Opinião

A produtividade do trabalho em Portugal

Em Portugal existe a necessidade de mostrar que se trabalha muitas horas, mas no fundo o que se produz é muito pouco.

Ano após ano, continuamos na cauda da Europa em termos de produtividade do trabalho por hora trabalhada, sendo que em 2017 ainda piorámos o desempenho. A continuar assim, dentro de pouco tempo seremos os menos produtivos da Europa, já que com poucas exceções os outros países estão a progredir. A produtividade do trabalho é uma importante medida de desempenho organizacional e um indicador de competitividade. Assim, é imperioso encontrar formas de a melhorar.

Voltando ao nosso país (que é isso que interessa), este resultado sempre medíocre deveria levar a uma reflexão por parte de todos. Mas, afinal, a que se deve tão fraco desempenho e por que é que, em vez de progredirmos, regredimos? Será culpa das entidades patronais, da hierarquia, dos trabalhadores? A minha resposta é que a culpa é um pouco de todos, embora com predominância para os detentores do capital e dos gestores.

Com produtividades baixas logicamente os salários terão que ser baixos, pois não se pode pagar salários altos com tão baixo desempenho.

Em primeiro lugar, é preciso salientar que ser produtivo não significa estar sempre a trabalhar, ou sair tarde do trabalho só porque a cultura da organização assim o dita. O trabalhador produtivo europeu sai a horas do seu trabalho e fica com tempo livre para si, sendo que isso não faz dele um mau trabalhador ou menos interessado pela empresa. Pelo contrário, cumpriu com a sua missão de uma forma produtiva e tem direito ao seu merecido descanso. Em Portugal existe a necessidade de mostrar que se trabalha muitas horas, mas no fundo o que se produz é muito pouco. Quem não entra no jogo desta aparência é visto como um desinteressado pela organização e acaba por ser despedido ou colocado de lado. É uma autêntica história do faz de conta.

Mas, afinal, como podemos melhorar a produtividade? Fundamentalmente com investimentos de qualidade e níveis de escolaridade mais elevados. Dispomos de um baixo nível de capital por trabalhador. Sem investimento, o progresso tecnológico não é incorporado no produto, e isso não acontece na grande maioria dos países europeus. Assim, a nossa produtividade é mais baixa porque não estamos em igualdade tecnológica.

Em relação aos progressos tecnológicos, Portugal viveu sempre uma situação muito peculiar. Passámos pelas diversas revoluções industriais, sem termos tido no país uma verdadeira revolução industrial. Com o condicionamento industrial do Estado Novo o progresso tecnológico mais uma vez foi adiado, pois era absolutamente proibido substituir ou comprar novas máquinas sem o consentimento do ministro do Comércio. Este facto, como o objetivo de impedir excessos de produção e desemprego, impediu e adiou a iniciativa privada de melhorar a produtividade e progredir na escala de valor.

Mas depois da adesão à Comunidade Europeia, e com o acesso aos sucessivos e generosos programas de apoio financeiro, tudo poderia finalmente começar a mudar. Pouco se notou. Desde 1995 que em termos de produtividade do trabalho nunca ultrapassámos os 70% da média da União Europeia e os 60% da média da Zona Euro.

Amplos e efetivos benefícios fiscais, para quem investir em tecnologias mais produtivas, certamente ajudariam a incentivar a mudança. Benefícios para todos os empresários que queiram melhorar a produtividade e não só para alguns, como muitas vezes acontece. Investimentos estrangeiros são bem-vindos e trazem progresso, mas não se pode tratar as empresas portuguesas de forma diferente. Os portugueses continuam no país, mas os investimentos estrangeiros facilmente se deslocam. Não têm pátria, apenas se movem pela maximização dos lucros e pelas condições proporcionadas para tal.

Outra prioridade é vocacionar o ensino e a formação para aumentar a produtividade e não para matérias que apenas contribuem para o ego de alguns. Infelizmente, o ensino ainda está muito vocacionado para conceitos teóricos e não para o que os futuros trabalhadores irão encontrar na vida real. Também neste capítulo existem muitas resistências à mudança.

Melhorar as mobilidades dos trabalhadores também é necessário. Demorar menos tempo no trajeto casa-trabalho evita cansaços e custos desnecessários.

Pensar a longo prazo e não a curto, sendo que para isso é necessário apoiar e incentivar programas de I&D (Investigação e desenvolvimento) mesmo nas pequenas e médias empresas. Diversos estudos empíricos provam que a ligação entre I&D, inovação e produtividade não difere amplamente entre o tamanho das empresas.

A inovação de algumas empresas permite aumentar a produtividade global da economia via concorrência. Os concorrentes ou também inovam ou são naturalmente excluídos do mercado, dando lugar a empresas mais produtivas. É um natural processo de seleção, onde apenas os melhores vencem.

Produtividades mais elevadas permitem que as empresas tenham maior produção com os mesmos consumos, obtenham receitas suplementares, promovam o crescimento económico, conseguindo mais facilmente competir nos mercados internacionais e poder pagar salários mais elevados. É isto que acontece nos países mais desenvolvidos. Os trabalhadores ganham mais porque são mais produtivos, não porque trabalham mais. Pelo contrário, até trabalham menos horas. Têm um crescimento sustentável e inclusivo e elevam os padrões de vida a longo prazo.

Para responder às variáveis altamente dinâmicas da atualidade, outra sugestão para aumentar a produtividade do trabalho é implementar estratégias de flexibilidade do trabalho (por ex. rotação de tarefas, ou rotação de cargos e funções), que são benéficas para o surgimento de inovação por parte dos trabalhadores, pois estimula comportamentos inovadores. Estas mobilidades reduzem ainda as barreiras à comunicação.

O empoderamento do trabalho estimula a criatividade, autonomia e inovação, já que os trabalhadores têm que desenvolver novas estratégias e habilidades para se manterem competitivos. Estimula ainda a cooperação e a partilha do conhecimento. A mistura e cruzamento de conhecimentos disponíveis pode originar a criação de novos conhecimentos, mais produtivos que os anteriores.

Numa altura em que se começa a falar do próximo quadro comunitário de apoio, e das suas prioridades, não devemos descurar apoios e iniciativas que promovam o aumento da produtividade do trabalho.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico