João Fernandes sai do Rainha Sofia para dirigir o Instituto Moreira Salles no Brasil

O actual subdirector do museu madrileno, que antes passou pela direcção de Serralves, inicia as suas novas funções a 18 de Agosto.

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PEDRO ELIAS

O português João Fernandes, que desde 2012 era subdirector do Museu Nacional Centro de Arte Rainha Sofia, em Madrid, vai dirigir a partir de Agosto o importante Instituto Moreira Salles (IMS), no Brasil, com pólos em Poços de Caldas (Minas Gerais), no Rio de Janeiro e em São Paulo, confirmou o próprio ao PÚBLICO, adiantando que desenvolverá a sua acção a partir da nova sede da instituição na Avenida Paulista, projectada pelos arquitectos do escritório Andrade Morettin.

“Achei que valia muito a pena aceitar este desafio para estar no Brasil agora, neste momento complicado da vida do país, com uma sociedade tão polarizada, porque sinto que a arte e a cultura podem contribuir para formas de estar em comum que estimulem a diferença de ideias e emoções, já que é isso que a arte faz”, diz João Fernandes, que aceitou “o convite muito honroso” do IMS após “alguns meses de reflexão”.

Terá a seu cargo a programação dos vários espaços de exposição do Instituto, mas trabalhará na nova sede em S. Paulo, que “tem sido um sucesso”, diz, “com mais de um milhão de visitantes logo no primeiro ano”. E que já este ano se tornou a casa, lembra, de “uma maravilhosa escultura de Richard Serra”, Echo, realizada especificamente para o jardim externo do edifício. 

“Para o IMS, é um privilégio tê-lo como director artístico, assim como foi um privilégio contar com a inteligência e o talento de Lorenzo Mammi”, lê-se num comunicado daquela importante instituição brasileira, fundada em 1992, que tem um impressionante acervo em áreas como a fotografia e a literatura. O ex-director do IMS, explica o comunicado, teve de “retomar as suas actividades académicas na Universidade de São Paulo”, tendo-se desligado do instituto em Outubro do ano passado.

“O Instituto Moreira Salles tem uma extraordinária colecção de fotografia, acervos maravilhosos de escritores de que gosto muito, como Carlos Drummond de Andrade ou Ana Cristina César, uma notável colecção de música popular brasileira, e um importante conjunto de iconografia brasileira de viajantes europeus que visitaram o país no século XIX”, inventaria o futuro director artístico, sublinhando ainda “a excelente programação de cinema dirigida pelo realizador Kleber Mendonça” e lembrando que entre os descendentes do fundador do Instituto se contam outros dois cineastas que admira: os irmãos Walter Salles e João Moreira Salles.

João Fernandes salienta ainda a importância das publicações Zum, centrada na fotografia, e Serrote, que cruza a literatura e as artes visuais, “duas das mais interessantes revistas que hoje se publicam em língua portuguesa”.

Esta dupla relevância do IMS na literatura e nas artes visuais é uma das dimensões que mais o fascina. “Sobretudo a partir das vanguardas do início do século XX, os criadores misturaram as artes, e naturalmente que essas interacções me interessam muito, e por isso a literatura esteve sempre muito presente nas exposições que comissariei, como as dedicadas a Raymond Roussel ou a Fernando Pessoa”. 

O curador assumirá formalmente as suas novas funções em São Paulo a 18 de Agosto, mas manterá ainda, provisoriamente, alguma colaboração com o Museu Rainha Sofia, onde tem em mãos duas exposições, uma delas de um dos grandes nomes da poesia visual brasileira, o nonagenário Wlademir Dias-Pino, e outra de Concha Jerez, pioneira da arte conceptual espanhola. “Estou extremamente grato por tudo o que me permitiram fazer e aprender durante estes seis anos e meio em Madrid”, diz.

João Fernandes chegou ao Rainha Sofia vindo do Museu de Serralves, que dirigiu entre 2003 e 2012, substituindo o valenciano Vicente Todolí. No ano passado, a Art Review pô-lo, juntamente com o director do museu madrileno, Manuel Borja-Villel, na 51.ª posição da sua lista Power 100, que identifica a cada ano as figuras mais influentes do mundo da arte. A revista justificava a escolha elencando exposições como aquela que haviam dedicado ao sul-africano William Kentridge, ao artista luso-brasileiro e activista Artur Barrio e as correspondências artísticas de Fernando Pessoa, elogiando uma programação aberta “a nomes cujo trabalho não é propriamente ubíquo no circuito de museus nacionais”.

No IMS, o curador encontrará uma programação em andamento. “Já em Setembro, inaugurarei exposições programadas por Lorenzo Mammi e pelas equipas do IMS, e de artistas que prezo muito”, adianta, “como o Harun Farocki [1944-2014] ou a Susan Meiselas, fotógrafa da Magnum, autora de algumas das imagens mais extraordinárias do nosso tempo”. Um dos trabalhos de Meiselas teve como cenário, em 2004, o bairro da Cova da Moura, na Amadora.

O facto de ter “um ano de programação já estabelecido” irá também dar-lhe tempo para “construir uma filosofia e uma programação” que não serão imediatamente visíveis, mas que “se tornarão cada vez mais claras”.

Consciente de que vai trabalhar “num país com muita injustiça social e discriminação, que existem em muitos locais, mas que no Brasil por vezes assumem uma dimensão brutal”, João Fernandes diz que “obviamente” não pretende “ser um actor político”, mas invoca a lição de Godard para reconhecer que o seu trabalho não poderá deixar de envolver uma dimensão política. E sublinha a sua convicção de que “o acesso a formas de expressão artística contemporâneas é um referente importante para a vida social”.

Preocupa-o também o desconhecimento mútuo que hoje sente entre Portugal e o Brasil no que respeita à criação artística. “Espero poder contribuir para atenuar isso, mas há muito para fazer”, diz, lembrando que já na sua passagem pelo Museu de Serralves, no Porto, se empenhou em divulgar “muitos artistas brasileiros, como Cildo Meireles, Lygia Pape ou Lygia Clark”, e também “criadores portugueses que vivem no Brasil, como Artur Barrio ou António Manuel”.

“Como diz o Tom Jobim, o Brasil não é para principiantes, mas não me sinto principiante”, assegura o curador português, para logo matizar: “Claro que num país como este, tão grande e tão vivo, estamos sempre a principiar”.