Nuns Óscares sem rosto, cinco figuras para a noite de ouro de Hollywood

Bradley Cooper, Alfonso Cuarón, Spike Lee, Rami Malek e Glenn Close são alguns dos nomeados mais significativos das escolhas e das omissões desta 91.ª edição dos Óscares.

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Bradley Cooper está nomeado para o Óscar de Melhor Actor mas não para o de Melhor Realizador DR

Bradley Cooper, o ignorado

Se Spike Lee teve de esperar 30 anos para a sua primeira nomeação como realizador, por que é que Bradley Cooper teria de ser nomeado à primeira? Mas então o que é que Greta Gerwig (Lady Bird) e Jordan Peele (Foge) tinham para serem nomeados em 2018 pelas suas estreias na realização e Cooper não tem? É mais uma das decisões exóticas da Academia, esta de deixar de fora das oito nomeações de Assim Nasce uma Estrela (entre elas melhor filme, melhor actor e melhor actriz Cooper e Lady Gaga , melhor argumento adaptado e melhor canção) o seu realizador. Que assumiu o desconforto: é, dizia, como se não tivesse estado à altura do trabalho. Mas esteve. Põe as mãos, nesta quarta versão da história de William Wellman (1937), em material que é pura mitologia de Hollywood, agarrando e espectacularizando a velha mas imprevisível química entre “astros” (ele e Lady Gaga encantam-se com as suas possibilidades e trocas ao interpretar e cantar  quando os virmos na cerimónia a interpretarem Shallow voltaremos a perceber). Cooper adopta a postura de artesão dos velhos tempos, uma espécie de curador de uma equipa de talentos, por isso custa a perceber que Hollywood tenha ignorado este cultor do seu património. V.C.

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Alfonso Cuarón foi ao México resgatar a memória da sua ama DR

Alfonso Cuarón: o México derrubando muros

Os three amigos Alfonso Cuarón, Guillermo del Toro, Alejandro G. Iñárritu já ganharam Óscares. Mas até agora por filmes em língua inglesa. A performance de Roma (filme falado em castelhano e numa das línguas mixtecas), para além de confirmar que o México penetra o muro da visão americana do mundo, pode dar azo a vários feitos. Pode ser uma primeira vez para o serviço de streaming Netflix. Pode ser a primeira vez que um filme não falado em inglês seja considerado o melhor do ano, o que não aconteceu, por exemplo, com A Grande Ilusão (1939), de Jean Renoir, Z, A Orgia do Poder (1969), de Costa-Gavras, Lágrimas e Suspiros (1972), de Ingmar Bergman, A Vida é Bela (1998), de Roberto Benigni, O Tigre e o Dragão (2000), de Ang Lee, ou Amor (2012), de Michael Haneke, entre outros  O Artista (2011), de Michel Hazanavicius, era francês mas... era mudo. E seria também uma primeira vez se ganhasse como  Melhor Filme e Melhor Filme Estrangeiro. O filme de Cuarón é um cavalo de Tróia, por ele entra uma nova ordem? V.C.

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Spike Lee recebeu este ano a sua primeira e talvez tardia nomeação para Melhor Realizador Regis Duvignau/REUTERS

#OscarsSoSpike

Entre os nomeados para Melhor Filme há três com a cor no título: Black Panther, BlacKkKlansman: O Infiltrado e Green Book - Um Guia para a Vida, diferentes versões da negritude depois de dois anos de #OscarsSoWhite. Se Black Panther representa a primeira nomeação de um filme de super-heróis para o mais cobiçado Óscar, BlacKkKlansman é a primeira e talvez tardia nomeação de Spike Lee na categoria de Melhor Realizador. Não é um favorito da noite, mas tem o que os outros dois filmes não têm – nomeações cumulativas para os óscares de Melhor Filme e Melhor Realizador, um final dolorosamente enraizado na realidade e na actualidade, um murro no estômago da América que se pensa great again, e novamente Spike Lee, que boicotou os Óscares de 2016 pela sua falta de diversidade e que parece ter andado grande parte da temporada a guardar frases fortes para uma subida ao palco. J.A.C.

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Rami Malek é um dos favoritos ao Óscar de Melhor Actor pela sua encarnação de Freddie Mercury DR

O fenómeno Queen

Bohemian Rhapsody espantou parte da crítica e dos “peritos dos Óscares” durante a temporada de prémios. Não só acumulou distinções na caminhada como é um real favorito entre a Academia e tem a seu favor o seu protagonista, Rami Malek, que transita da televisão de Mr. Robot para um dos rostos mais conhecidos da música, Freddie Mercury. Parece ter o Óscar quase garantido, sendo que os actores são o mais numeroso grupo de votantes da Academia e já lhe deram o prémio do Screen Actors Guild. Mas se, tal como Black Panther, é um sucesso de bilheteira e uma história reconhecida por gerações, Bohemian Rhapsody é também um filme no qual foram identificadas muitas falhas, técnicas e históricas. Uma delas é o seu realizador, Bryan Singer, despedido por mau comportamento antes do final da rodagem e visado por denúncias de assédio e sexo com menores que destronaram já outras figuras de poder em Hollywood. J.A.C

Glenn Close é A Mulher dos Óscares?

Por momentos, a britânica Olivia Colman pareceu ter o ímpeto da temporada dos prémios, e até ganhou o BAFTA pelo seu papel como Rainha Ana em A Favorita. Mas a interpretação de Glenn Close em A Mulher, o seu currículo e o facto de já ir na sétima nomeação para um Óscar sem qualquer vitória começaram a pesar. E depois aconteceram os Globos de Ouro, que, sendo irrelevantes por nem um votante terem em comum com os Óscares, constituem na prática a estação publicitária de onde parte o verdadeiro comboio dos prémios. Glenn Close, que interpreta uma mulher sempre atrás de um grande homem, pôs a sala em lágrimas falando da natureza e das exigências de se ser mulher. No filme, mantém-se “contida, calculada, meticulosamente silenciosa, bastando uma expressão facial, um olhar, um sorriso para explicar ao espectador tudo o que vai na alma de Joan”, como escreveu o crítico Jorge Mourinha no PÚBLICO. J.A.C.