Opinião

O que falta fazer para uma engenharia automóvel do futuro?

Não é suficiente garantir uma formação universitária em engenharia altamente especializada e com elevado rigor técnico e científico. O setor precisa de uma formação holística que agregue competências técnicas e multidisciplinares.

A indústria automóvel está a sofrer uma transformação disruptiva. A crescente eletrificação e incorporação de sistemas de ajuda à condução, a par com as tecnologias da conectividade, estão a alterar a arquitetura dos veículos. A isto, soma-se a forte pressão política e social do papel do automóvel na construção de uma sociedade mais sustentável, surgindo como um elemento do ecossistema de mobilidade, cuja cadeia de valor termina no serviço que presta ao utilizador.

O investimento em investigação e desenvolvimento (I&D) feito pela indústria para aumentar o valor agregado dos seus produtos que, para além do fabrico e da modularização de veículos, inclui áreas como software e serviços de mobilidade, diminuiu as margens de lucro das marcas que são obrigadas a partilhar recursos e a reduzir custos, com implicações diretas nas próprias fábricas e nos fornecedores. Os fabricantes de componentes do tradicional veículo, com uma base industrial, cadeia de valor e aceitação até agora bem estabelecidas, serão os mais afetados nesta transição para o mercado dos veículos elétricos, autónomos, conectados e partilhados. Menos atingidos serão os que já oferecem componentes altamente tecnológicas e os que têm grandes economias de escala, com maior capacidade competitiva e de inovação.

A resposta está em direcionar os orçamentos para garantir a incorporação de tecnologia nos produtos e reforçar e diversificar os modelos de negócio, investindo na construção de veículos seguros, inteligentes e sustentáveis. A par desta evolução está a das próprias fábricas que mudam com a crescente robotização e digitalização dos processos de fabrico, no âmbito da Indústria 4.0.

É neste contexto que a inovação, a I&D e as competências profissionais emergem como os principais fatores da produção automóvel onde os sistemas científico, tecnológico e do ensino superior veem reforçada a sua importância. Não é suficiente garantir uma formação universitária em engenharia altamente especializada e com elevado rigor técnico e científico. O setor precisa de uma formação holística que agregue competências técnicas e multidisciplinares, fornecendo uma visão clara dos desafios globais e da capacidade para lhes dar resposta.

É essencial implementar modelos de aprendizagem ativa em ambiente colaborativo que estimulem a comunicação e o pensamento crítico. Uma questão amplamente discutida que aponta, invariavelmente, para a necessidade de adaptar a oferta formativa das universidades, de resolver a falta de corpo docente e de instalações apropriadas e atualizadas a par com a implementação de metodologias de aprendizagem que envolvam as unidades industriais, através da partilha de espaço e de quadros mais experientes como formadores, contribuindo para os conteúdos das disciplinas e execução de projetos desafiantes.

Era este o objetivo da Society of Automotive Engineers quando, em 1978, criou uma competição internacional de estudantes universitários, na qual testavam as suas capacidades criativas e de engenharia na conceção, fabrico e financiamento de um carro de competição, semelhante, mas à escala reduzida, às competições de Fórmula 1 ou à Indy Car Racing.

Em Portugal, o gosto pela competição levou estudantes de algumas escolas de engenharia a agruparam-se em torno da construção de carros Formula Student. Organizados em equipas que mobilizam dezenas de estudantes de diversas engenharias, como em empresas, constroem atualmente carros elétricos, que a partir de 2020 deverão ser autónomos, aplicando os conhecimentos curriculares multidisciplinares em experiências reais de trabalho e lidando com todos os aspetos típicos da indústria automóvel: investigação, conceção, fabrico, desenvolvimento, testes, marketing e logística, gestão e finanças. Resultado: estes projetos são hoje procurados por empresas que os patrocinam na perspetiva de formarem profissionais de engenharia para os seus quadros.

Então, o que é que ainda falta fazer?

António Luís Moreira participa na conferência Academia Meets Auto-Industry, iniciativa promovida pelo Técnico Lisboa – Instituto Superior Técnico (IST) e pela Mobinov (cluster do setor automóvel) a 16 e 17 de maio, em Lisboa

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico