João Fernandes, o olhar transversal

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João Fernandes com Julião Sarmento na montagem da exposição que hoje inaugura em Serralves FERNANDO VELUDO/N/FACTOS

Noites Brancas é a última exposição do director do Museu de Serralves, que a partir de Janeiro estará em Madrid. Um balanço. Por Vanessa Rato

Foi um momento chave para a museologia em Portugal: em 1996, lançada a primeira pedra do Museu de Serralves, o espanhol Vicente Todolí é convidado para director, formando equipa com João Fernandes, como adjunto, para pôr em marcha o primeiro grande museu de arte contemporânea do país. Sobretudo a partir da inauguração, em 1999, com a exposição Circa 1968, e até se afastar, em 2003, para assumir a direcção da Tate Modern, em Londres, Todolí foi visto como a figura estrela. E João Fernandes, que sobe então a director? Qual a sua marca numa instituição que deixa agora pelo Reina Sofia, em Madrid?

Antes de mais, João Fernandes (n. 1964) foi aquele que abriu as portas a Todolí, recorda Julião Sarmento: "O Vicente, de arte portuguesa, conhecia-me a mim e ao Pedro Cabrita Reis. Era um académico. O João abriu-lhe as portas para a arte portuguesa e os artistas mais novos."

Julião Sarmento conheceu o segundo director de Serralves na altura das emblemáticas Jornadas de Arte Contemporânea (1992-1996) comissariadas por João Fernandes no Porto. Antes houvera Peninsulares, que Pedro Oliveira, da galeria com o mesmo nome, define como "o primeiro grande projecto ibérico, a nível galerístico, do pós-25 de Abril": cruzava mais de 40 artistas portugueses e espanhóis e quatro galerias de cada país - os portugueses expunham em Espanha na Fúcares, na Elba Benitez, na Tomas March e na Antony Estrany (hoje Estrany de la Mota); os espanhóis em Portugal na Pedro Oliveira, na Módulo, na Alda Cortez e na Graça Fonseca.

Pedro Oliveira diz que se fez nestas iniciativas um "agente cultural todo-o-terreno", que subiu depois, "a pulso", em percurso "sempre ascensional" - até hoje, com o Reina Sofia. "O João surge como o legítimo herdeiro do Vicente, que, ao sair, fez questão de relevar a sua importância." Antes de Serralves, essa importância, refere também Pedro Oliveira, traduziu-se nas primeiras presenças em Portugal de artistas hoje tão reconhecidos como Douglas Gordon, Jane e Louise Wilson ou Rirkrit Tiravanija, na altura todos em início de carreira - já em Serralves, aponta exposições como as de Robert Rauschenberg, com comissariado de Mirta d"Argenzio, ou de Thomas Struth, com comissariado de James Lingwood.

Na mesma lógica de "um pioneirismo grande" e de gestos "bastante radicais", Pedro Lapa, director do Museu Berardo, em Lisboa, refere, entre outras exposições de Serralves, as dedicadas a Thomas Hirschhorn e Tino Sehgal, ambos agora com carreiras consolidadas. "O trabalho do João foi fundamental na continuidade de afirmação internacional das instituições portuguesas", diz, destacando "o perfil muito definido" da sua programação, "muito importante para a integração e a afirmação em redes específicas". E conclui: "É uma pessoa extremamente empenhada, trabalhadora, com um conhecimento muito amplo do mundo da arte contemporânea, quer científico, quer mais prático. Tem também uma visão muito clara do que entende serem os circuitos mais significativos, tendo tido a possibilidade de pôr essa visão em prática através das exposições e actividades paralelas, como as conferências, extremamente relevantes e complementares."

As conferências, mas também a programação de teatro, dança, música e cinema, numa transversalidade que era já a marca das Jornadas...e que é também, diz Ricardo Nicolau, o traço distintivo entre João Fernandes e o seu antecessor.

Onze anos mais novo do que Fernandes, Nicolau foi por este convidado para Serralves como seu adjunto em 2006. "Ao contrário do que as pessoas tendem a pensar, não vim para Serralves, vim trabalhar com o João. Não acredito em instituições, acredito em pessoas à frente de instituições", explica. Seis anos volvidos, parece-lhe fundamental a equipa fundadora ter entrado em Serralves antes de o museu existir para pensar o que seria importante, como projecto, em Portugal. Como conclusão seminal desse momento aponta a ideia de que "o profundo isolamento e a situação periférica do Porto não tinham por que ser uma desvantagem" - com esse enquadramento, "Serralves não tinha de imitar os grandes centros", podendo assumir idiossincrasias, até em relação aos artistas apresentados.

"O João é de um entusiasmo contagiante", diz Ricardo Nicolau, explicando assim que se tenha conseguido transpor a lógica das residências artísticas iniciais da Casa de Serralves para o princípio geral de que os artistas deveriam conceber projectos de raiz para o museu, obras a integrar posteriormente na colecção.

Um anti-autoritário

Com a sua "forma anti-autoritária de exercer autoridade", João Fernandes "não é nunca a pessoa que manda, mas aquela que entusiasma as equipas para o seu projecto". "Não tem complexos autorais de curador. Há duas coisas que diz repetidamente: o artista tem sempre razão e, em última análise, faz sempre o que pensou." Isto, diz Nicolau, deixa uma marca forte no museu, onde, apesar do incremento burocrático vivido, Fernandes "sempre defendeu que os artistas têm direito a mudar de ideias até à inauguração", lutando sempre pela não cristalização prematura dos projectos, muitas vezes contra as necessidades de outros serviços internos.

Com estas características, e sendo "a mais atenta das criaturas ao que os artistas, desde os anos 1960, fazem com pessoas de outras áreas", João Fernandes distinguiu-se não só do seu antecessor mas também dos outros curadores e directores de museus, conclui Ricardo Nicolau.

Muitas destas palavras são repetidas por Cristina Grande, coordenadora do Serviço de Artes Performativas de Serralves a partir de 1990 e há 12 anos responsável pela programação de dança contemporânea e performance do auditório de Serralves. "É raro encontrar um director que estabeleça um espaço de trabalho tão livre", refere.

Traçando o retrato de "uma pessoa apaixonada e apaixonante" que, "pela sua imensa curiosidade e paixão pelos artistas, consegue criar enormes empatias", Cristina Grande explica que a liberdade dada aos outros - "para pensar, escolher, convidar" - distingue João Fernandes em Serralves como um "curador e director com uma visão plural do que é programar um museu", nomeadamente em projectos como Improvisações/Colaborações que, no ano passado, ofereceu um olhar retrospectivo sobre as colaborações transdisciplinares que marcaram a segunda metade do século XX.

Iniciativas deste tipo, conclui, são "prova, também, de uma enorme cumplicidade com as equipas". "Há quem ache que foram muitos anos, mas construir um projecto como este implica tempo. Este tempo permitiu-lhe deixar um projecto de programação que espero que tenha continuidade."

O galerista José Mário Brandão está entre os que acham que João Fernandes já "há muito tempo" deveria ter deixado Serralves porque "tinha condições para, no estrangeiro, desenvolver projectos importantes, nomeadamente com artistas portugueses".

Com "um trabalho notável", que "só à distância será completamente entendido", João Fernandes, diz JBrandão, é também "uma pessoa inteiramente honesta e extremamente conscienciosa, que achava que ainda podia fazer muito pela arte portuguesa cá". "Não olha apenas para o seu umbigo, como é norma entre os portugueses."

Foi assim, e com o seu "grande amor pela arte, como é indispensável", que antecipou a viragem do foco de atenções do eixo histórico Europa-EUA para realidades como a brasileira, diz o galerista, apontando os casos de Artur Barrio, António Manuel, Cildo Meireles e Lygia Pape.

José Mário Brandão recorda palavras de Lygia Pape: "Ela dizia que ele só tinha um defeito: dizer que sim a tudo. O João foi de facto muito importante. Muitas vezes, as pessoas viam Serralves com a simpatia que tinham por ele."

Será tanto mais verdade a partir deste momento em que Serralves começa confrontar-se com crescentes restrições orçamentais, o que condiciona tanto o projecto expositivo como as estratégias de aquisições para a colecção.

Sem referir essas contingências, Cristina Guerra, da galeria com o mesmo nome, diz identificar em João Fernandes "sempre um grande dilema entre o que deve, quer e pode fazer": com a sua "enorme vontade de realizar", trabalhou "num país com muito poucos interlocutores válidos, tanto públicos como privados, e que evocam sempre a eterna falta de recursos, não mais do que pretextos para uma grande falta de vontade, por ausência de clarividência".

Julião Sarmento diz mesmo que João Fernandes se viu obrigado a ser "o homem dos sete instrumentos": "Foi director, curador, crítico, angariador de fundos. Foi difícil e desgastante para ele. O que fez nessas circunstâncias é notável."