Opinião

“Saímos para a rua como estávamos vestidos”

O sismo de 1969 foi o evento com maior impacto na população portuguesa no século XX.

Em Fevereiro de 1969 estava perto de fazer 16 anos, e vivia na Calçada da Estrela [em Lisboa] com os meus pais e os meus irmãos. Nessa noite, sentiu-se uma oscilação forte, acompanhada de um ruído ensurdecedor que parecia vir de todo o bairro. Saímos para a rua como estávamos vestidos, tal como muitas das famílias esperando na rua o que iria acontecer, tão longe quanto possível das paredes das casas que ladeiam a calçada.

Ao fim de algum tempo, percebeu-se que o ruído correspondia à queda de chaminés e de loiça e, ao fim de algum tempo, todos voltaram para casa. O comunicado do Serviço Meteorológico Nacional diria pouco depois: “Foi registado um sismo nas estações sismográficas de Coimbra e Lisboa, com inicio às 3h41m41,5s [e] 3h41m20,2s, respectivamente, e com o epicentro a cerca de 230 quilómetros a sudoeste de Lisboa. A magnitude do sismo é de 7,3 na escala de Richter. O sismo foi sentido com o grau VI-VII da escala internacional em Lisboa e noutras localidades do continente. Em Lisboa foi sentido outro sismo com início às 5h28m com intensidade III da escala internacional. O sismo foi registado na Estação Sismográfica da Serra do Pilar às 3h41m e 52s”. Alguns destes valores vieram posteriormente a ser revistos com a integração da informação da rede sismológica mundial.

O sismo de 1969 foi o evento com maior impacto na população portuguesa no século XX, apesar de não ser o que mais vítimas causou ou o de maior magnitude. Para todas as pessoas da minha geração, foi o sinal vivo de que o risco sísmico é significativo em todo o território nacional. Muitos dos que hoje estudam ou acompanham a sismologia foram acordados para a ciência dos sismos na noite de 28 de Fevereiro de 1969.

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