Opinião

Já não se ensina que somos “todos diferentes, todos iguais”, como na campanha?

Há uma diferença colossal entre educar contra o preconceito e influenciar a orientação sexual de uma criança.

Todos os anos, as escolas das nossas crianças enviam pedidos de autorização, aos encarregados de educação, para que os seus educandos possam participar em visitas de estudo, acções de sensibilização, idas à biblioteca ou à quinta pedagógica, palestras sobre profissões, espectáculos de magia, desfiles de Carnaval, arraiais — a lista pode ser cansativa e variada. 

Já não é tão habitual organizarem debates sobre igualdade de género nem sensibilizarem as crianças e jovens para as diferentes orientações sexuais, como fez uma escola EB 2,3 do Barreiro recentemente. 

A iniciativa foi desenvolvida no âmbito da disciplina de Educação para a Cidadania, dirigia-se a 54 alunos do 6.º e do 8.º ano, com autorização de pais e professores, mas foi mal recebida no espectro do centro-direita parlamentar. Um deputado do PSD reagiu com estrondo no Facebook: “Sensibilizar alunos de 11 anos sobre diferentes orientações sexuais? Com associações LGBTI à mistura? Que porcaria é esta? Cada um pode ser o que quiser, mas deixem as crianças ser crianças. Deixem as crianças em paz. Adultos a avançar sobre este campo junto de crianças é perverso. Isto tem que parar!”, escreveu Bruno Vitorino

Tem direito a comentar, zangar-se, insurgir-se — nesse ponto tem toda a minha compreensão. Mas, além de discordar, não percebo os argumentos. Fazem-me lembrar aquela jovem que, durante uma manifestação contra a eutanásia promovida à porta do Parlamento, exibia um cartaz com a frase: “Não matem os velhinhos.” Ou então aquela outra, anos antes: “Não matem o Zezinho”, a propósito da descriminalização da interrupção voluntária da gravidez.

Há uma diferença “colossal” — para usar um termo com que os portugueses estão bem familiarizados —, entre educar contra o preconceito e influenciar a orientação sexual de uma criança. Tal como há uma grande diferença entre ter o direito de optar entre fazer ou não fazer um aborto e obrigar alguém a fazê-lo, coisa que a lei nunca permitiu nem permitirá. E o mesmo acontece com a eutanásia. Será sempre uma opção sentida e consentida, nunca uma imposição. A liberdade também é isso: respeitar todas as opções.

A escola deve poder educar contra o preconceito, o racismo, a discriminação de género e muitos outros tratamentos diferenciados. Deve poder pôr os alunos em contacto com outras realidades. Deve problematizar e ajudar a perceber o (difícil) que é estar nos sapatos de outra pessoa. Deve sensibilizar para as diferenças. Afinal, já não se ensina que somos “todos diferentes, todos iguais” como na campanha do Conselho da Europa, em 1995? 

Não, para mim o que aconteceu no Barreiro não é ideologia de género imposta às criancinhas. Nem é doutrinar, como quis saber o CDS, bem mais astuto na crítica. Em vez de censurarem, os centristas enviaram uma pergunta ao Ministério da Educação para saber se “os temas em questão fazem parte do currículo e estão devidamente enquadrados para que não se ultrapassem ‘linhas vermelhas’, designadamente doutrinar por oposição a sensibilizar”.

Não será por acaso que nem uma palavra se ouviu de Rui Rio, que tem demonstrado mais abertura de espírito nas questões de sociedade do que alguns dos deputados do seu partido, sobre a acção de sensibilização no Barreiro. 

Enquanto houver quem acredite genuinamente que é em debates sobre orientação sexual que a dita se define ou que é em aulas sobre educação sexual que os jovens decidem iniciar-se no sexo, vamos precisar de palestras. E isso não faz de mim uma pessoa de esquerda nem de direita. Não é política, é humanismo.