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Christian Marclay vai dizer-nos que horas são

Um acontecimento, antes da Primavera: a digressão global deThe Clock, vídeo descomunal do artista suíço-americano Christian Marclay, chega ao Museu Berardo, Lisboa, em Março. Têm 24 horas do vosso tempo?

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Video still de The Clock, de Christian Marclay Christian Marclay. cortesia do artista e da Paula Cooper Gallery, Nova Iorque
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Video still de The Clock, de Christian Marclay Christian Marclay. Cortesia do artista e da Paula Cooper Gallery, Nova Iorque
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Video still de The Clock, de Christian Marclay Christian Marclay. Cortesia do artista e da Paula Cooper Gallery, Nova Iorque

Há quatro Invernos, com a neve ainda empilhada nas ruas, as pessoas começaram a formar fila à porta de uma galeria no bairro de Chelsea, em Nova Iorque, como se estivessem à espera de entrar para um concerto de rock. A multidão, a fila e a espera dedicada tornou-se um fenómeno diário – e tão visível às 9h30 da manhã de uma quarta-feira quanto às duas da manhã de um sábado.

Mesmo para um “art district” dinâmico e assiduamente frequentado como a pós-industrial Chelsea, na zona oeste da cidade, foi uma coisa nunca antes vista. Algumas pessoas na fila já tinham estado dentro da Paula Cooper Gallery e tinham voltado para repetir a experiência – pela quarta vez.

Tudo isto foi antes de Christian Marclay ganhar o Leão de Ouro de melhor artista na Bienal de Veneza (o que aconteceria no Verão desse ano, 2011) e de The Clock virar a criação artística contemporânea mais icónica e solicitada dos últimos anos – o tipo de obra de que nos vamos lembrar mais tarde onde é que estávamos quando a vimos pela primeira vez.

É o quê, The Clock? Uma instalação de vídeo que dura 24 horas. Um filme que dá a ver o tempo. Uma montagem de cenas e sequências de filmes relacionadas com o tempo: relógios em grande plano, pessoas a perguntar as horas, despertadores a serem destruídos, o Big Ben a explodir, Harold Loyd pendurado no ponteiro do relógio de um arranha-céus, pessoas a acordar, pessoas a picar o ponto, pessoas a correr para o comboio, Catherine Deneuve luminosa aos 21 anos em Repulsa de Roman Polanski e, três décadas mais velha em A Minha Estação Favorita, de André Techiné.

Desde 2010, quando estreou na galeria White Cube em Londres, The Clock tem estado numa digressão global contínua: Nova Iorque, Japão, Jerusalém, Plymouth, Veneza, Los Angeles, Sydney, Boston, Paris, Zurique, Toronto, Bilbau, Minneapolis… Seis cópias foram vendidas a museus e a um financeiro americano; duas outras circulam pelo mundo. The Clock tornou-se algo parecido com uma prova atlética. Em Londres, pessoas acamparam de noite para poder vê-lo. De Los Angeles conta-se que um profissional da indústria cinematográfica assistiu herculeamente às 24 horas do filme non-stop.

The Clock vai chegar a Lisboa em Março. A abertura é no dia 5 de Março, no Museu Berardo (CCB), estando associada à festa do 25º aniversário do PÚBLICO, que apoia a apresentação da obra em Portugal. Apesar de nos últimos dois anos ter deixado de estar tão rigorosa e pessoalmente envolvido na montagem e circulação da peça, Christian Marclay vai estar presente em Lisboa. Esse primeiro dia vai ser uma das raras oportunidades em que The Clock vai ser projectado ininterruptamente ao longo de 24 horas – o que quer dizer que quem quiser ir ao museu às três da manhã, poderá fazê-lo.

Um dos requisitos do artista para a apresentação de The Clock é que ele seja mostrado pelo menos algumas vezes na sua totalidade – as ambiciosas 24 horas. Em Lisboa, isso vai acontecer pelo menos quatro vezes, segundo Pedro Lapa, director do Museu Berardo. “Esta peça tem uma dimensão profundamente performativa”, diz. “Ela é tanto assim que estiola o horário do museu. Idealmente, ela seria apresentada permanentemente 24 horas sobre 24 horas. Mas, não sendo isso viável em termos institucionais, ela tem que o ser várias vezes assim, como se se tratasse de uma performance. Não é uma performance feita com corpos de artistas, mas é uma performance feita pelo filme e por essa máquina cinematográfica que a instalação é.”

Esta dimensão performativa está presente desde o início no trabalho de Christian Marclay, 60, um californiano que cresceu na Suíça (deixemos as anedotas e as implicações eventuais entre essa procedência suíça e o trabalho de relojoaria, literal e metafórico, que é The Clock para quem quiser ir por aí). Quando fez a sua formação artística nos Estados Unidos no final da década de 1970, Marclay interessou-se por e aproximou-se da cena musical mais experimental, do punk e da no wave nova-iorquina, onde, de resto, existiam muitas ligações e contaminações com a cena artística – muitas dessas bandas eram formadas por pessoas que vinham das escolas de arte. Nesse período, explicou Marclay numa entrevista ao Journal of Contemporary Art (JCA), a verdadeira experimentação estava a acontecer em clubes nocturnos, espaços onde havia música ao vivo, e foi aí que o artista deu os seus primeiros passos, manipulando vinis e o gira-discos com as mesmas estratégias sonoras de um DJ de hip-hop: scratch, sampling, corta-e-cola. “Comecei a usar discos porque não sabia tocar nenhum instrumento, mas queria actuar ao vivo”, explicou na entrevista ao JCA.

Já nessa altura, antes do advento da Internet, a apropriação interessava-lhe mais do que qualquer noção de originalidade (ou não fosse Christian Marclay um dadaísta). “Ser totalmente original e começar do zero sempre me pareceu fútil. Eu estava mais interessado em usar qualquer coisa que já existia e que fazia parte da minha envolvência, em cortar, manipular, e transformar isso em algo diferente; apropriar-me dela e torná-la minha através de manipulações e justaposições.”

Numa entrevista de 2012 ao jornal inglês The Telegraph a propósito de The Clock, Marclay forneceu mais algumas pistas sobre o facto de o seu campo de actuação ser sempre a cultura popular – objectos e materiais familiares. “Estas coisas que eu samplo ou edito são coisas que todos partilhamos – música, filmes, sons. Elas estimulam uma certa participação do público, quando este reconhece o material e se recorda. A memória de cada pessoa será diferente. Esse envolvimento parece-me importante. Ela inclui o espectador de uma forma que seria muito diferente se fosse pura invenção.”

Isso faz certamente parte dos motivos por que The Clock é uma experiência imersiva e narcótica. A sua duração poderá surgir com um desafio para o espectador, mas o que este descobre, não raras vezes, é que é muito fácil perder tempo com The Clock – que, por exemplo, quatro horas e meia nunca custaram tão pouco a passar. É algo paradoxal o peso da sua duração e a leveza que se experimenta ao ver The Clock.

“Não temos de estar as 24 horas a ver o filme todo”, diz Pedro Lapa, que viu The Clock na Bienal de Veneza em 2011 e no Centre Pompidou, em Paris, logo a seguir. “Mas perceber que ele dura 24 horas é significativo para o entendimento da peça. Assistir a uma hora não é o mesmo que assistir várias vezes em diversos momentos.”

Uma das características distintivas de The Clock é o facto de funcionar, objectivamente, como um relógio: todas as vezes que vemos uma imagem de um relógio, ele está rigorosamente sincronizado com o tempo real. Isto é, quando um relógio no filme marca 16:59, são mesmo 16:59 nesse momento do dia, dentro e fora do museu. Como resume Pedro Lapa, “podemos utilizar a instalação para ver as horas”.

Mas The Clock é mais do que uma inventariação de imagens de relógios organizadas cronologicamente. Marclay também monta o material segundo uma ordem temática ou visual. Ver The Clock às  cinco da tarde não é o mesmo que ver às cinco da manhã. O período das cinco da tarde é dominado por sequências de pessoas a saírem do trabalho. O das cinco da manhã foi, para Marclay, o mais difícil de preencher: os seus assistentes, que passaram milhares de filmes a pente fino, não conseguiram encontrar imagens concretamente relacionadas com a passagem do tempo para esse período. Marclay explicou à revista The New Yorker como chegou a uma saída: ele imaginou que os espectadores que se mantivessem acordados a ver The Clock a essa hora estariam num particular estado de agitação ou ansiedade. Por isso, decidiu incluir clipes de filmes que espelhassem esse estado de espírito: as sequências oníricas assinadas por Salvador Dali no clássico de Hitchcock, Spellbound (1945), cenas de pessoas às voltas na cama.

Existem dois tempos em The Clock: um real e um ficcional. “Há uma situação paradoxal entre a marcação de um tempo objectivo que é tornado manifesto através de todos os relógios que vão aparecendo e que nos vão dando as horas, e ao mesmo tempo uma suspensão total. Nesse sentido, a peça é uma profunda meditação sobre a forma como esses dois tempos, que estão sempre presentes no cinema – o tempo objectivo e o tempo ficcional – se articulam”, nota Pedro Lapa.

Quando é que se deve ver The Clock? Quando tiverem tempo.  

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