Crítica

Deus morreu, o romance também. Também?

Inverno, o segundo volume de um quarteto dedicado às estações do ano, é um exemplo da urgência literária sentida pela escritora escocesa.

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Ali Smith propõe-se escrever o mais próximo possível do tempo em que vive e quer retratar Leonardo Cendamo/Getty Images

Que distância temporal mínima poderá existir entre um romance e o momento que ele pretende reflectir sem que isso hipoteque o romance enquanto arte? A escocesa Ali Smith (Inverness, 1962) parece apostada em dar um forte contributo a essa discussão, a do impulso do escritor face aos acontecimentos do presente e, em simultâneo, a necessidade de esse impulso passar pelo filtro da reflexão. Para isso, socorre-se de uma cultura sólida e grande sentido histórico, lança perguntas pertinentes, formula perplexidades, ironiza acerca de um fim de tempo, ou de ciclo, de que todos somos actores infelizes, acomodados, cínicos, cómicos, trágicos, conscientes da nossa fragilidade enquanto parte de um epílogo; somos gente a perguntar: que fim é esse, que tempo é este, e o que será de nós?

Em Inverno (Elsinore), Smith vai plantando inquietações e interrogações na mente de cada leitor, e fá-lo entre risos e fantasmas. É este o livro que sucede a Outono, finalista do Man Booker em 2017, o segundo do quarteto que a escritora dedica às estações do ano. Neste projecto, Ali Smith propõe-se escrever o mais próximo possível do tempo em que vive e quer retratar. Numa conversa com o Ípsilon no momento em que Outono foi publicado em Portugal, Ali Smith dizia que a arte é o filtro usado para ver melhor a tal proximidade. Neste romance, o recurso a esse filtro mantém-se e detectam-se as influências de Shakespeare e de Dickens, autor de uma das frases em epígrafe: “A escuridão é barata”. 

É véspera de Natal na Cornualha e uma mulher, Sophia Cleves, ex-empresária de sucesso, retirada para uma reforma abastada espera o filho, Art, e a namorada. A irmã mais vela, Iris, activista ambiental, despreza-a. É também véspera do aniversário da morte de Charlie Chaplin, os bancos fecham ao meio-dia e isso pode ser problemático. Sophia age — e reage — na sua rotina solitária. Porém, nos últimos dias, além das memórias de uma vida, tem por companhia na sua casa de 15 assoalhadas a cabeça de uma criança. “Era tenaz, a cabeça. Há quatro dias que estava em sua casa; abrira os olhos esta manhã e a cabeça ainda ali estava, desta vez suspensa sobre o lavatório a ver-se ao espelho. [...] Era do sexo masculino ou feminino? Uma coisa era seguramente: uma cabeça com boas maneiras, educada, a cabeça de uma boa criança educada (ainda na pré-linguagem, talvez, porque muito calada).”

A normalidade de Sophia é interrompida, mas sem alarido. Será um fantasma? Parece  real. Antes, no princípio de tudo, o narrador avisara o leitor acerca do tempo deste romance: “… esta não é uma história de fantasmas, apesar de ser pleno inverno quando ocorre, uma luminosa manhã soalheira pós-milénio na era do aquecimento global na véspera de Natal (...) e de ser sobre coisas reais que acontecem realmente no mundo real com pessoas reais em tempo real no planeta real...”

É um tempo apresentado como o de um ocaso. “Deus estava morto: para começar. E o romance estava morto. A cortesia estava morta, a prosa, a pintura, todas elas estavam mortas, e a arte estava morta. O teatro e o cinema estavam ambos mortos. A literatura estava morta. O livro estava morto.” O elenco de coisas mortas parece ilimitado. A democracia, o racismo, a política, o cinema e o jazz, o pensamento, a verdade e a ficção. “Algumas, porém, não estavam, ou não estavam mortas ainda. A vida ainda não estava morta. A revolução não estava morta. A igualdade social não estava morta. O ódio não estava morto.” Se é uma distopia é a distopia em que vivemos e nela há lugar também para o humor e para o belo, como se o livro viesse provar — ou desafiar a ideia — que o livro ou a literatura não acabaram porque ainda são capazes de convocar uma multiplicidade de sentimentos contraditórios, suscitados por uma escrita capaz de interpretar e reagir ao real com o tal filtro da arte que talvez também não tenha, afinal, acabado.

Como já acontecera com Outono, Inverno é um livro sobre a contemporaneidade, publicado tão próximo quanto possível do tempo de que fala. Mantém-se o pós-referendo ao Brexit e continua a percorrer a “estranheza” — sentimento detectado por Smith — perante o desfilar da actualidade. Nisso, há um olhar mais cómico do que trágico, seja na caracterização das personagens ou no modo como a escritora explora os limites da linguagem para integrar na acção discursos políticos reais, o absurdo burocrático, ou o domínio o tecnológico. Somos cúmplices e receptores de uma escrita de urgência da parte de uma autora  política, que quer intervir no seu tempo da forma que a literatura pode intervir: conhecer as histórias, imaginar possibilidades, dar forma a um imaginário colectivo, fazer eco de sentimentos subterrâneos, tantas vezes ainda não detectados ou classificados pelo leitor que partilha com o autor a tal estranheza diante do presente.

Este presente: “é um dia ameno no início do mês [de Julho]. Um presidente americano faz um discurso em Washington num comício em honra dos veteranos de guerra. O comício chama-se Celebrar a Liberdade.” Ecoa a espécie de “oração” ao dinheiro feita pelo presidente nesse dia. E depois vem a memória de outro dia, no mesmo mês, e nova vergonha. Na Virgínia Ocidental, no Encontro Nacional de Escuteiros em 2017, “o mesmo presidente” pede uma vaia ao antigo presidente. Smith integra esse discurso brilhantemente no contexto do livro, um momento muito próximo da poesia, ironia máxima diante do ultraje, da contemporaneidade ultrajante. Ainda nesse Outono de 2017, dois ou três meses depois do discurso de Trump, este Inverno saía. Prova superada uma vez mais com grande distinção por parte de Ali Smith.