Interromper Costa? Nenhum partido “está a fazer o suficiente” pelo ambiente

Não esteve na acção que interrompeu o primeiro-ministro, mas esteve noutras. João Camargo é investigador em alterações climáticas, activista do Climáximo e dirigente do Bloco: “Toda a gente que não está envolvida no movimento político pela justiça climática está errada.” E avisa: “Se nós não vencermos este combate, não sobrará nada pelo que lutar.”

Em Portugal, já interromperam um discurso do primeiro-ministro, uma emissão da CMTV, já estiveram na sede da EDP. Estes foram só alguns dos momentos mais mediáticos, houve muitos outros. Poderá haver mais, mas também haverá um período de reflexão: “Como está a acontecer no Reino Unido, haverá agora um período de reflexão. Comprometemo-nos a realizar esta semana de acção e agora seguramente terá de ser feito um balanço para pensar próximos passos”, diz ao PÚBLICO, por email, João Camargo que é investigador em alterações climáticas, membro do Climáximo (grupo de activistas movido pelo combate às alterações climáticas) e dirigente do Bloco de Esquerda.

Apesar de ser militante de um partido que tem o combate às alterações climáticas como umas das prioridades nas eleições europeias e que está no topo de um ranking, revelado pela Rede Europeia de Acção Climática, como o partido português que mais apoio dá à intervenção da União Europeia na área do clima, João Camargo defende que a causa exige mais: “A actividade política não se esgota em partidos. Neste momento, nenhum partido, provavelmente no mundo inteiro, está a fazer o suficiente para lidar com a emergência climática”, escreve.

O próprio Bloco de Esquerda assume, através do gabinete de imprensa do partido, que “acompanha o movimento por justiça climática”, mas “não se pronuncia sobre os seus métodos de intervenção”. Apesar de na acção em que se interrompeu o discurso de António Costa, os activistas também contestarem a construção do aeroporto no Montijo, o BE esclarece que “é favorável à construção de um novo aeroporto”, mas defende que “a escolha do local deve considerar o estudo de impacto ambiental”. A mensagem do partido ressalva ainda: “O Bloco nunca participou em acções que perturbassem reuniões públicas ou internas de outros partidos.”

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Protesto da Extinction Rebellion em Londres EPA/andy rain

Ao PÚBLICO, João Camargo explicou por que razão, sendo já militante de um partido, sentiu necessidade de fazer mais pelo ambiente: “A inércia do business as usual, a dimensão gigantesca da tarefa em mãos e a acção dos poderosos interesses económicos travam a acção necessária, que muito mais do que sobre ambiente, é sobre o futuro da civilização humana.” Por isso, entende que “são necessários movimentos sociais, de bases, de massas, para produzir a pressão política para que os partidos possam fazer o que é necessário para enfrentar os poderes económicos” e “poder começar a resolver a crise climática”.

João Camargo ressalva, porém, que, apesar de ter estado na organização de algumas acções em Portugal – como as que aconteceram na CMTV e na EDP, por exemplo –, não faz parte da coordenação do Extinction Rebellion Portugal que dinamizou outras iniciativas no país. “O Climáximo é um colectivo pela justiça climática que existe desde 2015 e que tem estado associado a inúmeras iniciativas de combate às alterações climáticas”, começa por esclarecer. Quanto ao Extinction Rebellion, “é um movimento internacional lançado em Novembro de 2018 e aberto a quem concorda com os seus princípios, que lançou a proposta de uma semana internacional de rebelião pela justiça climática”.

Colapso climático

É neste contexto que surgem as acções que têm saltado para a imprensa portuguesa: “Em Portugal organizou-se uma semana de acções, e o Climáximo comprometeu-se a utilizar os seus recursos para ajudar a dinamizar essas acções num processo aberto”, prossegue João Camargo. 

Trata-se de um conjunto de iniciativas que, durante uma semana, juntou várias pessoas que lutam pela causa: “Há vários activistas de vários partidos e movimentos, mas não há uma lista das organizações a que as pessoas pertencem, porque não há nenhum processo de pedir um currículo às pessoas que se oferecem para participar. Os critérios de participação são públicos e abertos”, nota João Camargo.

Como activista da causa ambiental e também dirigente de um partido, não teme qualquer leitura que tente colar estas acções ao BE: “A única coisa que eu temo é o colapso climático”, responde ao PÚBLICO, acrescentando, sobre aquelas iniciativas, que “as coisas são claras, os processos são abertos e estão descritos nos sites internacionais e nacionais”.

Sendo também investigador na área, não deixa de avisar: “2018 é o ano com mais emissões de gases com efeito de estufa de sempre, a concentração de dióxido de carbono e a concentração de metano na atmosfera são as maiores de sempre. Os cinco anos mais quentes desde que há registos são os últimos cinco.”

Ora, estes são dados que coincidem com um ano de eleições, é uma evidência, diz o activista: “Os processos eleitorais coincidem com estas realidades físicas e o Bloco de Esquerda coexiste temporalmente com estas realidades (e tem uma leitura política sobre as mesmas, que pode em alguns momentos coincidir com alguns movimentos)”.

João Camargo não deixa, por isso, de criticar leituras que afunilem as formas de luta: “Esta linha de questionamento parece sugerir que só pode haver dinâmicas sociais e movimentos associados a partidos tal como só pode haver política associada a partidos, e isso pode revelar desconhecimento acerca das dinâmicas dos movimentos sociais. Toda a gente que não está envolvida no movimento político pela justiça climática está errada”, diz. Não tem dúvidas: “Se nós não vencermos este combate, não sobrará nada pelo que lutar.”

Notícia actualizada às 17h26 com a posição do Bloco de Esquerda