De um lado, os habitantes; do outro, os investidores. Este filme mostra as duas faces da Almirante Reis

Este filme é uma dicotomia: “Estás a olhar para aquelas pessoas e estás a ouvir gajos a falar sobre prédios de três milhões e apartamentos de 650 mil euros.” A Avenida Almirante Reis, em Lisboa, é “no mínimo sui generis. Mas no futuro vai ser “diferente”, acredita Filipe Penajóia. Quis, por isso, construir uma memória que permanecesse — para mais tarde revisitar aquele lugar que tantas vezes percorre “de uma ponta à outra”. Esse sítio “tão multicultural”, onde encontra “dragões, sereias e monstros marinhos” (em forma de humanos, pois claro) — mas onde não há príncipes nem princesas. E se os houvesse… não teriam onde morar: os "palácios" estão à venda por valores astronómicos.

Foi “há cerca de seis ou sete anos”, numa altura em que a zona “tinha uma conotação muito negativa”, que o realizador de 30 anos se mudou para lá. Sempre teve vontade de filmar a área e as pessoas que encontrava "todos os dias”, precisamente por serem tão características, mas não pensava que dessas filmagens iria nascer um mini-documentário — ou um “filme experimental”, como lhe chama —, que agora se estreia no P3.

Queria “registar tudo”, guardar para a posteridade. Compilou uma série de rostos que fazem parte da identidade da Almirante Reis — “personagens quase mitológicas” do quotidiano da avenida: “Se tu andares naquela rua, estas pessoas estão lá. Não andei pelos recantos à procura de pessoas diferentes”, garante. São proprietários de lojas ou pessoas que habitam ruas paralelas — são o retrato da rua. Conhecemos-lhes as caras, mas nunca chegamos a escutar-lhes a voz. Ao longo dos quatro minutos de filme, apenas se ouvem gravações de chamadas telefónicas: as que o realizador lisboeta fez para sondar a oferta imobiliária na zona

“Devo ter feito umas 50 chamadas”, conta Filipe. “Liguei para apartamentos e prédios na Almirante Reis e a minha conversa foi sempre a de que era um investidor e queria perceber como é que o mercado estava”, continua. Do lado de lá, ouviu propostas de rendas de 6.500 euros mensais e apartamentos que custam 3 milhões de euros: uma realidade que “não é de todo acessível a estas pessoas” que "fazem parte da génese da Almirante Reis e estão a ser um bocado escorraçadas destes locais”.

Este filme é então uma despedida? “Tem piada falares nisso porque o primeiro nome que eu tinha para o filme era Um Brinde ao Futuro. A ideia era a de brindar a uma despedida porque eu sei que o futuro vai ser diferente do que estou a ver agora. Um brinde a estas pessoas e estes lugares porque sei que eles vão mudar.” Mas acabou por optar por Hic Sunt Dracones (em português, "aqui há dragões"), expressão utilizada na cartografia medieval para descrever um lugar "inexplorado e perigoso”: “Quando não se sabia muito bem o que existia num determinado território, dizia-se que ali existiam sereias e monstros marinhos”, explica. Relaciona essa ideia com as personagens do filme: “Estão um bocado à parte do que às vezes entendemos como sendo uma sociedade normativa.”

Este filme também é uma homenagem. Filipe garante que nunca teve qualquer “intenção política” ao fazer um documentário que fala de gentrificação — “isso podia ser redutor”. “Nunca quis tomar uma posição, só queria observar” e guardar “aquele registo temporal que fizesse também uma homenagem às pessoas e aos lugares”. Mas, no final, acabou por ter de colocar mesmo o dedo na ferida: “Devia isso às pessoas que filmei.”

Gostas de fotografar e tens uma série que merece ser vista? Não consegues parar de desenhar, mas ninguém te liga nenhuma? Andas sempre com a câmara de filmar para produzir filmes que não saem da gaveta? Sim, tu também podes publicar no P3. Sabe aqui o que tens de fazer.

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