A lenda interminável de Eli Cohen, “príncipe” dos espiões

Foi um dos mais extraordinários espiões da História. Enviado para a Síria, penetrou na fechada elite político-militar, foi conselheiro do Ministério da Defesa e do Presidente. Forneceu a Israel informações incalculáveis.

Eli Cohen
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Eli Cohen Reuters

A história de Eli Cohen já foi contada muitas vezes. Este fim-de-semana acrescentou mais um capítulo à sua lenda. Correu a notícia de que uma missão russa teria recebido das autoridades sírias os restos mortais de Eli Cohen, espião e herói nacional de Israel, enforcado numa praça de Damasco em Maio de 1965. Foi um dos mais fabulosos agentes secretos da História. Pagou com a vida.

As autoridades israelitas dizem desconhecer a base da notícia, repetida por uma televisão israelita e que teria como origem “fontes da oposição síria”. A recuperação do corpo é uma “prioridade nacional” para Israel. Damasco repete, há décadas, que não sabe onde ele está.

Escreveu alguém que os espiões “são príncipes”, por vezes “heróis”, e sempre produtores de lendas. Eli Cohen já foi objecto de livros e filmes. Está disponível na Netflix uma nova série: “The Spy”. Enquanto não se sabe o desfecho de mais esta peripécia, resta evocar a memória dos seus actos.

Eliahu ben Shaul Cohen nasceu em Alexandria, Egipto, em 1924, numa família judaica ortodoxa. Estudou engenharia e tornou-se um ardente sionista. Participou numa rede de espionagem israelita no Egipto mas, preso, salvou-se da forca por falta de provas. Instalou-se em Israel em 1957. Trabalhou no Aman, o serviço de informações militares, como tradutor e analista da imprensa árabe. Candidatou-se à Mossad mas não foi aceite: a agência tinha por hábito recusar voluntários. Mas guardou notas da entrevista e do seu cadastro: fluente em várias línguas, entre elas o árabe, Eli Cohen foi considerado muito inteligente, com extraordinária memória e sangue frio. Em 1960, a Mossad chama-o. Precisava de um agente na Síria. Num estágio de seis meses, aprendeu apenas as técnicas do ofício e estudou, entre outras coisas, o Corão. “Arabizou” o rosto com um farto bigode.

A missão começa com a invenção de uma cobertura. Chega a Buenos Aires em Fevereiro de 1961, via Zurique e Chile. Recebe aí uma nova identidade: Kamel Amin Tabeth, sírio nascido no Líbano, homem de negócios, herdeiro rico com hábitos de luxo. Aprende o espanhol “argentino”. Passa a frequentar a comunidade síria local e, depressa, as recepções da embaixada. Torna-se um notável “sírio” da diáspora. Entre os novos amigos está Amin al-Hafez, um militar “desterrado” em Buenos Aires após mais um golpe de estado em Damasco. A sorte não faz mal aos espiões: a facção de Hafez volta ao poder em Damasco e, em 1963, o general tornar-se-á Presidente.

Damasco

Kamel Amin Tabeth entra na Síria, pela fronteira do Líbano, em Fevereiro de 1962, com toda a sua panóplia de espião. Quando Hafez regressa, já o agente tinha penetrado os círculos do poder. Levava cartas de recomendação de Buenos Aires. Kamel não é apenas um homem de negócios. É um nacionalista sírio cuja inteligência deve ser aproveitada. Faz festas em que os amigos bebem e falam demasiado. Torna-se “um deles”, alguém com quem se discutem segredos de Estado.

Amigo do Presidente, é nomeado conselheiro do Ministério da Defesa. Há fotografias dele, na comitiva de Hafez, no cockpit de um Mig ou a passear nos Montes Golã, onde pôde inspeccionar o dispositivo militar. Transmitiu à Mossad informações sem preço, sobre política, armamento, planos militares ou projectos de desviar as águas do Jordão. Desenhou mapas dos Golã, com a rigorosa localização dos bunkers de artilharia. Segundo o Presidente Levi Eshkol (1963-69), as suas informações foram preciosas na Guerra dos 6 Dias, de 1967.

Eli Cohen conseguiu algo de que a Mossad terá duvidado: penetrar no coração do hermético sistema político-militar sírio. Tornar-se num “deles” e não apenas ter fontes.

Caiu no dia 18 de Janeiro de 1965. Segundo a versão corrente, as transmissões para Israel foram detectadas pela nova e sofisticada aparelhagem russa. Os serviços secretos irromperam no seu apartamento, onde o apanharam a transmitir. Esta versão suscitou críticas: teria havido uma dupla falha de segurança. Dada a tensão na fronteira, Eli Cohen passou a transmitir regular e excessivamente. E os “controleiros” da Mossad não o travaram porque a informação era irrecusável.

Em matéria de espiões, sabe-se sempre muito pouco. Parte da informação, mais de 50 anos depois, continua classificada. Há outra versão da queda: Eli Cohen estaria a ser vigiado há algum tempo, pela sua relação com personagens suspeitas. Pouco interessa.

Eli Cohen foi interrogado pelo próprio Hafez. Julgado e condenado à morte, foi enforcado em Maio de 1965. Foi inútil a campanha internacional lançada por Israel e que envolveu o Papa. Damasco jamais poderia perdoar a humilhação.

Em Israel, a viúva, Nadia Cohen, 83 anos, não se resigna a morrer sem ter a certeza de que será sepultada ao lado do marido. Nesta segunda-feira não se sabia nada. Corre o risco de mais uma decepção.