Alexandria Ocasio-Cortez denuncia “condições pavorosas” na fronteira com o México

Congressistas do Partido Democrata visitaram dois centros de detenção onde há imigrantes a dormir em casas de banho. Agentes queixam-se do trabalho de “babysitting” enquanto os contrabandistas aproveitam a falta de controlo na fronteira.

A congressista do Partido Democrata visitou dois centros de detenção
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A congressista do Partido Democrata visitou dois centros de detenção Reuters

A agência norte-americana que controla as fronteiras dos EUA com o México foi acusada de proporcionar condições “pavorosas” aos detidos nas suas instalações e de partilhar comentários ofensivos contra imigrantes e refugiados num grupo privado no Facebook. As denúncias foram feitas pela congressista Alexandria Ocasio-Cortez, do Partido Democrata, durante uma visita a dois centros de detenção no estado do Texas, na segunda-feira.

A visita de Ocasio-Cortez e de outros elementos do grupo de congressistas hispânicos na Câmara dos Representantes dos EUA focou-se nos centros de detenção de El Paso e Clint, a pouca distância da cidade mexicana de Juárez.

De acordo com a congressista, os detidos são alvo de abuso psicológico. “Depois de ter forçado a minha entrada numa cela onde estão detidas mulheres, uma delas descreveu o tratamento a que são sujeitas às mãos dos agentes como ‘guerra psicológica’”, disse Ocasio-Cortez, eleita em Novembro de 2018, pela primeira vez, como representante da ala mais progressista do Partido Democrata pelo estado de Nova Iorque.

“Até agora, tem sido pavoroso”, disse a congressista no Twitter sobre a visita.

"Cultura violenta"

Para além da visita dos congressistas norte-americanos, a agência de segurança na fronteira viu-se também envolvida numa polémica revelada por uma investigação do site ProPublica, que descobriu um grupo no Facebook usado por milhares de agentes, reformados e no activo, para partilharem conteúdo ofensivo.

No grupo circulam piadas sobre mortes de migrantes e conteúdo sexualmente explícito sobre Alexandria Ocasio-Cortez, segundo a ProPublica.

“Não estamos a falar de uns quantos ovos podres”, disse Ocasio-Cortez no Twitter. “Estamos a falar de uma cultura violenta.”

A direcção da agência condenou o grupo do Facebook e reconheceu que há vários agentes envolvidos. Matthew Klein, o comissário adjunto do Gabinete de Responsabilidade Profissional da agência, disse que o grupo em causa é “perturbador” e viola o código de conduta.

O caso foi enviado para apreciação do inspector-geral do Departamento de Segurança Interna, que tem jurisdição sobre a agência de segurança na fronteira.

De acordo com uma imagem publicada pela ProPublica, o grupo no Facebook tem 9500 membros inscritos.

“Os posts são completamente inadequados e contrários à honra e à integridade que eu espero dos nossos agentes todos os dias”, disse a chefe da agência, Carla Provost. “Quaisquer funcionários que tenham violado os nossos princípios serão responsabilizados.”

"Perigosa sobrelotação"

As condições nos centros de detenção na fronteira entre os EUA e o México têm sido postas em causa desde que um grupo de supervisão do Governo norte-americano alertou, em Maio, para a “perigosa sobrelotação” nas instalações de El Paso.

Em Junho, advogados especializados em imigração denunciaram as condições “miseráveis” em que se encontram as crianças num outro centro de detenção no Texas, na cidade de Clint. Os congressistas norte-americanos visitaram as duas instalações na segunda-feira.

O Presidente dos EUA, Donald Trump, fez do combate à imigração ilegal uma das peças centrais da sua administração, mas as instalações não têm resistido à pressão de um novo fluxo migratório de países como a Guatemala, Honduras ou El Salvador. O número de detenções na fronteira com o México chegou a 132.000 em Maio, o mais elevado em mais de uma década.

Durante a visita dos membros da Câmara dos Representantes, na segunda-feira, a congressista Judy Chu, da Califórnia, falou de forma emocionada sobre o que viu.

“Nunca esquecerei a imagem de estar numa cela e de ver 15 mulheres com as lágrimas a caírem-lhes da face enquanto falavam sobre como é estarem separadas dos seus filhos, sobre o facto de não terem água corrente e sobre o facto de não saberem quando serão postas em liberdade depois de 50 dias em detenção.”

Depois de um período em que aplicou uma política de separação de famílias, a Administração Trump garante que agora só recorre a essa medida se estiver em causa algum risco para as crianças – mas não avançou pormenores sobre essa definição de risco.

Queixas dos agentes

Os agentes de segurança na fronteira também têm manifestado preocupações por causa das condições de detenção, segundo documentos publicados na segunda-feira pelo inspector-geral do Departamento de Segurança Interna.

Segundo o documento, os agentes temem que haja motins por parte de migrantes detidos em condições de sobrelotação e sem cuidados adequados, e mostram-se “envergonhados” e “frustrados” com as condições de detenção em El Paso.

O documento foi obtido pelo site MuckRock ao abrigo da Lei de Liberdade de Informação e noticiado pela primeira vez na segunda-feira pelo canal NBC News. E revela que, em Maio, os inspectores do departamento constataram que mais de metade dos 756 imigrantes detidos em El Paso estavam a dormir numa cela improvisada a céu aberto, e que as celas no interior tinham cinco vezes mais pessoas do que a sua capacidade máxima.

Os inspectores viram detidos colocados em casas de banho porque não tinham espaço nas celas e outros exemplos de más condições que podem também afectar a saúde dos agentes.

A agência tem cerca de 19.000 funcionários em todo o país, menos do que os 21.500 que é autorizada a contratar. A direcção diz que está sempre a tentar contratar agentes, mas que não tem conseguido preencher todas as vagas.

Em Maio, a chefe da agência, Carla Provost, disse que os agentes gastam pelo menos 40% do seu tempo de trabalho a “cuidar de crianças e da saúde dos detidos, a conduzir autocarros e a distribuir comida”, em vez de fazerem cumprir a lei tal como foram treinados para fazer.

Estas condições de trabalho têm também provocado problemas de moral e motivação nos centros mais afectados, como o de El Paso. Um agente que falou sob anonimato ao canal KVIA, de El Paso, disse que o seu trabalho está reduzido a fazer de babysitter a migrantes enquanto os contrabandistas exploram a falta de agentes na fronteira.