Opinião

Como o petróleo da América do Norte está a transformar a geopolítica mundial

A Arábia Saudita, a Venezuela e a Rússia, pela sua dependência do petróleo como fonte de receitas, são dos que mais têm a perder com o ressurgimento do petróleo na América do Norte, sobretudo se o ciclo for longo.

1. Se Mefistófeles, o diabo, se quisesse divertir à custa dos humanos, não encontraria melhor do que dar-lhes a riqueza do petróleo. Mefistófeles convenceu príncipes sauditas, oligarcas russos e revolucionários venezuelanos que nada precisavam fazer na vida. Apenas teriam de vender, o mais caro possível, nos mercados internacionais, o líquido escuro e viscoso que este fazia brotar nos seus territórios. Assim, poderiam realizar os seus sonhos, de riqueza, de poder, de expansão do Islão wahhabita, ou revolucionários bolivarianos. Tudo lhes seria permitido.

Para mostrar ao mundo o seu poder, deu a lição do choque petrolífero de 1973. A América de Richard Nixon, que já tinha feito vários pactos com o diabo contra o comunismo e a influência soviética — no Vietname, no Chile, etc. —, mas não no petróleo, julgando, de forma arrogante, não precisar para isso de Mefistófeles, foi punida. O mesmo aconteceu aos seus incrédulos aliados ocidentais. O preço do aumentou, de rompante, 400%. E ninguém duvidou mais dos poderes por si outorgados à OPEP.

Mas Mefistófeles é muito sensível à imagem pública. Não gostou de ver o seu prestígio afectado ao ser confundido com um político sem qualidades, como George W. Bush, na Assembleia Geral das Nações, por um dos seus maiores protegidos, Hugo Chávez. (Ver “Ayer el diablo estuvo aquí. Huele a azufre todavía” in El País, 20/9/2006). Assim, decidiu pregar uma partida aos que se habituaram aos seus favores. Pôs, de novo, o petróleo a jorrar, com grande abundância, na América do Norte, algo que não se via desde 1970. Este não é o enredo literário do Fausto de Goethe, mas uma narrativa irónica da transformação geopolítica ligada ao petróleo.

2. Habituámo-nos a olhar para muitas inovações tecnológicas e empresariais na área das novas tecnologias e economia digital como revolucionárias, devido ao seu enorme impacto social, económico e político. Nomes como Steve Jobs (Apple), Mark Zuckerberg (Facebook), Jeff Bezos (Amazon), ou Larry Page e Sergey Brin (Google), são bem conhecidos e associados às mesmas. As inovações nesta área são cool e atraem grande atenção da opinião pública que, frequentemente, idolatra os seus impulsionadores. Em contrapartida, o old-fashioned sector do petróleo desperta pouco interesse, excepto pelas piores razões. É visto como um negócio sujo, em termos ambientais (poluição), que gera corrupção (de empresários e políticos), e ligado ao pior da política internacional.

Poucos alguma vez terão ouvido falar de George Mitchell, o engenheiro que mais impulsionou a moderna técnica de fracturamento hidráulico (a partir do termo em língua inglesa fracking). (Ver Exxon Mobil, “Pioneers of Innovation: George Mitchell, The Father of an Energy Innovation no one Saw Coming” in Energy Factor, 9/05/2017). Ou de Aubrey McClendon, um empresário praticamente desconhecido fora do meio do petróleo. (Ver “How America's 'most reckless' billionaire created the fracking boom” in Guardian, 30/08/2018).

Este último, com sua ascensão e queda, é provavelmente quem melhor ilustra o ressurgimento da indústria petrolífera norte-americana na última década e meia. A ele se deve uma aposta empresarial inovadora no uso conjugado das técnicas de fracturamento hidráulico e prospecção horizontal, mas também um capitalismo agressivo e sem grandes preocupações ambientais. Mas essa conjugação de tecnologia e investimento empresarial, para além dos ganhos na extracção de petróleo convencional, permitiu fazer chegar ao mercado grandes quantidades de petróleo de xisto (shale oil), um petróleo não convencional produzido a partir de fragmentos de xisto betuminoso.

Não é exagero afirmar que a combinação destas inovações tecnológicas e empresariais transformou, de forma revolucionária, o sector de petróleo/energia, tal como o conhecíamos nas últimas décadas. Ao mesmo tempo, há óbvias implicações geopolíticas que, nesta altura, são ainda difíceis de discernir na sua plena dimensão.

3. No mapa mundial do petróleo o que era impensável há uma década aconteceu. No ano de 2018 os EUA tornaram-se o maior produtor mundial. (Ver U.S. Energy Information Administration, “The United States is now the largest global crude oil producer”, 12/09/2018). Temos de voltar ao mundo pré-1973 para encontrar uma realidade similar. Desde 1970 que os EUA não ultrapassavam a produção de 10 milhões de barris/dia. (Ver “US oil production tops 10 million barrels a day for first time since 1970” in CNBC, 31/01/2018). Em 2018, a sua produção total de produtos petrolíferos terá crescido ao ritmo mais rápido dos últimos 98 anos. Se as previsões da U.S. Energy Information Administration para 2019 se confirmarem, as suas importações de petróleo deverão cair para um valor pouco superior aos 300.000 barris por dia. A última vez que isso sucedeu foi em finais dos anos 1940, durante a presidência de Harry Truman. (Ver “Texas is About to Create OPEC's Worst Nightmare” in Bloomberg, 21/11/2018).

O Texas, nos EUA, está, novamente, no centro da produção petrolífera mundial. (Ver United States Geological Survey, “USGS Announces Largest Continuous Oil Assessment in Texas and New Mexico”, 28/11/2018). Caso as descobertas agora confirmadas pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos (UGS) se traduzam, durante os próximos anos, numa exploração petrolífera intensiva, esta área do Texas ocidental e do Novo México — a chamada Bacia Permiana (Permian Basin) — poderá transformar-se no mais produtivo campo petrolífero do mundo, ultrapassando o gigantesco campo de Ghawar na Arábia Saudita. (Ver “Why The Permian Basin May Become The World’s Most Productive Oil Field” in Forbes, 27/12/2018). Mas não é só o Texas que está no centro da revolução petrolífera em curso na América do Norte.

4. O Dakota do Norte é outro lugar da revolução petrolífera em curso. Um local improvável. Na imensidão territorial da América do Norte, localiza-se no seu centro geográfico, na fronteira com o Canadá, muito distante das zonas costeiras do Leste e do Oeste, onde estão as grandes cidades, a larga maioria da população e a actividade económica e empresarial que simboliza o capitalismo norte-americano.

Com uma área superior a 180.000 km² vivem, no Dakota do Norte, menos de 800 mil pessoas, uma larga maioria de ascendência europeia, sobretudo de alemães, escandinavos e britânicos, tendo como actividade económica tradicional a agricultura. É um cenário mais provável para um western, na tradição dos filmes de Hollywood dos anos 1950 e 1960, do que de para uma exuberante indústria petrolífera ligada ao shale oil. Mas a formação Bakken — por vezes designada como Bakken shale — é outro dos centros da revolução energética em curso. Antes da descoberta do shale oil era um dos Estados mais rurais e pobres da federação norte-americana. Em 2001, no ranking dos 50 Estados da federação, estava no 38.º lugar em termos de Produto Interno Bruto (PIB) per capita; em 2012, o seu PIB per capita já superava 30% da média dos EUA. (Ver U.S. Energy Information Administration, “North Dakota sees increases in real GDP per capita following Bakken production”, 12/07/2013). Com a indústria de petróleo vieram, também, os seus ciclos económicos.

A partir de 2014, os produtores shale oil dos EUA e Canadá — onde existem ainda maiores reservas, sobretudo no Estado de Alberta — passaram a ser alvo de uma agressiva guerra de preços movida pela OPEP, em especial pela Arábia Saudita. O objectivo era asfixiar a competição norte-americana, com a queda prolongada do preço do petróleo, e também o rival iraniano, que reentrava nos mercados ocidentais após o acordo sobre o seu programa nuclear de 2015. (Ver “Will the Saudis drive U.S. shale out of business?” in Reuters, 13/11/2014). Na realidade, apesar das dificuldades e falências de várias empresas, a indústria de shale oil dos EUA mostrou, em geral, uma capacidade de sobrevivência inesperada a preços baixos do petróleo no mercado. Voltou a ressurgir no último ano, com a subida dos preços, atingindo níveis máximos de produção. (Ver “North Dakota Oil Output to Hit Record in 2018: Here's Why” in Yahoo! Finance, 23/05/2018).

O mesmo aconteceu do outro lado da fronteira, no Canadá. (Ver “Canadian shale boom triggers quakes in Alberta town as frackers rush to drill new wells” in Financial Post 9/02/2018). Neste último caso era até um país que, apesar do elevado grau de desenvolvimento, poucos associavam a uma imensa riqueza petrolífera. Nesta altura, dispõe das terceiras maiores reservas mundiais de petróleo, convencional e não convencional, o que reforça a ideia da enorme transformação ocorrida no mapa mundial da energia petrolífera.

5. Que consequências geopolíticas podem resultar do ressurgimento do petróleo na América do Norte? No caso dos EUA, ganharam margem de manobra, económica e política. A dependência do petróleo importado — seja do Médio Oriente ou de outras partes do mundo, como a Venezuela — está em valores mínimos do último meio século. Podemos especular se, não fora assim, os EUA avançariam com sanções à Citgo/PDVSA, a petrolífera estatal venezuelana. E se, no caso de Israel, teriam efectuado a transferência da sua embaixada de Telavive para Jerusalém. Afinal, a Arábia Saudita teve o seu momento de maior prestígio internacional quando boicotou o fornecimento de petróleo aos EUA em 1973, saindo em defesa dos árabes/palestinianos na guerra de Outubro desse ano.

Mas o contexto actual é muito diferente. Vamos assistir a uma progressiva retirada dos norte-americanos do Médio Oriente — ironicamente depois das guerras do petróleo, do Koweit em 1991 e do Iraque em 2003 —, agora por desinteresse na região? Talvez, mas ainda é prematuro antecipar essa consequência. Em qualquer caso, os países da OPEP têm, provavelmente, o pior cenário da sua história para enfrentar. Pior mesmo só, talvez, se o Congresso dos EUA — onde republicanos e democratas parecem não se entender sobre assunto nenhum — adoptar a legislação conhecida como No Oil Producing and Exporting Cartels (NOPEC). (Ver “NOPEC Act Is A Big Concern For OPEC Members” in Oilprice, 4/12/2018). Essa possibilidade terá até já levado o Qatar a abandonar a OPEP. (Ver “Qatar abandona la OPEP: por qué su salida pone en riesgo el futuro del cartel petrolero” in BBC, 3/12/2018).

Quanto à Arábia Saudita, à Venezuela e à Rússia, pela sua dependência do petróleo como fonte de receitas, são dos que mais têm a perder com o ressurgimento do petróleo na América do Norte, sobretudo se o ciclo for longo, o que não é possível saber nesta altura. Mas a transformação não é linear. Pode trazer também oportunidades a outras potências de projectarem a sua influência no Médio Oriente e sobre os países da OPEP, colocando problemas estratégicos delicados aos EUA. Por exemplo, a Arábia Saudita e a Rússia fizeram uma aproximação que, anteriormente, seria impensável (nos conflitos militares do Médio Oriente, Síria e Iémen, estão em campos opostos), para concertar níveis de produção e preços do petróleo. (Ver “Saudi Arabia And Russia Make Secret Oil Deal” in Oilprice, 3/10/2018).

Quanto à Rússia, tem agora um interesse acrescido em controlar o petróleo venezuelano via Rosneft, de forma a influenciar os preços internacionais, o que leva a aumentar o seu apoio ao governo de Nicolás Maduro. Mas a Venezuela, para além das sanções económicas e da pressão política externa, sofre, nesta altura, a mossa que o petróleo do Texas e do Dakota do Norte fazem na sua quase única fonte de divisas. Artimanhas de Mefistófeles, ou não, a geopolítica do petróleo, tal como a conhecíamos no mundo pós-1973, parece virada do avesso.