Instituto Moreira Salles, uma janela indiscreta em São Paulo

Da recém-chegada sede do instituto, inaugurada em Setembro, observam-se os novos rostos da cultura urbana brasileira, que muitos vêem de cima pela primeira vez. O novo ícone cultural e arquitectónico da cidade reforça a posição da Avenida Paulista entre os principais pólos culturais do planeta.

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O edifício do Instituto Moreira Salles (IMS) na Avenida Paulista projectado pelo atelier Andrade Morettin Arquitetos. Pedro Vannucchi
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O edifício do Instituto Moreira Salles (IMS) na Avenida Paulista projectado pelo atelier Andrade Morettin Arquitetos. Pedro Vannucchi
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O edifício do Instituto Moreira Salles (IMS) na Avenida Paulista projectado pelo atelier Andrade Morettin Arquitetos. Pedro Vannucchi
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O edifício do Instituto Moreira Salles (IMS) na Avenida Paulista projectado pelo atelier Andrade Morettin Arquitetos. Pedro Vannucchi
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O edifício do Instituto Moreira Salles (IMS) na Avenida Paulista projectado pelo atelier Andrade Morettin Arquitetos. Pedro Vannucchi
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O edifício do Instituto Moreira Salles (IMS) na Avenida Paulista projectado pelo atelier Andrade Morettin Arquitetos. Pedro Vannucchi
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O edifício do Instituto Moreira Salles (IMS) na Avenida Paulista projectado pelo atelier Andrade Morettin Arquitetos. Pedro Vannucchi
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A exposição Robert Frank: Os Americanos Pedro Vannucchi
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Vista da exposição Corpo a Corpo Pedro Vannucchi
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Imagens da obra À Procura do 5.º Elemento, de Bárbara Wagner Bárbara Wagner
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Imagens da obra À Procura do 5.º Elemento, de Bárbara Wagner Bárbara Wagner
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O filme Terremoto santo, feito em colaboração com o artista Benjamin de Burca Bárbara Wagner
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O filme Terremoto santo, feito em colaboração com o artista Benjamin de Burca Bárbara Wagner
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O filme Terremoto santo, feito em colaboração com o artista Benjamin de Burca Bárbara Wagner

De 20 de Setembro até 30 Novembro, 240.470 pessoas passaram bem em frente a uma janela de um apartamento residencial como tantos outros em São Paulo, onde vive uma discreta família de judeus ortodoxos. Um apartamento comum, localizado na Avenida Paulista, no quarto andar, que por obra do destino se abriu à visita de uma multidão curiosa e barulhenta, despejada pela escada rolante que dá acesso ao prédio vizinho, a nova sede paulistana do Instituto Moreira Salles (IMS).

Numa cidade obcecada por segurança e vigilância, chega-se da rua ao quinto andar do novo prédio num minuto e 34 segundos, sem passar por nenhuma espécie de barreira. Fica ali a “praça suspensa” concebida pelos arquitectos do escritório Andrade Morettin, um espaço de 351 metros quadrados que se abre para a avenida num insolente rasgo na fachada de vidro. No quinto andar do edifício, o chão é semelhante ao do calçadão revestido com mosaico de pedras portuguesas que até há poucos anos cobria também a avenida mais famosa da cidade e que o prefeito João Doria agora quer retirar dos passeios do centro.

Não só a calçada portuguesa vai virando peça de museu em São Paulo, mas também a própria vista da sua mais imponente avenida. Até à inauguração do centro cultural, em Setembro, o celebrado cartão postal paulistano não podia ser contemplado do alto e de graça. Afinal, como escreveu Nelson Rodrigues, “paisagem é verba”. Talvez por isso tantos se detenham ali, ao completar a subida, para tirar fotos, em geral selfies, e para esquadrinhar o fluxo de pessoas, bicicletas e automóveis cinco andares abaixo, no primeiro quarteirão da Paulista. Muitos a olham de cima pela primeira vez.

A janela indiscreta que se abre sobre a avenida ajuda a lançar novos olhares sobre a fauna paulistana. Um “voyeurismo urbano”, nas palavras do jornalista e crítico de arquitectura Raul Juste Lores, que no seu recente livro São Paulo nas Alturas (editora Três Estrelas) narra a verticalização da cidade a partir da aliança entre empresários do imobiliário e arquitectos modernistas, produzindo jóias hoje escondidas na paisagem urbana.

O improvável “rés-do-chão suspenso”, diz ao PÚBLICO Juste Lores, “arma uma varanda privilegiada para se ver a rua. Você nem está no centésimo andar, vendo apenas o horizonte de prédios, nem no chão, onde é mais difícil apreender o conjunto”. O acesso ao prédio, feito unicamente pelas escadas rolantes paralelas que, em pequena escala, evocam a entrada do Centre Georges Pompidou, em Paris, também proporciona outra espécie de voyeurismo, o flirt entre os frequentadores que se encaram mutuamente enquanto sobem e descem.

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O IMS Paulista Pedro Vannucchi

Um espaço de resistência

Numa cidade saturada de prédios, a inauguração de mais um deles não deveria ser propriamente notícia. A farta programação cultural também traz questões sobre a necessidade de mais um museu numa região central e bem servida de equipamentos culturais, que já conta com o mais relevante acervo latino-americano de pintura, abrigado no mais bonito prédio da cidade (o Masp), boas livrarias e salas de cinema independente, além de duas robustas instituições privadas: o Centro Cultural da FIESP e o Itaú Cultural. Este ano, formando filas na calçada, a Japan House, dedicada às artes e à gastronomia nipónica, também abriu as suas portas na avenida.

Com o IMS e o futuro Sesc Paulista, centro cultural a ser inaugurado em 2018, não haverá margem para questionar a posição da avenida entre os principais pólos culturais do planeta. Danilo Santos de Miranda, o respeitado director do Sesc São Paulo, instituição que detém um orçamento superior ao do Ministério da Cultura brasileiro e é referência em programação cultural, vê uma conexão entre estes projectos, sobretudo no conturbado momento político brasileiro.

Num "ano de muitas incertezas e polémicas”, ele festeja o surgimento de “frentes de ampliação do trabalho sociocultural” como o IMS Paulista e o também recém-inaugurado Sesc 24 de Maio, projectado pelo arquitecto Paulo Mendes da Rocha, no centro da cidade. “São definições de espaços de resistência, de amplitude da educação crítica pela reflexão.”

O novo IMS não se instalou num ponto qualquer da Paulista, mas na confluência com as ruas da Consolação e Augusta, epicentro da nova cultura urbana de São Paulo. Por estar na Paulista, está no centro, mas, por também estar na fronteira do Baixo Augusta (o “red light district” paulistano), e no cruzamento de duas linhas de metro e de dezenas de linhas de autocarros que levam para todos os pontos da cidade, é também periferia, num jogo que reproduz e actualiza em pequena escala as contradições brasileiras.

A decisão dos irmãos Moreira Salles de erguer ali um novo edifício reorienta, de certa forma, as actividades da instituição cultural criada em 1992 pelo pai, o embaixador, banqueiro e mineiro Walther Moreira Salles (1905-2006), figura central na cultura, na política e nas finanças brasileiras do século XX. Nelson Rodrigues, que nos anos 1960 frequentava as festas dos Moreira Salles na sua mansão do Rio de Janeiro, actual sede carioca do IMS, definiu o magnata como um “tubarão”, mas “inflável” [insuflável], “desses de borracha”, no qual as crianças montam para brincar na piscina.

Um ícone discreto

Para dar forma à nova sede, os irmãos Fernando, Walter, Pedro e João, que hoje figuram na lista dos dez brasileiros mais ricos, organizaram um concurso de arquitectura, num regresso, segundo Raul Juste Lores, a uma “boa prática” do mercado imobiliário paulistano dos anos 50. O prédio de 150 milhões de reais (37 milhões de euros) foi uma nova doação feita pela família, conhecida pelos vultosos investimentos na área cultural, no jornalismo e nas ciências, ao património do IMS. A renda de um endowment (fundo) criado pelos Moreira Salles, de 800 milhões de reais (201 milhões de euros), é destinada ao financiamento do instituto. Ao contrário de praticamente todas as instituições culturais privadas brasileiras, o IMS não utiliza recursos públicos oriundos de leis de incentivo à cultura.

Venceu o concurso o escritório Andrade Morettin, um dos mais destacados na arquitectura brasileira pós-ditadura militar (1964-85). Na contramão dos projectos megalómanos que volta e meia se tentam fazer na Avenida Paulista — e das recentes queixas do prefeito paulistano sobre a ausência em São Paulo de “prédios icónicos” como os das metrópoles asiáticas e árabes —, o IMS Paulista resultou discreto. Por dentro, parece maior do que por fora. Com dois subsolos e cinco andares, foge do pesado betão aparente que caracteriza a escola paulista de arquitectura.

A “praça suspensa”, segundo José Lira, professor da Faculdade de Arquitectura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, “acolhe e organiza todo o sistema de fluxos do edifício, acima e abaixo”, resolvendo um problema central para um museu vertical. Encaixado com precisão num terreno diminuto, de mil metros quadrados, e com uma frente de apenas 20 metros, não poderia mesmo arvorar-se a arranhar céus.

“O edifício reage com grande habilidade a situações um tanto paradoxais”, afirma o professor José Lira. “Um programa de funções conciso mas complexo; um terreno enclausurado, de dimensões relativamente acanhadas, em uma das áreas mais dinâmicas da cidade; uma encomenda de cepa aristocrática, mas com uma proposta ilustrada de extroversão cultural”.

A construção, conta o arquitecto Vinicius Andrade, co-autor do projecto, foi “uma experiência radical”. A circulação de camiões pesados estava proibida durante o dia, à noite não era permitido fazer barulho, por causa da vizinhança residencial. O estaleiro de obras mal cabia no lote. Um prédio grande implantado num terreno pequeno pode sempre parecer um peru num pires, mas, com o revestimento translúcido das fachadas, o efeito não é esse.

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O interior do IMS Paulista Pedro Vannucchi

Os arquitectos preocuparam-se em garantir a privacidade, com os vidros opacos da fachada, que deixam a luz exterior entrar, mas impedem que olhares curiosos vazem para o lado de fora. A excepção é a janela do apartamento em frente à escada rolante. Não ocorreu aos arquitectos que ali a intimidade dos vizinhos poderia ser devassada? Ocorreu, segundo o arquitecto Vinicius Andrade, mas eles foram em frente. “Aquele ponto da fachada é o ponto onde os vizinhos e a cidade se encaram”, diz, e conclui: “Isso é inevitável”.

No meio do projecto, o novo Plano Director — lei municipal que rege a ocupação do solo urbano — retirou a obrigação, até então dogmática em São Paulo, de prever em cada novo edifício uma quantidade infindável de vagas na garagem, legislação que desde os anos 1950 ajudou a transformar o trânsito da cidade num dos piores do planeta. Em vez de escavar três subsolos para poder comportar cem vagas de carros, os arquitectos viram-se livres para projectar apenas dez vagas, dispostas no subsolo, das quais apenas duas, destinadas a pessoas com dificuldades de mobilidade, estão abertas ao público.

Até agora, a sede do IMS em São Paulo era um espaço acanhado no bairro de Higienópolis, que mais lembrava uma agência bancária; tudo acontecia no Rio, na casa da Gávea, a mítica residência da família, um dos endereços mais importantes para o poder e a cultura do país no século XX. Com murais de azulejos, jardins de Burle Marx, colunas e elementos típicos da arquitectura moderna brasileira, a antiga residência da família exala intimidade até nas maçanetas – forjadas num molde que traz o relevo dos dedos do falecido embaixador, elas dão ao visitante que as empunha a sensação de lhe apertar a mão.

Desprovido de maçanetas e vestido de preto e cinza, o IMS Paulista não poderia ser mais impessoal, neutro, anónimo, paulistano. Os amantes de paisagismo vão encontrar defronte do prédio uma única árvore, raquítica e desfolhada como a de um cenário de À Espera de Godot; no árido jardim, ainda provisoriamente executado — existem planos de instalação de um site-specific de um grande artista internacional —, há apenas brita e parcas espécies vegetais.

"Um excesso de sucesso"

Se tudo isso já estava de certa forma na prancheta dos arquitectos e nos planos do curador, a resposta do público não deixou de surpreender a direcção do instituto. Primeiro, em termos numéricos: o prédio virou rapidamente, como se diz no Brasil, um point, ou seja, um sítio concorrido. Preparado para receber 50 mil visitantes por mês, o IMS tem de lidar com o dobro dessa quantidade. O restaurante Balaio, do badalado chef Rodrigo Oliveira (Mocotó), e a carioca Livraria da Travessa contribuem para amplificar o bochicho (a animação). “O público esperado para os domingos está aparecendo em dias de semana”, conta o arquitecto Vinicius Andrade. “Estamos sofrendo de um excesso de sucesso.”

O museu não só passou a ser frequentado por um público muito maior, mas também mais diverso do que aquele que se vê nas suas exposições cariocas. “É impressionante”, disse ao PÚBLICO, poucos dias depois da inauguração, o carioca Flávio Pinheiro, o jornalista que desde 2008 dirige o dia-a-dia do IMS, “mas vocês de São Paulo naturalizaram uma coisa que não se vê no resto do Brasil, os casais gays andando de mãos dadas nas ruas. Isso é uma maravilha”.

Pinheiro observa a cidade de um ponto de vista que o curador artístico do IMS, Lorenzo Mammì, chama de “situação de esquina”. Sem estar literalmente na esquina, o novo IMS precisa, segundo ele, de dialogar com o “grande eixo cultural” da Paulista, com suas grandes exposições, e ao mesmo tempo com a cultura underground, marcada por pequenos negócios culturais e boémios em torno da rua Augusta, via que une o centro histórico à rica região dos Jardins, passando pela Paulista.

Por isso mesmo, as exposições escolhidas para abrir os trabalhos no IMS Paulista trazem a sofisticação de um Robert Frank (Os americanos; termina com entrada livre este sábado) e de um Christian Marclay (The Clock foi exibido até Novembro), lado a lado com a estética pop da exposição Corpo a corpo. “Essas duas realidades não são conflituantes: ao contrário, são complementares”, diz ao PÚBLICO Mammì, um italiano especializado em música e arte, autor de uma recém-publicada tradução de As confissões, de Santo Agostinho. No Brasil há 30 anos, este professor de História da Filosofia Medieval na Universidade de São Paulo (USP) e crítico de arte dirigiu por alguns anos o importante Centro Universitário MariAntonia, pertencente à USP.

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Vista da exposição Robert Frank: Os Americanos Pedro Vannucchi

O Baixo Augusta – como é informalmente conhecida a região que desce da Paulista, ponto culminante da cidade, até à Praça Roosevelt, que concentra bares e pequenos teatros, além de “inferninhos” (pequenas boîtes pouco iluminadas e que geralmente passam música em altíssimo volume), karaokes e prostíbulos —, é de facto, um pólo de resistência da cultural. É por ali que vão morar, trabalhar e divertir-se centenas de brasileiros excluídos das suas cidades de origem. Ali nasceu, sob repressão policial, a Parada Gay paulistana (hoje um dos mais importantes eventos no calendário de negócios da cidade). Ali fermentou nos últimos anos uma campanha a favor da criação de um novo espaço público, o Parque Augusta, objecto de disputas políticas, manifestações populares e embates com o mercado imobiliário. Ali começaram as manifestações populares de 2013 que acabariam incendiando a política brasileira até aos dias de hoje.

Assim como os gays, também se apropriaram da região diversos grupos de cultura hip-hop, jovens MC que fazem dos seus próprios corpos verdadeiras expressões artísticas. A diversidade e originalidade dos looks de rappers, skaters, dançarinos, ciclistas e grafiteiros que circulam pela região estão entre as mais fortes marcas da cultura urbana de São Paulo, mas poucos imaginariam que iriam estampar as paredes dos seus mais importantes museus.

As estéticas das periferias

A exposição Corpo a corpo, com curadoria do coordenador de fotografia contemporânea do IMS, Thyago Nogueira, procura trazer para dentro dos muros do museu essa “batalha” travada nos corpos e nas ruas do Brasil, numa reunião bastante heteróclita de artistas e colectivos que a instituição classifica como “estéticas das periferias”.

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Vista da exposição Corpo a Corpo Pedro Vannucchi

Para surpresa dos organizadores, a exposição que termina este sábado com entrada livre tornou-se cenário para fotos do próprio público, que, em vez de se limitar a fazer selfies ou retratar as obras, se apropriou ruidosamente do espaço para posar em grupo, imitando os modelos das fotos. Poucas semanas depois da abertura do museu, uma batalha de passinho – dança de rua nascida no caldo cultural do funk carioca e normalmente exercitada em passeios e em estações de metro – foi promovida no rés-do-chão. Cenas impensáveis na casa da Gávea, a sede carioca – não por restrições de acesso ao público da favela da Rocinha, que fica bem ao lado, mas porque ali isso simplesmente não acontece.

A pernambucana Bárbara Wagner criou uma imensa galeria de retratos de MC que ostentam os mais incríveis cortes de cabelo, roupas e adereços corporais, posando com a atitude altiva de um presidente de empresa ou de um patriarca diante do retratista oficial. Bárbara também apresentou na exposição um trabalho em vídeo que desconcerta pela abordagem directa, talvez irónica, da estética das igrejas evangélicas, algo que é motivo de desconforto para a intelectualidade e o meio cultural.

Apresentando-se como “produtora”, não como “artista”, Barbara convidou os membros de uma igreja pentecostal da Zona da Mata de Pernambuco a produzir, “em parceria”, videoclipes das enfadonhas canções gospel entoadas nos cultos. O resultado impressiona: os fiéis desempenham o seu papel com rara expressividade e entrega cénica. Foi providenciado equipamento profissional de luz, som e direcção de câmara, além de figurinos especiais, uma ensaiada coreografia e cenários bucólicos: cachoeiras, florestas, rios. A jornalista Anna Virginia Balloussier questionou em artigo na Folha de S. Paulo se a intenção do trabalho seria de facto dar voz a uma estética popular – ou, quem sabe, zombar da sua aparência kitsch.

“O caso dos MC é mais mastigado”, explica Mammì. “No caso dos evangélicos de Pernambuco, para nós eles são mais ‘estranhos’. A questão é entender as referências. O Jonathas [de Andrade, um dos artistas da exposição Corpo a corpo], que é de lá, saiu [da exposição] com os olhos marejados. É uma coisa muito forte, de uma certa cultura popular do interior do Brasil. Tem momentos intensos e momentos que tocam o kitsch. Tem uma linguagem tensa.” 

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MC Zacarias em À Procura do 5.º Elemento, de Bárbara Wagner Bárbara Wagner

Foco na fotografia

Foi Flávio Pinheiro que deu ao instituto as feições actualmente conhecidas: abriu revistas (Serrote, de ensaios e artes, e Zum, de fotografia), contratou coordenadores de literatura, artes, cinema, fotografia antiga e contemporânea, incorporou importantes acervos de escritores e artistas (como Millôr Fernandes ou Carlos Drummond de Andrade), inaugurou parcerias internacionais e focalizou a fotografia como linguagem prioritária nos projectos. Criado a partir de uma importante colecção de fotografia do século XIX e de obras de arte reunidas sem critério museológico, o acervo foi reorganizado – certas obras foram vendidas, outras adquiridas – para que o IMS não se tornasse mais um “museu de banco” com acervo desigual e sem um norte curatorial.

Pinheiro preocupa-se com a preservação da memória visual do país, e por isso o IMS, depois de cobrir exaustivamente o repertório fotográfico brasileiro do século XIX, voltou as suas atenções para fotógrafos do século XX, como José Medeiros ou Marcel Gautherot, e publicações como Última Hora, o jornal de Samuel Wainer, e a importante revista ilustrada O Cruzeiro. O IMS abriga hoje cerca de dois milhões de imagens no seu acervo. Mesmo resistindo aos constantes “apelos salvacionistas” de pessoas que lhe sugerem a compra desta ou daquela colecção ameaçada, o instituto considera agora a incorporação de acervos de jornais e revistas que vêm sendo liquidados por empresas jornalísticas, pondo em perigo o registo da História do país no século XX.

A fotografia – ou a “imagem técnica”, na definição de Mammì, isto é, captada ou produzida com uso de máquinas – é também o tema da biblioteca do IMS Paulista, inesperado espaço de sossego na avenida, onde se pode estudar durante horas em silêncio, de graça, algo que também é raro numa cidade em que faltam bibliotecas. A ambição é cobrir todo o repertório da fotografia brasileira publicada em livro.

A opção preferencial pela fotografia não significa uma especialização idiossincrática numa determinada linguagem artística: é antes uma porta que se abre para o treino do olhar. “A fotografia tem o dom de produzir empatia”, afirma Flávio Pinheiro. É uma possibilidade de sensibilização estética que pode acontecer na escala da cultura de massas e da tecnologia actual. “Pintura nem todo mundo faz. Fotografia todo mundo tira”, sintetiza Mammì.

A julgar pelas dezenas de fotógrafos que tiram fotos da paisagem urbana e fazem selfies na janela indiscreta do IMS Paulista, é possível que o curador esteja certo.

Editor da revista Quatro Cinco Um