Nenhum homem é uma ilha mas Rui Rio conseguiu irritar onze

A forma como a direcção nacional conduziu o processo da lista para as europeias deixou feridas profundas no PSD açoriano. Entre os sociais-democratas da Madeira o desconforto também foi evidente.

Rui Rio com o cabeça de lista do PSD às europeias, Paulo Rangel
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Rui Rio com o cabeça de lista do PSD às europeias, Paulo Rangel LUSA/JOSÉ SENA GOULÃO

Quando Cláudia Monteiro de Aguiar subiu recentemente ao palco montado na Gare Marítima do Funchal para a apresentação oficial da sua candidatura ao Parlamento Europeu, repetiu a palavra Madeira 25 vezes, disse Europa em 19 ocasiões e falou doze vezes do PSD. O nome de Portugal foi dito em oito momentos, a palavra ultraperiferia em cinco e autonomia foi pronunciada quatro vezes.

No discurso da candidata indicada pelo PSD-Madeira, a sexta na lista apresentada por Rui Rio, não houve qualquer referência aos Açores, mesmo depois de o líder nacional do partido ter dito que caberia este ano ao Funchal representar as duas regiões ultraperiféricas portuguesas em Bruxelas. “Caberá ao gabinete da deputada Cláudia Monteiro de Aguiar integrar pessoas dos Açores”, argumentou Rio, para justificar o inédito lugar não elegível que decidiu dar ao candidato indicado por Ponta Delgada.

Não vai acontecer, apressou-se a dizer Cláudia Monteiro de Aguiar. Numa entrevista ao DN-Madeira, ainda antes da apresentação oficial, a eurodeputada, que está a cumprir o primeiro mandato em Bruxelas, socorreu-se da gíria futebolística para se distanciar da ideia defendida por Rio. “Em equipa que ganha não se mexe. A minha equipa estava definida e trabalhou com empenho e dedicação nos últimos cinco anos”, vincou, deixando transparecer que se o PSD-Madeira não impôs nomes na equipa que virá a integrar o seu gabinete, não será Lisboa a fazê-lo.

Cláudia Monteiro de Aguiar aponta as “características distintas” dos dois arquipélagos, as “especificidades” dos Açores e da Madeira, para considerar fundamental que ambas tenham representatividade no Parlamento Europeu. “Foi com algum descontentamento que assisti a essa apresentação das listas das quais não constam as duas regiões”, admitiu na altura.

A candidata e o próprio PSD-Madeira têm agora evitado falar do tema – “está encerrado”, disse ao PÚBLICO fonte do partido –, mas a forma como a direcção nacional conduziu o dossier europeias provocou desconforto no Funchal. Ainda para mais num ano central para os social-democratas no arquipélago: europeias a 26 de Maio, regionais a 22 de Setembro e legislativas a 6 de Outubro.

O PSD mostra que está doente quando diz que o candidato da Madeira nas eleições europeias vai representar também os Açores. Alguma vez isso acontecia no meu tempo? Nem noutro partido qualquer”, resumiu Virgílio Pereira, antigo eurodeputado social-democrata e uma espécie de senador do PSD-Madeira, numa entrevista ao jornal digital Funchal Notícias.

O desconforto foi rapidamente aproveitado pelo PS local. Depois de terem decidido não continuar com Liliana Rodrigues, a eurodeputada eleita há cinco anos, que gozava de bastante popularidade, para apostar em Sara Cerdas, uma desconhecida da política madeirense, os socialistas têm aproveitado as palavras de Rui Rio para procurar desvalorizar a candidatura do PSD. Uma meia candidata, dizem. Já que a outra metade é dos Açores.

Do incómodo da Madeira para a rebelião nos Açores. Perante a insistência de Rio em reservar para o candidato açoriano o oitavo lugar na lista – dificilmente o PSD vai eleger mais de seis eurodeputados nestas eleições –, Ponta Delegada decidiu retirar o nome de João Mota Amaral da equação. Alexandre Gaudêncio, o líder dos sociais-democratas do arquipélago tinha já avisado que sem lugar elegível, o PSD-Açores não fazia campanha. E vai cumprir.

Os dirigentes açorianos, sabe o PÚBLICO, ponderaram mesmo apelar ao voto em branco ou nulo, acabando por suavizar o discurso – apelarão ao voto sem identificar o PSD – por duas razões: pelas consequências políticas que uma campanha pelo voto em branco ou nulo possa ter em futuras eleições; e pelas análises que possam eventualmente ser feitas quando forem contados os votos de 26 de Maio. “Podiam querer relacionar os votos em branco ou nulos com o nosso eleitorado”, explicou uma fonte do PSD açoriano, sem se identificar.

O certo é que quando o cabeça de lista do partido for aos Açores em campanha, não terá a companhia dos dirigentes sociais-democratas locais. Paulo Rangel, no final do Conselho Nacional em que foi votada a lista às europeias, tentou esvaziar a polémica, garantindo que vai aos Açores em campanha. “Tenho curiosidade em ver quem estará com ele. Talvez alguns militantes, mas não dirigentes regionais”, garantiu a mesma fonte, próxima da comissão política regional do PSD.

Nem mesmo as recentes declarações de Rio ajudaram a normalizar as relações entre Ponta Delgada e a São Caetano à Lapa. Numa entrevista à Antena 1, o líder social-democrata desvalorizou o peso eleitoral dos Açores na campanha – “da última vez tivemos 12 mil e tal votos [nos Açores], não é uma fortuna” –, disse não entender a “animosidade” e concluiu: “Enfim... isto passa.”