Marisa Matias, a candidata sem medo das ruas

A candidata do BE às europeias criticou o PS: “Aquilo que o PS tem defendido em Portugal, condicionado pela esquerda, não será, nem é, o que tem defendido no Parlamento Europeu.”

Marisa Matias desceu nesta segunda-feira a rua Morais Soares, em Lisboa
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Marisa Matias desceu nesta segunda-feira a rua Morais Soares, em Lisboa LUSA/ANTÓNIO COTRIM

Na Praça Paiva Couceiro, as bandeiras já se agitam. A cabeça de lista do Bloco de Esquerda às eleições europeias, Marisa Matias, chega e cumprimenta outros bloquistas. Das colunas, sai a voz de Fausto, com aquela canção está dado o tom festivo ao final de tarde: “Ó é tão lindo, ó é tão lindo”. É ao som de Por este rio acima que Marisa Matias se prepara para descer a movimentada Rua Morais Soares, em Lisboa. A bloquista, experiente nestas andanças, não tem medo da rua e, antes mesmo de se lançar passeio fora, diz aos jornalistas ser precisamente isso que procura: o contacto com as pessoas, saber os seus problemas.

“Faremos desta campanha um debate sobre aquilo que é o essencial e o essencial é falarmos dos problemas concretos das pessoas. Por isso, estamos aqui hoje, no final deste primeiro dia de campanha, para estar com as pessoas na rua. Não temos medo de conversar com as pessoas, de ir ao seu encontro, queremos mesmo fazer essa avaliação, estar com as pessoas, apresentar as nossas propostas”, diz Marisa Matias que, neste primeiro dia de campanha oficial, foi ainda a uma escola e à Autoeuropa falar com trabalhadores (tal como a CDU), para agitar as bandeiras dos serviços públicos, do ambiente e da legislação laboral.

“Não queremos uma Europa de offshore. Queremos uma Europa que responda aos problemas das pessoas, para as pessoas e que cumpra as promessas que lhes fez. Não queremos uma Europa offshore, em que o dinheiro só tem direitos e não tem deveres e as pessoas só têm deveres e não têm direitos”, continua. E reitera as críticas ao que considera ser a duplicidade socialista: “Estou no Parlamento Europeu há tempo suficiente para saber que aquilo que o PS tem defendido em Portugal, condicionado pela esquerda, não será, nem é o que tem defendido no Parlamento Europeu.”

Em Lisboa, os termómetros marcam 34 graus. “Está no arrancar”, pergunta o número dois da lista do BE, José Gusmão. São 18h20 e ao microfone grita-se: “Camaradas, vamos dar início à nossa arruada na Morais Soares!” Fausto cala-se para dar lugar à banda de dixieland que, agora sim, carrega no volume festivo da arruada. Seguem todos por ali fora: Marisa Matias, José Gusmão, Pedro Filipe Soares, Jorge Costa, Mariana Mortágua, Joana Mortágua, Isabel Pires, José Soeiro, entre muitos outros bloquistas. A coordenadora do partido, Catarina Martins, ficou retida no debate quinzenal no Parlamento.

Marisa Matias vai distribuindo os jornais do partido a quem passa, à porta das lojas. Pedem-lhe uma selfie. Cumprimenta este, dá beijinhos àquele. Diz adeus a quem está nas varandas. De algumas janelas, erguem-se polegares. Cumprimenta duas senhoras, mas, assim que se afasta, uma delas, Alzira Henriques, de 77 anos, vai confirmar o nome ao jornal que tem nas mãos. Sabia que era “qualquer coisa Matias”, não se lembrava do Marisa. Ainda assim, se for votar, garante que será no BE. Já Francisco Matias, naquele breve contacto, até brinca com a candidata: quem sabe não são família?

A temperatura da arruada pode não ter sido aquela que o partido já conheceu, por exemplo, nas últimas legislativas, quando chegou a terceira força política do país, mas, ainda assim, é raro alguém recusar uma simpatia à eurodeputada. Mais ou menos apressados, mais faladores ou de cara mais fechada, desejam-lhe boa sorte, felicidades. Até lhe dão conselhos: “Tem de fazer mais barulho. Não pode ir aí caladinha!” “Mais barulho?”, espanta-se a candidata. Os apoiantes reagem logo e começam a gritar: “Lado a lado pelo que é de todos! É esquerda, é bloco, é bloco de esquerda!”.

E a candidata que garante não ter medo das ruas – e que assegura estar a falar de si e não a provocar qualquer outro candidato, no caso o socialista Pedro Marques –, acabou mesmo por ouvir, pelo menos, um desabafo sério: Anabela Matos tem 67 anos, está há 65 anos a viver naquela rua e recebeu uma carta com ordem de despejo. Garante que vai “lutar”, mas pede a Marisa Matias que também lute por ela. “Com a minha idade, para onde é que vou?”. A bloquista, que tem a habitação como um dos eixos centrais do programa eleitoral, promete esse combate: “A habitação é um direito constitucional.”