Ali Smith: “A arte melhora sempre a verdade”

Que tempo é este? É a pergunta que Ali Smith faz. A arte pode ajudar a lê-lo. No ano em que edita em Portugal dois romances, Outono e How to be Both (este em Outubro), a escritora olha o seu tempo a partir do filtro da arte. “A arte melhora sempre a verdade”, diz nesta entrevista.

<i>Outono</i>, o primeiro romance após o “Brexit”, acaba de sair em português. É um poema sobre a perplexidade actual. Que tempo é este? É a pergunta que Ali Smith, 55 anos, faz
Foto
Outono, o primeiro romance após o “Brexit”, acaba de sair em português. É um poema sobre a perplexidade actual. Que tempo é este? É a pergunta que Ali Smith, 55 anos, faz Antonio Olmos

A entrevista revela-a. Esquiva, mas assertiva. Irónica e de uma extrema sensibilidade. Sempre poética. Ali Smith, escritora, escocesa, 55 anos, fala de como a arte é crucial na sua tentativa de compreender e reagir a um momento como aquele em que vivemos. Outono (Elsinore), o primeiro romance após o “Brexit”, acaba de sair em português. É, na verdade, um poema sobre a perplexidade actual. Que tempo é este? É a pergunta que Ali Smith faz a partir da amizade entre Daniel Glück e Elisabeth Demand.

Quando se vêem pela primeira vez, ele e ela mal se olham. Estudam-se num jogo de sedução do qual o leitor se torna presa imediata: quer saber quem são Daniel e Elisabeth, dois moradores de uma aldeia carrancuda, que acabam por falar de arte, literatura, música e provocar a curiosidade dos que os olham sem os entender. O que pode haver entre um homem e uma mulher com 70 anos de diferença entre eles? Daniel tem 101 anos quando Elisabeth tem 32, mas a escritora usa os truques da literatura para nos dizer como eram em jovens e em crianças, como amaram, como se desiludiram e encantaram. Como se amam, no fundo, num mundo onde o presente parece desafiar os valores da democracia e acabar com o diálogo como a sua essência.

Daniel e Elisabeth conhecem-se quando ela, aos oito anos, se muda com a mãe para a casa ao lado da de Daniel. Vê-o sentado, no jardim, com um livro, um copo, ou o olhar perdido. Ficciona-lhe a existência e é a partir daí que começam as conversas entre os dois. Quase todas a partir de uma pergunta: o que lês? É uma provocação e um desafio: “Devemos estar sempre a ler alguma coisa, disse ele. Mesmo que não estejamos a ler fisicamente. Caso contrário, como seremos capazes de ler o mundo?” Podem ser frases escritas nas paredes a mandar os refugiados para casa ou os livros de Huxley, Shakespeare ou Dickens. Podem estar nos quadros de Pauline Boty, a única mulher da pop art britânica, que morreu aos 28 anos, por quem Daniel esteve apaixonado e que Elisabeth estudaria.

Pode ser ainda o poema de John Keats em que Ali Smith se inspira, Outono é o primeiro romance de um quarteto dedicado às estações do ano. E é tanto dádiva quanto brevidade. E é riso e lágrimas. Quem já leu os sete romances, os contos, os ensaios, os poemas de Ali Smith, conhece o efeito de sedução que a sua literatura produz. Aqui, esta leitora omnívora, que gosta de Toni Morrison, e de Paul Virilio, Nabokov, Kate Atkinson, Laurie Aderson, Margareth Atwood ou Giorgio Agamben parece conseguir outro estádio, e aproximar como nunca a sua ficção da música. Outono soa aos nossos ouvidos como uma sinfonia. Sobre amor, desencontro, morte, linguagem, fragilidade e o movimento da Terra onde cada um de nós é um ponto muito importante. No fim deste livro de enredo só aparentemente simples, Elisabeth e Daniel podem calar-se que o som das suas vozes reverberá para sempre.

No The Guardian, a escritora Joanna Kavenna descreveu Outono como “uma bela e pungente sinfonia de memórias, sonhos e realidades transitórias”. Foi apresentado como o primeiro romance após o “Brexit”. Eu acrescentaria que é também um romance sobre a angústia da actualidade. Como é que este livro nasceu?
Há mais de 20 anos que ando a pensar escrever quatro livros sobre as estações do ano, cada um com o nome de uma estação, e até certo ponto tenho andado sempre a trabalhar neles. Pensei que seriam os livros que escreveria quando fosse velha, tivesse o cabelo branco e andasse cheia de sono, como Yeats escreveu num poema [“When you are old and grey and full of sleep”, primeira frase de When You Are Old]. Mas não foi. Andava eu nisto, como sempre, e eis então que meu editor britânico publicou o meu último romance, How to Be Both [2014] muito rapidamente, e fez um trabalho tão bom, conseguiu produzir um livro bonito e complexo em semanas, que pensei que talvez agora fosse o momento de avançar com o projecto. Perguntei ao Simon, o meu editor, se seria possível publicar os livros em separado e tão próximos do seu tempo que eles fossem contemporâneos, permanecessem frescos e fizessem parte do que estava a acontecer em tempo real. Essa foi sempre a ideia que esteve na minha cabeça, que os livros seriam sobre seu próprio tempo, muito contemporâneos, mas também sobre a longevidade, e a dimensionalidade do tempo. Comecei no fim de 2015, início de 2016. O “Brexit”, coisa que nunca poderíamos ter imaginado, começou a acontecer e tornou-se parte da contemporaneidade do livro. Eu não poderia ter previsto o tempo estranho a que estes livros pertenceriam, mas sei que os livros têm as suas próprias cabeças, e escolhem ser escritos no seu tempo e não no nosso.

Quais foram os desafios e as limitações que sentiu ao escrever sobre este presente?
É difícil antever o que vai acontecer, ou prever o que poderá vir do que está a acontecer diariamente. Mas, mais uma vez, não há nada de novo debaixo do sol. “Brexit”, Trump — está tudo em Sófocles. As nossas vidas e os seus desdobramentos estão todos em Homero e Ovídio. Actualmente, no mundo ocidental, estamos perante uma escolha entre a Ilíada e a Odisseia: a guerra ou a hospitalidade. Agora, mais do que nunca, precisamos de metamorfose, precisamos de ser adaptáveis à mudança. Todos nós enfrentaremos a tragédia de uma forma ou de forma.

Estamos sempre a sentir que este romance é sobre o tempo, a finitude, a transformação. Daniel, um dos protagonistas, atira o seu relógio ao ar para mostrar como o tempo realmente pode voar. Esse momento da história fê-la pensar sobre o tempo de uma maneira diferente, como viver uma regressão? Porque é que o tempo é tão relevante neste livro?
As estações do ano são cíclicas, mas pensamos que vivemos um tempo linear, somos enganados pelo nosso dia-a-dia, achamos que vivemos ao longo de uma linha do tempo, com um começo, meio, fim. Na verdade, também vivemos ciclicamente, como os anéis que se formam dentro das árvores e fazem a árvore ao longo do tempo. Estou interessada na certeza cómica (ao contrário de trágica) do ciclo, bem como nas repetições trágicas na história. Acho que os livros sazonais serão atraídos para essas coisas.

Além do tempo estão aqui temas centrais nos seus livros, o amor, a perda, a tentativa de chegar ao outro, no sentido mais íntimo ou político. Tudo é questionado. Para tentar alcançar um novo começo? Ou é um olhar principalmente pessimista para o que se passa?
Nada nunca é “principalmente pessimista” nas artes criativas. As artes criativas, mesmo na sua mais sombria e mais trágica manifestação, são sempre uma fonte de esperança de renovação, de esperança e renovação.

O título remete para um poema de John Keats. Como encontrou essa relação?
Eu sabia que um livro sobre o Outono seria sobre a brevidade da vida. O poema de Keats foi revolucionário, e o próprio Keats, na sua vida muito curta, mudou a natureza do poema lírico e escreveu obras e cartas carregadas de energia. Eu sabia que Keats teria de estar de alguma forma no coração deste livro, e a sua visão da riqueza da colheita — assim como a sua perda trágica. Então, por muito boas razões, a figura de Pauline Boty pareceu-me paralela a esta figuração: a perda trágica versus o espírito, a originalidade estética, o quebrar de fronteiras e a possibilidade de novas expectativas e potencialidades, mesmo perante a tragédia individual da sua vida.

Como é que chegou às personagens de Elisabeth e Daniel?
As personagens vêm pelos seus próprios meios e fico sempre muito grata quando aparecem, porque isso significa que o livro se está a formar. Daniel chegou completo com a Elisabeth, e Elisabeth trouxe a sua mãe, e assim por diante. Para escrever um romance é preciso sempre uma casa cheia de pessoas. É um acto de hospitalidade em si mesmo. E ler um romance é exactamente o mesmo acto de hospitalidade.

PÚBLICO -
Foto
Antonio Olmos

Daniel olha para a vida a partir da morte, e é do fim da sua vida que ensina Elisabeth, muito mais jovem, a tentar ler o mundo. “Daniel Glück olha da morte para a vida, depois novamente para a morte. A tristeza do mundo.” A relação entre eles nasce de uma cumplicidade de olhares que, para outros, não é muito fácil de entender...
É essa a essência das personagens. Trazem consigo a sua história, a sua visão do mundo, até a sua própria sintaxe.

A dada altura fala-se do fim do diálogo como uma das características do presente: “Tornou-se um tempo em que as pessoas dizem coisas entre si e nada do que dizem chega verdadeiramente a ser diálogo.” Através da relação entre Daniel e Elisabeth quis mostrar que o diálogo continua a ser possível?
O diálogo é a vida. Não há vida sem diálogo.

Lê-se: “Shakespeare. ‘Oh, admirável mundo novo!’ Miranda proclamava a possibilidade do esplendor, a possibilidade de transformar inclusive o pesadelo em algo sublime e nobre. ‘Oh, admirável mundo novo!’ Era um desafio, uma ordem.” A possibilidade de transformar até mesmo o pesadelo em algo sublime. É esse o papel da arte e da literatura?
O papel da arte é simplesmente ser arte — ser a criação, o lugar onde as nossas imaginações se encontram, conhecer o mundo em que vivemos e conhecer as histórias e as possibilidades futuras do mundo, e conhecermo-nos a nós, e à nossa própria imaginação.

Elisabeth pertence a uma geração que experimenta, talvez como nunca antes, a precariedade. E vemo-la perante o absurdo da burocracia, da raiva generalizada, da falta de humor. Como é que olha para esta mulher?
Tenho grandes esperanças nessa geração, com o que eles farão com o seu protesto, nos seus corações abertos e nas suas mentes abertas, e também na geração mais nova do que esta. Saúdo-os e sinto-me animada todos os dias pelo seu empenho e determinação na luta contra as enormes disparidades, para usar em vez de serem usados pela História, pela tecnologia e pelas estruturas de poder que trabalham contra a igualdade ou trabalham para nos usar para os seus fins

Outono tem o ritmo de um poema. Como chegou à estrutura deste livro?
Gosto que pense nele como um poema. Acho que sempre aspirei não apenas à poesia, mas a uma arte que atravessa as fronteiras entre as artes, e que funcione, como um romance, musical, poética, escultural, coreograficamente.

No romance, Daniel comporta-se quase religiosamente na frente de um quadro. “... ele comovera-se de tal modo com a impetuosidade de um quadro de Dubuffet que descalçara os sapatos e se ajoelhara diante dele em sinal de respeito.” É outra manifestação neste livro da arte como maneira elevada de interpretar o mundo e, ao mesmo tempo, de rebelião. O que pode a arte — e um artista — em tempos como este?
Podem continuar a fazer coisas, encontrar caminhos e formas por onde deixam entrar, como portas ou janelas abertas em paredes, os nossos potenciais imaginativos, e lembrar-nos de como fazer do velho mundo novo, e do mundo circunscrito aberto. E tornar questionáveis e responsáveis as narrativas dominantes do mundo. A velha história na nova história irá ensinar-nos. A nova história no coração da velha história irá renovar-nos.

“O teu tempo chegou ao fim. Democracia. Perdeste”, lê-se. Quais são os seus sentimentos a relação a isto?
O tempo é cíclico. A roda gira sempre. Lembro-me de a grande escritora Grace Paley me dizer uma vez, “nunca desespero, a roda gira sempre”.

“Por todo o país, as redes sociais cumpriam a tarefa que lhes cabia.” Que tarefa é essa?
Tenho uma pergunta para esta pergunta. Estamos à mercê da tecnologia ou a tecnologia está à nossa mercê? Usaremos sempre o que quer que tenhamos para o bem ou para o mal, e o que quer que façamos uns com os outros com os novos sistemas de comunicar enfocará, no fim, sempre a mesma condição humana compartilhada, desde o nascimento até a morte, até o nascimento de novo. E revelam a natureza metafísica da nossa época.

Fala da velocidade do tempo e da velocidade da vibração, que são paralelas aqui. “Alguém matou uma deputada, diz às costas de Daniel enquanto se esforça por lhe acompanhar a passada. Um homem matou-a a tiro e lançou-se a ela com uma faca. Como se alvejá-la não fosse suficiente. Mas isso agora já é coisa do passado. Em tempos valeria um ano de notícias. Mas as notícias agora são como um rebanho de ovelhas aceleradas a correr encosta abaixo.” Foi sua intenção sublinhar a forma como consumimos notícias e tempo, como uma vertigem, uma voragem?
Não. A minha intenção foi simplesmente falar do mundo do modo como o mundo nos fala, para que possamos fazer o seguinte balanço: velocidade de pensamento e cuidado com o pensamento, velocidade de informação e recepção de informação.

Elisabeth lê O Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, num tempo como este, em que, por exemplo, após a eleição de Donald Trump, as pessoas foram à procura de velhas distopias para encontrar um sentido ou uma resposta para o presente. É isso que Elisabeth também faz em relação ao “Brexit”?
Quase seis meses antes da eleição de Trump, Elisabeth está a ler um livro antigo que comprou numa loja de segunda mão, um clássico, uma velha história, mas um livro sobre um futuro tão estranhamente reminiscente do seu presente que é notável. Ela pegou nele por acaso, e o seu título, ao referir-se a um futuro, remete-nos para uma história ainda mais antiga — A Tempestade, de Shakespeare, uma história sobre uma pequena ilha onde as pessoas lutam pelo poder, pela propriedade, pela colonização e pelo controlo hipnótico. Isto soa familiar?

Escreve sobre a ideia de despertar palavras adormecidas. Este tempo parece ter despertado algumas. Como é que a linguagem e a literatura podem responder a esse despertar de velhos conceitos, de discursos que se pensavam estar ultrapassados?
É o que sempre faz. É o que faz naturalmente. Pensar sobre a linguagem é pensar sobre significado e história.

Parece-me que Daniel queria mostrar o poder da mentira e em como ela nos condiciona. De que maneira?
Uma mentira propõe-se subverter a verdade. A arte melhora sempre a verdade. Essa é a diferença entre histórias e mentiras.

“Portanto tenta sempre acolher bem as pessoas na casa da tua história. É a sugestão que te dou”, diz Daniel a Elisabeth. Este também pode ser um conselho sobre a escrita?
Como referi antes, penso que o acto artístico é sempre hospitaleiro.

Quando escreve sobre a ideia de dar às personagens uma casa, é impossível não pensar num sentido mais amplo. “A aldeia está carrancuda. Elisabeth passa por uma pequena casa de campo não muito distante da paragem de autocarro, em cuja fachada, da porta até à parede sobre a janela, foi traçada uma mancha de tinta preta com as palavras VOLTEM PARA A VOSSA TERRA.” Este é um tempo de refugiados, quando muitos países mandam os seus imigrantes voltarem às suas casas?
Acho que já respondi a esta pergunta, mas, por alguma razão, chamamos à vida uma jornada. Se começarmos a fortificar o nosso mundo, os nossos países, nós mesmos, contra as viagens que o estado do nosso mundo, seja político, ambiental ou económico, obriga os nossos companheiros a fazer, iremos terminar com um mundo fragmentado e fortificados numa existência próxima da prisão. Parece-me ser esta a maior questão do nosso tempo, o maior problema e o assunto mais premente. Teremos de o abordar em breve, devemos abordá-lo agora. Escolhemos a inclusão ou a exclusão? Escolhemos ajudar ou recusar a ajuda aos nossos companheiros seres humanos, ou noutras palavras, a nós mesmos? A maior descoberta do século passado foi o ADN, que prova que somos todos uma família. Estamos todos relacionados. É interessante para mim que a palavra “tipo” (kind), em inglês, signifique família e bondade, e que no coração da bondade esteja a noção de família. Humanidade. Somos família. Vamos andar uns nos sapatos dos outros para ver o que significa realmente estar vivo, e vamos sempre dar as boas-vindas e honrar a jornada, e, por sua vez, estar ansiosos para ser recebidos quando temos de ser bem-vindos.

Voltando aos conselhos de Daniel a Elisabeth: a leitura de um livro é uma maneira de aprender a ler o mundo?
A leitura é uma das aptidões com mais camadas e mais úteis com que estamos equipados. Ler uma pessoa, por exemplo, em inglês, significa entender o carácter de alguém. Ler o mundo, ler um livro, está tudo conectado, e é tudo sobre compreensão.

Porque é que escolheu a artista plástica Pauline Boty como referência para Elisabeth?
Boty é o espírito deste livro; um espírito de generosidade, de energia e de libertação. Sinto-me abençoada por tê-la neste livro.

Pauline, como Keeler, viveu, na época da revolução sexual, a tentativa de afirmar os direitos das mulheres, a necessidade de as mulheres se afirmarem e de serem intelectualmente respeitadas. Anos depois, as mulheres ainda têm muito para conquistar, estamos a assistir a um ressurgir do discurso feminista. Nos seus livros tem escrito sobre o tema de muitas maneiras. O que é que correu mal, porque é que temos de continuar esta luta com tanta urgência como aquela que descreve?
Conquistámos muitas coisas no último século, mas não devemos ser complacentes. Não devemos, por um momento, pensar que o que ganhámos não pode ser facilmente perdido. Vivo numa cidade na Inglaterra onde a ilustre, famosa e mundialmente conhecida instituição educativa, a Universidade de Cambridge, levou mais de sete séculos para admitir que as mulheres mereciam a admissão às suas faculdades, às suas bibliotecas, ao seu sistema de ratificação. Foi formada em 1209. Deixou as mulheres serem membros em 1948. Temos de nos levantar contra essas opressões. Esse tipo de desigualdade institucionalizada certamente não cai facilmente! Lembre-se sempre. É preciso continuar a mover a montanha.

Shakespeare, Dickens, assim como Keats ,são guias neste livro. O que é que representam para si enquanto escritora?
Eles são escritores e os livros são gerados por outros livros. Os livros tornam possíveis os livros que vêm depois deles.

Este romance é muito diferente de How to Be Both. No ritmo, no tamanho, no jogo com o leitor. Como foi o processo de escrever um e outro?
Fico feliz contanto que haja processo! Contanto que os livros continuem a vir. Na verdade, não posso compará-los. Acontecem em função de um bem, de um objectivo, seja qual for o processo necessário. E há aqui um sentido de que todo o processo é um tipo de cegueira, assim como uma sensação de caminhar no escuro. Desde que no final haja um livro, desde que eu o encontre da maneira adequada e o entregue com equilíbrio e compreensão.

Creio que terá dito que a leitura de José Saramago influenciou a escrita de How to Be Both. De que maneira?
É verdade. Eu estava a ler A Jangada de Pedra, traduzido para o inglês pela excelente tradutora Margaret Jull Costa, e nesse romance Saramago lamenta que os escritores não possam, como os cantores de ópera, fazer acontecer várias coisas ao mesmo tempo com vários significados. Pela própria natureza da frase, da sintaxe e da construção da linguagem, mesmo que haja mais de uma coisa a acontecer em simultâneo, a linguagem tem de colocar uma antes da outra, uma após a outra, e assim por diante. Tomei esta declaração como uma declaração de frustração, e ao mesmo tempo pensava na estrutura do fresco, e se seria ou não possível aplicar a uma narrativa a noção de uma existência por camadas simultâneas interligadas, como na superfície de um fresco terminado. Parte da própria parede em que está contém, por baixo, os seus primeiros rascunhos em camadas, os seus começos, a sua sinopia ou pigmento, muitas vezes parecida com a superfície da imagem acabada, outras vezes bastante diferente. Eu queria tentar a dimensionalidade, ou pelo menos fazer um gesto. Adoro Saramago, adoro-o no inglês de Jull Costa, que é verdadeiramente brilhante, uma combinação de conhecimento irónico e demonstração de como os sistemas funcionam.

Ler esse livro é como olhar para um fresco. Mistura artes e sensações como se estivesse a revelar a complexidade e a sobreposição da vida. Estou certa?
Espero que sim.

De um modo geral, como é que a ficção nasce na sua cabeça, como é que tudo começa?
Não sei. Simplesmente agradeço que aconteça, quando acontece.

Como é a sua oficina? Deixa-se contaminar pelo que vê, pelo que lê?
Contaminar não é a palavra. Ficar enriquecida.

A sua escrita revela grande cuidado com o vocabulário, um sentido lírico; explora imagens, musicalidade, sensações. Numa crítica falaram de si para estabelecer a diferença entre escrita cerebral e encantatória, como que a dizer que as duas estão lá. Consegue fazer essa distinção no que escreve, é mais cerebral ou encantatória?
É uma combinação entre ouvir e editar. E sorte. Mas as palavras têm muitas vidas, e acabarão por cair e erguer-se sobre os seus próprios pés, como um gato deitado fora por uma janela alta, contorcendo-se, rastejando no ar para cair sobre as quatro patas. É aí que a edição entra em cena.

Como é que olha para os seus primeiros trabalhos?
Não olho.

Que autores gosta de ler?
Gosto de ler tudo.

Descreva o sítio onde escreve.
É confuso, empilhado com livros em ordens aleatórias, empoeirado, cheio de lama das patas das criaturas que vivem connosco. Sei que há colónias de traças sob as tábuas do chão. Mas a minha mesa de trabalho é clara e limpa, e tem vista para os jardins das casas da nossa rua. Agora os jardins são revoltos com flores e a florir.