Opinião

O “fantasma do socratismo despesista”

O socratismo despesista existiu mesmo e é imperdoável negá-lo, ou andar a fazer ironia com a página política mais dramática de toda a nossa democracia.

A expressão que dá título a este texto foi utilizada na quarta-feira por António Costa na Assembleia da República, durante o debate da moção de censura apresentada pelo CDS. Em resposta a uma intervenção do PSD sobre os baixos níveis de investimento em Portugal, o primeiro-ministro invocou o “fantasma do socratismo despesista”. Mais precisamente, saudou com ironia o PSD por hoje em dia considerar o investimento público “algo que é essencial ao desenvolvimento da nossa economia, à cidadania dos portugueses e à coesão territorial”, em vez de adoptar a posição de antigamente, quando tinha a mania de implicar com o despesismo socrático – esse diáfano “fantasma”.

Se por acaso algum leitor estiver, neste momento, a pensar utilizar o argumento “lá vai ele falar outra vez do Sócrates”, espero que antes de proferir tais palavras conclua que não sou eu que estou em modo de repetição, mas António Costa que continua em modo de negação. Sócrates e o seu legado têm de ser falados e falados e falados enquanto houver um primeiro-ministro em exercício que se atreva a formular a frase “fantasma do socratismo despesista”. Não é admissível. Não é desculpável. Não é sério. Não houve fantasma nenhum – o socratismo despesista existiu mesmo, teve implicações catastróficas para o país, e é imperdoável negá-lo, ou andar a fazer ironia com a página política mais dramática de toda a nossa democracia.

A dívida pública portuguesa passou de 96 mil milhões no primeiro trimestre de 2005 para 195 mil milhões de euros no primeiro trimestre de 2011. Em apenas seis anos, o governo de José Sócrates agravou a dívida em 100 mil milhões de euros, cerca de 44 pontos percentuais do PIB (de 67,4% em 2005 para 111,4% em 2011). São números estratosféricos. Na verdade, nem sequer foi bem em seis anos – foi em pouco mais de três, porque entre 2005 e 2008 a dívida nem sequer cresceu por aí além. O descalabro total das contas ocorreu a partir de 2008, o tempo da famosa “crise internacional”, à qual Sócrates respondeu com aumentos de 2,9% na função pública (em 2009), mais as obras da Parque Escolar, o TGV e negociatas sem fim.

Justiça lhe seja feita: José Sócrates dispunha do dinheiro do país com o mesmo cuidado que dispunha do seu próprio dinheiro – nenhum. Era gastar e gastar, independentemente dos rendimentos e do saldo da conta. Só que Portugal, tristemente, nunca pôde contar com um amigo tão dedicado como Carlos Santos Silva. Quando chegou a hora de pedir emprestado aos amigos foi preciso pagar com juros altos, pois a troika nunca perdoou, nem apontava os empréstimos em papéis de deitar fora. Ainda hoje estamos a pagar por isso, e vamos continuar a pagar durante décadas, porque com um crescimento miserável ninguém consegue prever quando a dívida irá regressar aos números de 2005.

A inconsciência de José Sócrates, e a incompetência do seu governo, comprometeu a vida dos portugueses durante pelo menos uma geração. Pode fazer-se piadinhas com isto e dar bicadas no PSD enquanto se ironiza com o “fantasma do socratismo despesista”? Poder pode-se, com certeza. Mas eu fico absolutamente estupefacto. É evidente que António Costa tem perfeita consciência de quem José Sócrates foi – o caminho das cativações que tem seguido não pode estar mais distante das políticas do PS socrático. Mas a retórica baixa e a defesa do clube insistem em vir ao de cima nas piores ocasiões. Não pode ser. Costa fartou-se de defender Sócrates entre 2005 e 2014. Já chega, não?