Editorial

O futuro envelhecido que já nos bate à porta

O Banco de Portugal faz-nos perceber que estamos em risco de derrapar num modelo que está à beira do esgotamento

Há ideias que se instalam pela sua força. Ou pela sua lucidez. Como uma que João Miguel Tavares deixou no seu discurso do 10 de Junho, apelando para a necessidade de haver uma visão de futuro capaz de convocar as energias e as esperanças das pessoas. Esta quarta-feira, Rui Tavares foi ao encontro desse repto e deu como resposta a necessidade de se construir “uma sociedade do conhecimento altamente desenvolvida, baseada numa população muito qualificada e numa economia bastante mais especializada, que não deixe ninguém para trás”. É impossível não concordar com esta visão. Ou com esta urgência. Principalmente agora que começamos a perceber que estamos em risco de derrapar num modelo que dá sinais de esgotamento.

O relatório do Banco de Portugal que nos avisa para os custos que o envelhecimento já está a ter na economia é, nesse particular, dramático. Porque nos mostra uma consequência e uma causa da ausência de um destino mobilizador, desde que, pelo menos, Portugal aderiu à moeda única. Pelo meio tivemos, é certo, o “choque de gestão” de Durão Barroso e o “choque tecnológico” de Sócrates, mas se o segundo foi capaz de criar lastro para uma clara melhoria no sistema científico e tecnológico do país, não foi suficiente para mudar o cenário de um Inverno demográfico, nem para alterar a base de uma economia que continua a perder a batalha da produtividade.

Todos os indicadores o provam e o BdP vem uma vez mais pôr o dedo na ferida: sem transformações profundas no modelo de criação de riqueza, estaremos condenados a envelhecer empobrecendo. Se é preciso inventar uma causa colectiva na qual, como pensou e disse João Miguel Tavares, possamos acreditar, é essa necessidade de equilibrar um modelo de país que acredita muito na redistribuição e muito pouco na criação de riqueza. Ou, por outras palavras, nessa urgência de reinventar o papel do Estado e libertar as energias criativas dos cidadãos.

A geração mais qualificada de sempre, combinada com os exemplos positivos que o Presidente da República não se cansa de dar para aumentar a auto-estima do país, precisam afinal de uma nova narrativa política que, sem a matar, coloque numa nova dimensão a responsabilidade do Estado. Depois de uma década de crise profunda e de uma ligeira recuperação, era bom que o próximo ciclo político fosse marcado por uma nova ambição e por uma nova crença no futuro. Se alguém as assumir sem demagogias nem megalomanias, deve merecer o nosso reconhecimento.