Opinião

Investimento que gera desenvolvimento

As empresas têm de ser competitivas e estar sempre a inovar para criar riqueza, porque as economias baseadas no consumo não são sustentáveis.

Recentemente, a Comissão Europeia publicou o tradicional relatório semestral sobre os países da União Europeia. No caso de Portugal, deixa alguns elogios, mas também alerta para possíveis perigos.

No tocante à avaliação dos progressos das reformas estruturais, a Comissão elogia o trabalho efetuado, sendo que isso permite enfrentar os desafios estruturais. Elogia a redução do desemprego, mas volta a salientar um eterno problema da economia portuguesa: a baixa produtividade do trabalho. Para a Comissão, este problema deve-se essencialmente ao baixo nível médio das qualificações dos nossos trabalhadores.

É verdade que as qualificações médias são mais baixas em comparação com outros países da União Europeia, mas existem outros fatores que também contribuem para a baixa produtividade, como sejam a utilização de tecnologias inadequadas, organização do trabalho, não produção de bens e serviços de elevado valor acrescentado e as próprias baixas qualificações dos empresários. A média das habilitações literárias dos empresários é inferior à média das habilitações literárias dos seus funcionários.

O eterno problema da baixa produtividade do trabalho origina a não obtenção de ganhos extra de competitividade do tecido empresarial, que só por si poderiam projetar aumento das exportações, diminuição das importações e incremento no investimento privado. Por outro lado, ainda provocaria aumento dos salários, o que beneficiaria o consumo e mesmo a poupança. Em suma, aumentos sustentados do produto.

Mas existe um ponto que a Comissão considera importante, porque o é mesmo: Investigação & Desenvolvimento (I&D). Existe erradamente quem considere esta rubrica como uma despesa, mas na realidade é um investimento.

Apesar de a Comissão reconhecer que em Portugal, como um todo, este tipo de investimento tem aumentado (cerca de 1,4% do PIB em 2018, que correspondia, por exemplo, ao que a Alemanha investia em 1995), considera que continua a existir pouca ligação entre as universidades e as empresas.

Este valor de I&D investido por Portugal e a falta de ligação ao tecido empresarial, além de dificultar a empregabilidade de profissionais altamente qualificados, torna pouco eficiente o sistema de inovação, provocando mesmo o seu estrangulamento.

Em Portugal, mais de 96% das empresas são consideradas micro (menos de dez trabalhadores) e com uma deficiente difusão da inovação a sua produtividade não progride. Por si só, estas empresas muito dificilmente conseguem efetuar progressos na cadeia de valor. Apesar de, no país, já existirem diversos centros tecnológicos, as microempresas não estão a beneficiar dessas estruturas existentes por diversos motivos. Primeiro, muitos desses microempresários preferem estar orgulhosamente sós. Qualquer contacto com um centro tecnológico ou com outra empresa do mesmo ramo é visto como um sinal de fraqueza ou como transmissão de informações para o mercado e para a concorrência. Depois, os centros tecnológicos não se aproximam destas empresas. São demasiado pequenas.

Tudo isto é uma questão de mentalidades, o que é sempre difícil mudar, mas num mundo altamente globalizado aumentar a competitividade empresarial, a produtividade e as progressões nas cadeias de valor são sinónimos de sustentabilidade a longo prazo e são sinónimos de capacidade de competir nos mercados externos.

Devem ser criadas condições e processos que permitam disseminar o conhecimento e a inovação para esta enorme parcela de empresas. A economia portuguesa precisa que estas empresas progridam e não se isolem. Cada uma destas empresas tem pouco peso na economia, mas todas juntas valem mais de 40% do emprego remunerado em Portugal (quase 1.800.000 trabalhadores). Apresentam um volume de negócios superior a 71.000 milhões de euros e contribuem para o valor acrescentado bruto com mais de 21.000 milhões de euros. Metade dos postos de trabalho criados nos últimos anos deve-se às microempresas.

Dada a baixa taxa de internacionalização das microempresas portuguesas, incrementos na sua produtividade iriam aumentar o seu potencial exportador. As empresas têm de ser competitivas e estar sempre a inovar para criar riqueza, porque as economias baseadas no consumo não são sustentáveis.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico