Procuradora pede investigação a Proença de Carvalho e ao banqueiro Carlos Silva

Ano e meio depois de principal arguido da Operação Fizz ter levantado suspeitas sobre as duas figuras, o Ministério Público resolve investigá-las, muito embora os dois homens sempre tenham negado o envolvimento descrito por Orlando Figueira.

Daniel Proença de Carvalho
Foto
LUSA/MÁRIO CRUZ

As suspeitas do Ministério Público têm cerca de um ano: o banqueiro angolano Carlos Silva terá ajudado a corromper o procurador português Orlando Figueira, enquanto o advogado Proença de Carvalho terá cometido perjúrio quando foi interrogado em tribunal sobre o seu envolvimento na chamada Operação Fizz.

Porém, só no final da semana passada o Ministério Público resolveu investigar o ex-vice-presidente do BCP e o causídico – ano e meio depois de Orlando Figueira ter implicado ambos. E um ano depois de a própria procuradora do julgamento, Leonor Machado, ter anunciado que iria mandar extrair uma certidão da Operação Fizz. Coisa que afinal só fez agora.

A diligência retardada do Ministério Público surge logo a seguir a saber-se que Orlando Figueira, condenado a seis anos e oito meses de cadeia por ter sido corrompido pelo ex-vice-presidente angolano Manuel Vicente, havia processado Proença e Carlos Silva em 15 milhões de euros. Culpa-os pela situação a que chegou.

O magistrado trabalhava no Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP) quando resolveu meter uma licença sem vencimento de longa duração para ir trabalhar para Angola. Mas acabou por nunca sair de Portugal, onde ficou como consultor do BCP. Ficou provado em tribunal que tanto os seus empregos no sector privado como os milhares de euros que recebeu nas suas contas bancárias eram luvas que recebeu para arquivar uma investigação em que Manuel Vicente era suspeito de lavar dinheiro através da compra de um apartamento de luxo no Estoril.

Mas Orlando Figueira, que sempre negou estar envolvido em qualquer tipo de corrupção, revelou em Outubro de 2017 que quem o tinha aliciado para ir trabalhar para Luanda tinha sido Carlos Silva, e não Manuel Vicente, e que quando teve de rescindir o contrato de colaboração que tinha com uma empresa angolana do banqueiro – da qual recebeu salários, apesar de não ter chegado a desenvolver trabalho para ela – o fez através de Proença de Carvalho.

No requerimento que apresentou no final da semana passada a pedir a extracção de uma certidão para remeter ao DCIAP, “com vista a averiguar da eventual prática de corrupção activa, branqueamento de capitais e cometimento do crime de falso depoimento por Proença de Carvalho”, Leonor Machado qualifica as declarações prestadas pelo advogado sobre o seu papel em todo o caso como inverosímeis e contraditórias com alguns factos apurados durante o processo.

Não explica, porém, por que motivo só agora reagiu, uma vez que a própria sentença de primeira instância, proferida em Dezembro passado e da qual os arguidos recorreram para o Tribunal da Relação de Lisboa, também já indiciava suspeitas que só agora a magistrada vem levantar.

Carlos Silva sempre negou qualquer envolvimento com Orlando Figueira. Já Proença de Carvalho admite tê-lo ajudado a rescindir o contrato de trabalho, mas garante ignorar que o banqueiro angolano estivesse implicado na relação laboral. “Todas as pessoas têm direito à sua loucura. As acusações de Orlando Figueira só podem basear-se no delírio, porque nada as sustenta, como de resto ficou provado em tribunal”, reagiu o advogado após saber que havia sido processado em 15 milhões.