com várias bandas britânicas, como Skunk Anasie, Bush ou Keane.

E se este Burnt Orange Heresy é apenas o seu segundo filme, o realizador italiano dirigiu ainda duas séries televisivas produzidas pela Netflix: Suburra e Berlin Station, e ainda um episódio da prestigiada série policial britânica Endeavour.

Já o realizador escolhido para abrir o festival, o japonês Hirokazu Kore-eda, tem uma extensa filmografia, entre documentários e longas-metragens de ficção, que inclui, para citar apenas as obras mais recentes, Depois da Tempestade (2016), O Terceiro Assassinato (2017), Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões (2018) e, finalmente, The Truth, com estreia marcada em Veneza. 

Com Catherine Deneuve num papel que a não terá propriamente obrigado a sair da sua pele – interpreta uma grande estrela do cinema francês, Fabienne –, The Truth é descrito pelo director do Festival de Veneza, Alberto Barbera, como “uma reflexão poética acerca da relação entre uma mãe e a sua filha, e também sobre a complexa profissão de actriz”.

Quando Fabienne, que reina sem oposição na sua corte de admiradores masculinos, decide publicar um volume de memórias, a sua filha Lumir (Juliette Binoche) e o seu genro americano (Ethan Hawke) viajam de Nova Iorque até Paris para a reverem. Uma reunião familiar que não tarda a descambar em confronto aberto. “São ditas verdades, saldadas contas, confessados amores e ressentimentos”, inventaria a breve sinopse adiantada pela produção do filme.

Depois de ter vencido no ano passado a Palma de Ouro do Festival de Cannes com Shoplifters, Kore-eda assina aqui o seu primeiro filme que não é falado em japonês. Com diálogos em francês e inglês, The Truth “tem um elenco de prestígio, mas o filme conta uma pequena história familiar, que se passa no interior de uma casa”, diz o realizador. “Tentei pôr as minhas personagens a viver nesse mundo fechado – com as suas mentiras, orgulho, remorsos, tristeza, alegria, reconciliação”.