A dança e o teatro encontram-se na selva urbana do Porto

O Brasil é o denominador comum da programação dos festivais Dias da Dança e FITEI, agora associados no calendário, e a decorrer entre 24 de Abril e 25 de Maio. E já há programa.

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Rui Moreira no Clube Fenianos Portuenses Nelson Garrido
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Looping: Bahia Overdub é o espectáculo de abertura do festival Dias da Dança Patrícia Almeida
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Odisseia encerra o programa do FITEI DR

Se um festival interessa a muita gente, dois festivais juntos interessarão a muitos mais. Foi este raciocínio que levou os responsáveis pelo Dias da Dança (DDD) e pelo FITEI (Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica) a ligarem-se no calendário aproveitando as sinergias que uma tal parceria programática e de comunicação traria para os seus públicos mas também para os artistas e criadores portugueses relativamente à sua visibilidade internacional.

Anunciada no início do ano, esta associação foi concretizada esta quarta-feira com a divulgação do programa de cada um dos festivais, que vão decorrer entre 24 de Abril e 25 de Maio em múltiplos palcos do Porto, Gaia e Matosinhos, e também Viana do Castelo. Pelo meio, DDD e FITEI interceptam-se numa “Semana +” (8 a 12 de Maio), destinada a mostrar uma selecção de vinte produções nacionais (dez de dança e dez de teatro) às oito dezenas de programadores e directores artísticos internacionais já inscritos no evento.

Este ano, o lugar escolhido para a apresentação dos programas foi também uma novidade: o salão nobre do centenário Clube Fenianos Portuenses, transformado num cenário de selva urbana, uma espécie de jardim tropical pejado de plantas e uma banda sonora com o canto de aves e água a correr. Entre os cartazes a anunciar cada um dos festivais e o encontro de ambos, um sinal de trânsito representava um avião – e a viagem, este ano, é para o Brasil, país-tema e denominador comum de ambas as programações.

Rui Moreira, acompanhado por autarcas das outras três cidades, notou que a associação DDD+FITEI transforma a frente atlântica da Região Norte no palco do “maior festival de artes performativas do país”, e realçou o carácter exemplar de uma sinergia assim tão “agregadora e orgânica”. Tiago Guedes e Gonçalo Amorim, respectivamente directores artísticos do DDD e do FITEI, explicaram como os dois festivais “consolidam as cumplicidades artísticas existentes entre ambos”, e apresentaram os programas de cada um deles – divulgados num catálogo em versão trilingue (com tradução em espanhol e inglês).

O DDD vai abrir, dia 24 de Abril, no Teatro Rivoli, ao ritmo do samba de São Salvador, com Looping: Bahia Overdub, uma criação de Felipe de Assis, Leonardo França & Rita Aquino, que associa a festa, a dança e a política.

Ao destacar, além deste espectáculo, duas outras produções vindas do Brasil – Fúria, da consagrada coreógrafa Lia Rodrigues, e Acordo e Cria, de Alice Ripoll –, Tiago Guedes referiu a vitalidade dos criadores deste país actualmente a viver momentos conturbados do ponto de vista social e político. “Mais do que nunca, num país repleto de contradições, urge dar corpo e voz aos seus artistas, tal como importa dar a conhecer a multiplicidade dos seus discursos não hegemónicos”, escreve o director artístico do DDD no programa.

Brasil descolonizado

No programa do FITEI dedicado ao “Brasil descolonizado”, Gonçalo Amorim realça duas produções em particular: Preto, de Márcio Abreu, a mostrar formas diversas de habitar um mundo “onde as diferenças brilhem” (Teatro Carlos Alberto, 16 de Maio); e, a fechar o calendário, aquele que, acredita, “irá marcar o Porto”, uma nova adaptação da Odisseia, pela Cia. Hiato, um espectáculo com perto de cinco horas mas “com dois intervalos para beber cachaça” (Rivoli, 25 de Maio).

De regresso ao DDD, Tiago Guedes realçou as estreias em Portugal do Ballet da Ópera de Gotemburgo (Suécia), com duas criações para grandes audiências, Autodance e Skid, a dançar música techno e a desafiar a gravidade (Coliseu, 4 de Maio); e também do Tao Dance Theater, da China, que combina o virtuosismo dos bailarinos com música indie-folk-rock “made in China” (Rivoli, 11 de Maio).

De Portugal, citou três criações a provar que “a dança portuguesa nunca esteve tão forte”: Marengo, de Ana Isabel Castro (Mala Voadora, 27 de Abril); Ballet de Causa Única, de Willi Dorner/Companhia Instável (Teatro Constantino Nery, Matosinhos, 30 de Abril); e Muiças, de Tânia Carvalho/Aza Companhia (Auditório Municipal de Gaia, 3 de Maio).

Já no FITEI, Gonçalo Amorim aconselha Ella sobre Ella, da uruguaia Marianela Morena, um espectáculo “bem roqueiro” sobre uma mulher livre na Montevideu do século XIX, Carlota Ferreira (Teatro Constantino Nery, 17 de Maio); e também Yo Escribo. Vos Dibujás, encenação do argentino Federico León, que esta semana regressa ao Porto para dar continuidade a uma residência artística iniciada em Outubro (Mosteiro São Bento da Vitória, 23 de Maio). Dos portugueses, chama a atenção para Don Juan Esfaqueado na Avenida da Liberdade, de Pedro Gil, uma comédia que associa aquela figura arquetípica da literatura mundial com as memórias do Estado Novo (Teatro Campo Alegre, 24 de Maio).

O programa de cada um dos festivais será ainda acompanhado por acções paralelas aos espectáculos, entre as quais oficinas, residências, masterclasses, encontros com autores, encenadores e actores, além de concertos, sessões de cinema e exposições.