Entrevista

Mallu Magalhães: “Não sou nem do passado, nem do futuro. Eu só gosto do agora”

Mallu Magalhães quis fazer um álbum “sobre o mundo de todos”, influenciado pelo samba e pela música popular brasileira. Chama-se Vem e é apresentado esta terça-feira ao vivo, no Porto.

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Depois de Pitanga (2011) e da aventura colectiva Banda do Mar, Mallu Magalhães regressa aos discos com Vem, produzido pelo marido, Marcelo Camelo, e gravado entre Lisboa, São Paulo e o Rio de Janeiro. É um “disco grandioso” e voltado “para fora”, que conta com os “melhores músicos possíveis”, entre os quais Dadi Carvalho e Mario Adnet, nos arranjos, explica Mallu Magalhães em entrevista ao PÚBLICO no estúdio que montou em Lisboa.

A brasileira de 24 anos, que vive na capital portuguesa desde o final de 2013, apresenta o seu quarto álbum esta terça-feira, às 22h, no Mercado do Bom Sucesso, no Porto – um concerto com entrada gratuita.

A participação de músicos brasileiros com currículo no samba e na música popular brasileira (MPB) foi uma forma de adicionar um sabor extra do Brasil a Vem?

Com certeza. A bateria do Vitor Cabral e o Sidiel Vieira no baixo… Eles são até uma coisa mais samba jazz, são de uma escola de samba mais antiga. E o Dadi [Carvalho] é muito versátil: ele é samba, mas ele é MPB, ele é rock, ele é muito artístico também.

Esses três músicos são parte de uma longa lista de colaborações. Ao samba e à MPB, juntam-se arranjos que lembram a soul e a sua voz delicada, que transforma tudo em Mallu Magalhães.

Exactamente, não dá para colocar muita categoria no disco. Se fosse para colocar numa categoria, acho que seria a de música brasileira. Esses elementos de soul são uma referência para a gente, para a Será que um dia e a Navegador...

Essa última lembra as produções de Phil Spector nos anos 1960.

Tem tudo a ver. A nossa intenção é tentar tirar o melhor da música como se cada música fosse um single. Isso é um jeito de fazer disco que está extinto. É muito difícil uma pessoa conseguir dedicar-se a uma música e escolher um músico para cada música, é muito dispendioso e trabalhoso. O nosso disco foi feito no estúdio por tentativa e erro. Embora a gente abra mão de algumas coisas – tempo e até dinheiro –, vale a pena. Entre o meu outro disco [Pitanga] e este foram seis anos… Tudo bem que teve a Banda do Mar no meio e depois eu tive o bebé…

Ter um estúdio próprio, como este em que estamos, permite fazer um disco sem estar a contar as horas. Isso muda a forma como se cria?

Influiu muito no processo criativo, até psicologicamente. O tempo que a gente gastou aqui foi muito mais do que poderia gastar num estúdio que não fosse nosso, mas não é tão mais assim. Mas a sensação de estar num estúdio onde não tem tempo é muito diferente. É a diferença entre compor com prazo e sem prazo. O disco é feito de maneira diferente.

Ouvido agora, Pitanga parece um disco de transição, a meio caminho entre as fixações anglo-saxónicas da sua adolescência e uma linguagem autoral, mais próxima da MPB, que é totalmente assumida em Vem.

A roupagem, a composições, os ritmos… Entendo. É como se o Pitanga fosse um primeiro passo e este um segundo. Os dois têm qualidades: o Pitanga tem todo um interesse no artesanal, no erro, tem vários errinhos, é quase um disco feito em casa, mesmo que gravado no estúdio. Este não: é um disco grandioso, [voltado] para fora, convidámos músicos para tocarem tudo e mais alguma coisa. Essa busca pelos melhores músicos possíveis foi a grande diferença na intenção. Este é um disco mais exteriorizado, mais sobre o mundo de todos, enquanto o Pitanga era mais um disco sobre mim, sobre o meu mundo. Quando o toco [Vem] ao vivo, vejo que tem uma pressão, um volume, um tronco muito vigoroso. Isso, com a minha voz, que tem essa característica delicada e subtil, forma uma dupla curiosa.

Como é que se leva para palco um álbum com tantos músicos convidados?

É um desafio. Para viabilizar a tournée, não dá para levar a quantidade de músicos que gostaria. O Diogo Vargas, um músico incrível, vai substituir alguns sopros por sintetizador e assumir essa estética, essa textura. E, quando faltar corpo, vamos usar elementos digitais, o sampler e tal. 

Já disse que se sente mais brasileira desde que vive em Lisboa. Mas o samba é uma paixão antiga.

Sempre gostei. Todo o mundo que gosta de música conhece o samba, é um género muito importante.

Mas estar longe ajudou-a a assumir a música brasileira como programa para Vem?

Acho que sim. Tem uma coisa da construção da identidade, a gente quer reforçar quem é. É desse movimento de construir a minha identidade que reforço o facto de ser brasileira. É uma coisa que talvez não venha tanto à tona quando estou no Brasil, lá o facto de ser brasileira não me diferencia. Quando saio, isso fica mais evidente em mim – é como se passasse a me enxergar com essa característica. Mas, a partir de agora, vou morar nos dois lugares [Portugal e Brasil]. Acho que isso vai dar um alívio na saudade que estava sentindo.

Tal como em Banda do Mar, há várias referências à vida doméstica, da “felicidade” que “vem nos microssegundos” (Vai e Vem) às “flores na sala de estar” (Casa pronta).

A minha inspiração e as minhas referências vêm muito do quotidiano. Sou muito interessada pela vida e pelas coisas que acontecem. É como se construísse nessas coisas pequenas um porto seguro de referências. Acho que todo o mundo faz isso, com a própria casa, as suas manias, uma bolsa, as suas coisas. Sou muito do momento, do hoje, não sou nem do passado, nem do futuro. Eu só gosto do agora.

Interessa-lhe a rotina boa?

A vida do músico tem muita pouca rotina. Talvez até por isso, acho incrível quando a gente pode ter rotina [risos]. Fazer uma coisa toda terça e quinta-feira.

O que faz uma guitarra portuguesa num álbum tão brasileiro?

Essa música [Linha verde] pedia esse fado, ela tem uma dramaticidade, um sangue que funciona bem com o fado. A gente escuta muito fado, e estando aqui e tendo Portugal como referência interiorizou essa linguagem e começa a colocá-la em prática.

Foi alvo de bullying na adolescência, foi criticada quando começou a sua relação com Marcelo Camelo, volta agora a ser atacada por causa do vídeo de Você não presta, no qual houve quem visse o reforço de estereótipos racistas. Lida bem com isto?

É interessantíssimo porque esta polémica é diferente das outras. Eu já passei por bullying mesmo. Quanto mais personalidade, mais pano para manga você dá para a crítica, para as pessoas não gostarem, para gerar assunto polémico, é normal. É sinal de que sou uma artista autêntica, relevante e que produz conteúdo que é passível de discussão. O bullying e a perseguição acontecem com qualquer celebridade. Não me sinto fragilizada com essas coisas.

Ganhou “carapaça”.

É, já tenho alguma prática. No caso da discussão do vídeo, é uma discussão importante, válida e mereceu a minha atenção e o meu lamento por algumas pessoas se sentirem ofendidas. Não sinto como bullying. Não visto a roupa da vítima. Só quem se mexe incomoda. Aquela “parada” do cineasta Nilson Primitivo: não existe cultura se não for contracultura. Se há cultura é sempre contra; o que está no fluxo, o que é o esperado, o que é pasteurizado, o que não incomoda não é cultura. E o que eu faço é cultura, eu faço arte, eu represento a contramão.

O YouTube guarda uma participação sua no programa televisivo Altas Horas. Era ainda adolescente. Estava muito nervosa, ia dar o primeiro concerto fora de São Paulo, estava ainda surpreendida pela quantidade de pessoas que a estavam a descobrir pela Internet. Não foi há muito tempo. Ainda se revê naquela Mallu?

Comecei a minha carreira e nunca tive o desejo da fama. Foi muito esquisito quando ganhei uma exposição muito grande. Não estava preparada psicologicamente. Coloquei as músicas na Internet porque as tinha gravado, curtia fazer música. Ainda me identifico, sim. Acho que todos nós ainda somos crianças. Eu tinha o quê, 15 anos?

Sim.

Muito nova. A minha família não é nada artística, da televisão... Ainda por cima, sou uma pessoa muito intensa – era ainda mais do que hoje, fui aprendendo a lidar com isso. Mas acho lindo, fico muito orgulhosa quando me vejo assim pequenininha na televisão, sem nenhum preparo, sem nenhuma intenção de parecer bonita ou mais velha. Não era uma peça do jogo, claramente era uma coisa de fora. Devia haver mais pessoas esquisitas na televisão, diferentes, não televisivas. É muito construtivo para o público.