Dalila Rodrigues vai dirigir os Jerónimos e Joaquim Caetano o Museu de Arte Antiga

Historiadores de arte assumem a direcção de dois dos equipamentos culturais mais importantes do país, ambos a braços com défice de recursos humanos e de autonomia financeira.

,Casa das Histórias Paula Rego
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O Ministério da Cultura anunciou esta segunda-feira os novos directores de dois dos seus equipamentos mais importantes. Dalila Rodrigues, 58 anos, assume a partir desta terça-feira a direcção do Mosteiro dos Jerónimos e da Torre de Belém, sucedendo a Isabel Cruz Almeida, que desempenhou estas funções nos últimos 35 anos e que agora se reforma. Joaquim Caetano, de 56 anos, historiador de arte, renderá em Junho António Filipe Pimentel como director do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), onde é há dez anos conservador de pintura. O gabinete de Graça Fonseca precisa que ambos exercerão os seus cargos em regime de substituição.

“Sinto-me honrada com o convite, mas só farei declarações quando houver um programa para apresentar”, disse esta manhã ao PÚBLICO a historiadora de arte, que nos últimos anos se dedicou à carreira universitária.

Joaquim Caetano, por seu lado, afirmou ter aceitado esta nomeação porque o convite “representa uma expressa confiança da ministra na equipa do MNAA dentro de uma perspectiva de continuidade do trabalho que tem sido realizado” na instituição, até aqui dirigida pelo carismático historiador de arte António Filipe Pimentel, voz crítica das estratégias para a área dos museus seguidas por sucessivos ministros.

“Obviamente que tenho total consciência da gravidade da situação, sobretudo em termos de recursos humanos e dos limites físicos do edifício, mas isso faz com que eu próprio e toda a equipa que aqui trabalha sintamos uma enorme responsabilidade em arranjar soluções para que o museu onde se reúne grande parte do mais importante património português tenha o seu futuro assegurado”, acrescentou este conservador.

Desde 2014 que o ainda director, que em nove anos de funções conheceu sete titulares da Cultura (só neste Governo vai no terceiro ministro), tem vindo a alertar para os problemas crónicos da instituição: a falta de autonomia que o torna demasiado dependente da burocracia da Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC), organismo que o tutela, a expansão eternamente adiada, bem como os constrangimentos financeiros e sobretudo humanos que impedem o museu de cumprir em pleno as suas funções, nomeadamente no que toca ao estudo das colecções e à sua relação com o público. Salas fechadas por falta de vigilantes têm sido regra no quotidiano do MNAA, como o PÚBLICO pôde comprovar ainda na passada semana.

Três museus e o CCB

As dificuldades que António Filipe Pimentel vem insistentemente denunciando têm vindo a intensificar-se, mas não são de agora. É por isso que a nova directora dos Jerónimos e da Torre de Belém os conhece bem. Do currículo de Dalila Rodrigues consta, precisamente, a direcção do MNAA, que assumiu entre 2004 e 2007. Saiu em conflito com a tutela, nessa altura o Instituto dos Museus e da Conservação. O director, Manuel Bairrão Oleiro, e a ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, não a reconduziram para um segundo mandato, tendo a historiadora de arte considerado essa decisão “ideológica”. Tal como o actual director, também ela reclamava para Arte Antiga um estatuto especial face ao dos outros museus públicos, com uma autonomia de gestão efectiva.

Doutorada em História de Arte pela Universidade de Coimbra, ganhou notoriedade enquanto directora do Museu Grão Vasco, em Viseu, funções que desempenhou entre 2001 e 2004, acompanhando as obras de renovação a cargo do arquitecto Eduardo Souto de Moura. Foi o sucesso do Grão Vasco que a levou à direcção do MNAA.

Após uma efémera passagem pela direcção do departamento de Comunicação e Marketing da Casa da Música, no Porto, em 2008, a historiadora de arte foi convidada para dirigir o novo museu dedicado à obra de Paula Rego em Cascais — a Casa das Histórias —, instalado num edifício também projectado por Souto de Moura. Apesar de o convite lhe ter sido dirigido pela artista, Dalila Rodrigues foi afastada do projecto logo em 2009, por decisão da própria pintora. Foi ainda administradora do Centro Cultural de Belém, cargo que deixou em 2015, quando a instituição era presidida por António Lamas. Regressou, então, à carreira académica, repartida entre a Universidade de Coimbra e o Instituto Politécnico de Viseu.

Nos Jerónimos e na Torre de Belém a nova directora terá de lidar, tal como Joaquim Caetano no MNAA, com uma dramática falta de pessoal, um problema aliás comum aos 23 museus e monumentos da DGPC. Num debate público que decorreu em Janeiro num dos auditórios do Parlamento, e em que esteve presente a maioria dos directores destes equipamentos, Isabel Cruz de Almeida garantiu: “Há um problema gravíssimo de recursos humanos e de segurança nos monumentos mais visitados do país.”

Dois cargos num

Com um percurso mais discreto, Joaquim Caetano, até aqui conservador de pintura do MNAA, foi durante dez anos (1999-2009) director do Museu de Évora, entretanto elevado à categoria de museu nacional com o nome de Frei Manuel do Cenáculo. Como investigador, dedicou parte dos seus estudos à obra dos pintores Diogo Contreiras e Jorge Afonso. Foi professor na Escola Superior de Artes Decorativas da Fundação Ricardo Espírito Santo Silva, e assistente convidado na Universidade de Évora, sendo também autor de dezenas de artigos e de livros sobre história da arte portuguesa e europeia.

Começou a trabalhar no MNAA em 1991, no âmbito do programa de inventário nacional dos bens culturais móveis, e passou pela Biblioteca Nacional de Portugal (1997-1999) antes de assumir a direcção do museu de Évora, cujas obras de requalificação acompanhou. Regressou a Arte Antiga em 2010, já com António Filipe Pimentel à frente da equipa responsável pela renovação de grande parte dos seus espaços expositivos e por um aumento significativo da sua visibilidade, tanto a nível nacional como internacional.

Hoje com 67 funcionários, menos 100 do que há 30 anos, de acordo com as contas feitas por Pimentel numa entrevista deste sábado ao diário espanhol El País, a equipa do MNAA perdeu recentemente ou está prestes a perder mais elementos-chave: o subdirector, José Alberto Seabra Carvalho, que até ao final do ano se deverá reformar; uma conservadora de mobiliário; a responsável pela comunicação; a directora de publicações, encarregue da edição de todos os catálogos da casa; e a administrativa que tornou exequível a campanha pública de angariação de fundos que em 2016 levou à compra da Adoração dos Magos, pintura de Domingos Sequeira, depois de reunidos quase 750 mil euros.

Com a saída do subdirector prevista para os próximos meses, e até que sejam feitas contratações, Caetano será, ao mesmo tempo, o director e o único conservador de pintura do museu, a principal pinacoteca pública do país.