Crítica

Em vez de sexo, muita sensualidade

A influência de Branko sente-se na música popular portuguesa dos nossos dias. Se depois da cessação dos Buraka ainda existiam dúvidas, o lançamento do presente álbum é o momento de afirmação autoral definitiva.

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nuno ferreira santos

Ele nunca escondeu que o universo da canção lhe corria nas veias. João Barbosa, ou seja Branko, nos projectos que foi desenvolvendo (dos 1-Uik Project aos Buraka Som Sistema) sempre perseguiu esse desígnio. Fazer música que, de alguma forma, hospedasse ideias de composição, palavras e vozes, não necessariamente para criar canções segundo um paradigma fechado e tradicional, mas para alcançar um modelo que contivesse qualquer coisa de familiaridade, sem renegar uma linha mais exploradora.  

Já era isso que estava presente no seu anterior álbum a solo, Atlas (2015), mas que agora tem um desenvolvimento muito mais consequente. Quem estiver à espera de linhas de descendência dos Buraka, poderá aqui encontrá-las, principalmente nos temas instrumentais, como acontece na colaboração com PEDRO, em Mpts, mas também na dançante faixa B'leza, ou ainda na colaboração com os peruanos Dengue Dengue Dengue. Mas isto acaba por ser outra coisa. Em vez de sexo, sensualidade e erotismo. Em vez de periferia, centro e periferia, influenciando-se reciprocamente.

As bases sonoras são inspiradas em linguagens como o afro-house, kizomba, tarraxo e kuduro, mas também se poderia pensar no R&B ou em linguagens urbanas de inspiração latina. Enfim, inúmeras palpitações sonoras diferentes, onde cabem uma série de línguas e vozes convidadas (Umi Copper, Mallu Magalhães, Dino d’ Santiago, Cosima ou Catalina Garcia) que nunca comprometem a unidade do projecto. E isso acontece porque, para além da multiplicidade dos ingredientes (ao nível dos ritmos, dos timbres e das vozes), todas as canções respiram o mesmo envolvimento sensual, com tempo e espaço trabalhos com muito requinte.

É música para respirar, sem nenhum rímel, nem substâncias aditivas, como tantas vezes acontece nestes territórios. Dir-se-ia que Branko vai ao que interessa, criando em canções como Hear from you (com a voz de Cosima e ajuda na produção de Sango), Tudo certo, Amours d’ Été (com Pierre Kwenders) ou em Sempre (com Mallu Magalhães) um contraponto irrepreensível entre vozes, atmosferas nostálgicas e um tipo de base rítmica que convida mais ao encantamento do que à adrenalina da dança.  

A influência de Branko sente-se em parte da música popular portuguesa dos nossos dias. Não está a prestar nenhuma prova. Mas se depois da cessação dos Buraka ainda existiam algumas dúvidas, o lançamento do presente álbum representa o momento de afirmação autoral definitiva.