Podemos faz mudanças na direcção a pensar em entrar no Governo

Pablo Echenique abandonará o Secretariado da Organização para ser o responsável pela negociação dos acordos de governo com os socialistas. Parte da oposição interna pede o afastamento de Pablo Iglesias.

Pablo Echenique Robba
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Pablo Iglesias com Pablo Echenique Susana Vera/REUTERS

Ele queria que fosse uma prova de como as relações estão melhores que nunca com um dos seus mais leais, Pablo Echenique, mas foi recebida com choque. Pablo Iglesias, líder do Podemos, partilhou no Twitter uma imagem em que o desenho animado Heidi atirava Echenique, em cadeira de rodas, para um abismo. “Desfruta da tua purga, Echenique, que vai durar pouco”, lia-se na publicação.

A troca de tweets foi encarada como um “fracasso no Twitter”, segundo fontes do partido referidas pelo La Vanguardia. E não tardou até que vídeos a gozar com o episódio surgissem na rede social.

Foi o tiro de partida para uma mudança na direcção do partido, a apontar para a desejada entrada no Governo ao lado dos socialistas de Pedro Sánchez, sem adiantar o congresso marcado para 2021. Coligação que é encarada pela direcção, diz o El País, como tábua de salvação para a crise que o partido vive. Na audiência desta quinta-feira com o rei de Espanha, Felipe VI, Iglesias dirá que Espanha precisa de um Governo estável e que sem o Unidas-Podemos Sánchez não o consegue garantir, de acordo com a Efe.

Echenique será substituído pelo deputado canário Alberto Rodríguez. A decisão será oficializada esta quinta-feira no órgão executivo do partido. E, no sábado, o Conselho Estadual dos Cidadãos reunir-se-á para discutir as causas do descalabro que o partido viveu no último mês e meio nas eleições legislativas, autonómicas e locais – perdeu mais de um milhão de votos nas legislativas e 900 mil nas autonómicas e locais. O partido desceu de 71 deputados para 42 no Parlamento espanhol e perdeu a maior parte da força local que tinha acumulado nos últimos anos.

Núcleo de fiéis

Na reunião de sábado, esperam-se mais mudanças – por exemplo, a saída de Pablo Bustinduy, secretário de Relações Internacionais, de todos os cargos partidários e da política activa e a sua substituição por Idoia Villanueva – e confrontos com a ala crítica da direcção. Decisões que têm por objectivo criar-se um núcleo ainda mais duro de fiéis a Iglesias para os tempos que se avizinham.

Echenique passará a liderar a Secretaria de Acção de Governo e Institucional, responsável pela negociação dos acordos de governo aos mais distintos níveis – nacional, autonómico e local – com os socialistas de Pedro Sánchez. Como justificação, membros da cúpula do partido, em declarações ao El País, explicaram que “não é realista que a mesma pessoa se ocupe de tarefas de negociação e de organização” e que Echenique terá “grande destaque” político – isto se Sánchez acabar por preferir o Unidas-Podemos ao Ciudadanos. O dirigente ganhou créditos por ter integrado a equipa que negociou os orçamentos com os socialistas na última legislatura.

Sánchez encontrar-se-á esta quinta-feira com o rei Felipe VI para discutir a formação do próximo governo, mas, segundo o Público.es, não houve nos últimos dias contactos entre Iglesias e o líder socialista. O primeiro espera que seja o segundo a dar o primeiro passo, visto Sánchez precisar dos votos do Unidas-Podemos para a investidura. A demora estará relacionada com as negociações para a escolha do próximo presidente da Comissão Europeia e com a visita de Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, também nesta quinta-feira. Os próximos dias serão fundamentais na formação do próximo executivo espanhol.

Silenciar crítica interna

A substituição de Echenique é uma estratégia para silenciar a ala crítica interna que exige mudanças na direcção e a antecipação do congresso depois da sangria eleitoral. A direcção argumentou com a fraca estrutura territorial, mas a oposição interna, liderada pela delegação de Andaluzia de Teresa Rodríguez e Nacho Escartín, secretário-geral em Aragão, contra-argumenta com a necessidade de se repensar todo o projecto político, reflectir sobre o último ciclo político com base nos resultados eleitorais e a necessidade de descentralização.

Uma reflexão em que Iglesias não escapa a críticas: uma parte da oposição exige o adiantar da Assembleia Cidadã para que Iglesias e Irene Montero, porta-voz do grupo parlamentar do Podemos, sejam substituídos. Acusam-nos de quererem homogeneizar o discurso, as mensagens e os perfis políticos, ao mesmo tempo que ignoram o compromisso de interpelar diferentes perfis com uma política de alianças eleitorais e de confluências mais desenvolvidas – a coligação da Izquierda Unida com o Podemos (Unidas Podemos) a nível nacional não foi acompanhada ao nível local, por exemplo.

“O Podemos tem futuro, mas Iglesias e Montero não”, escreveu o ex-secretário-geral do Podemos na Comunidade de Madrid, Ramón Espinar, numa coluna de opinião no eldiario.es. “Primeiro há que debater e aprofundar, estudar os dados e corrigir, e depois será determinado quem são as pessoas que melhor podem desempenhar estas tarefas”, complementou o porta-voz do Podemos Andaluzia Pablo Pérez Ganfornina, em conferência de imprensa em Sevilha, referindo não querer “cortar cabeças, mas discutir”. Primeiro a política e só depois os cargos.