O amor também se aprende

Se é dos que se queixam de que as suas relações amorosas correm sempre mal, fique a saber que é possível alterar esse cenário. Tem é de se dispor ao autoconhecimento, a alterar comportamentos e a transformar memórias

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Clarisse Meyer/Unsplash

Espera-se que as relações amorosas sejam positivas e belas. Os parceiros querem sentir-se bem quando estão juntos, numa mistura de ligação emocional e química.

Posse, agressividade, frustração e culpa fazem parte do “lixo” que importa retirar de nós para que tudo corra bem. Quem o diz é Mário Lima, terapeuta que dinamiza o programa “Transforme a sua vida relacional num sucesso”, da clínica MindGrow (no Porto), que esteve agendado para o final desta semana, em Espinho, a propósito do Dia dos Namorados. Foi adiado para 6 de Julho por compromissos internacionais. Mas, como o amor não escolhe datas…, não desistimos de conversar sobre o tema.

“O amor devia ser uma das coisas mais bonitas que nos acontecem. Não há nada de mais belo do que uma partilha feliz e especial do amor com alguém”, diz Mário Lima, de 42 anos. Há quem o consiga com uma certa naturalidade, há quem se convença de que tem azar, quem culpe sempre o outro e quem só procure ajuda depois de já ter sofrido (e ter feito sofrer) muito.

“Pode até haver o factor sorte/azar, mas não será mais de 5%... As confusões, os traumas, as agressividades e todas as coisas que minam o processo afectivo não têm que ver com sorte ou azar, mas com entendimentos ineficazes da pessoa consigo própria e também com o outro”, afirma o fundador da MindGrow.

Por isso fala em exercício interior de “depuração”. Uma espécie de “limpeza” do que impede cada um de nós de ter um relacionamento pleno e satisfatório com outra pessoa.

Rasgar os traumas

Quando as pessoas experimentaram uma relação que não correu bem, levam a frustração para as relações seguintes e chega um momento em que “elas próprias se desacreditam”. Às vezes, recorrem a livros de auto-ajuda, aplicam alguns conselhos que receberam e ficam animadas durante um tempo, descreve. “Mas acabam por voltar a desanimar porque não houve a consistência certa” para a mudança.

O terapeuta quer deixar uma mensagem a quem vive um processo deste tipo: “Rasgar o trauma dos problemas interiores de relacionamentos ineficazes pode não ser uma experiência que ocorra do dia para a noite. Não carrego no botão e fico com novas maneiras de agir e de pensar acerca do amor.” É preciso tempo.

Mas reforça que não há que ter receio de pedir ajuda nem necessidade de sentir embaraço. É positivo “se tivermos alguém que possa apontar alguma luz para o caminho e que nos ajude a mudar o referencial de comportamento”. Isto se estivermos dispostos “a procurar a paz e a felicidade”. O que se pode “aprender seriamente”, acredita, “mas de uma maneira criativa e imaginativa”.

Um dos primeiros passos pode ser abandonar o discurso de que “a culpa é sempre do outro”. Ou seja: “Ele/ela é que não me entendeu.”

Entre as várias técnicas que usa, está a estimulação neuronal. “Para que a transformação no inconsciente se revele depois de forma natural e espontânea no consciente.” É especialista em hipnose clínica, técnico e vice-presidente do Conselho Científico da Associação Portuguesa de Hipnose Clínica e Hipnoanálise. Em casos de depressão profunda, relata, “as pessoas podem ser bombardeadas com estímulos positivos”.

Não é fã “de apagar memórias” ou, dito de outra forma, “de instalar amnésias”. Antes defende e estimula o autoconhecimento e a transformação do passado.

“O problema é termos a memória de alguma coisa que se passou há cinco anos, por exemplo, e continuarmos hoje a ter sentimentos adversos e negativos perante o que aconteceu.” A isso Mário Lima chama “memórias não transformadas”. É preciso “transformar essas memórias, para que, quando se as recupera, consigamos dizer: isto não foi bonito, mas também foi graças a isto que eu aprendi, hoje estou mais forte e cresci por causa disto”.

Lembra um caso que acompanhou de alguém que esteve 20 anos em depressão pela perda de um familiar. “A memória estava com a mesma qualidade de antes.” Enquanto terapeuta, tenta ajudar as pessoas a “transformar o passado, dando-lhe uma cor diferente, para que possa ser lembrado de outra maneira”. Menos dolorosa.

Quando se apaga um segmento da memória, o que diz ser possível em hipnose, “não há transformação”. Não gosta disso. “É como varrer o lixo para debaixo do tapete.” Está esquecido e escondido, mas continua lá.

Ternura e cinto de ligas

Sem querer entrar em “processos metafísicos”, Mário Lima lembra: “Nós somos energia.” E desenvolve: “Quando falamos de amor, existem duas energias puras: a ligação emocional (afecto, atenção, ternura) e a química (desejo, pulsão sexual).” É no equilíbrio entre as duas que as relações se desenvolvem. Com dedicação e criatividade.

O programa da MindGrow em que se “promete” transformar a “vida relacional num sucesso” tem este conjunto de objectivos, descritos na divulgação do encontro: compreender de forma detalhada os principais cenários relacionais; erradicar medos e crenças que nivelam as escolhas afectivas por baixo; integrar novas experiências adquiridas em contexto real, numa curva de aprendizagem contínua; aprender a reconhecer a verdadeira raiz dos sentimentos e emoções; adquirir estratégias para treinar no mundo real cenários de interacção amorosa.

Perguntamos a Mário Lima como, em termos práticos, se processa o recurso à hipnose. Explicação: “Numa primeira sessão, há uma conversa para se perceber qual é o problema e como é a pessoa para além do problema. A sua maneira de pensar, para vermos quais as possibilidade de se conseguir mais rapidamente chegar ao objectivo. E queremos que a pessoa se sinta confortável connosco. Nos trabalhos seguintes, propõe-se um primeiro momento de vivência de cenário hipnótico.”

Aqui, o terapeuta diz que é difícil explicar o processo e o efeito. “É como descrever a alguém a sensação de se nadar no oceano. Só experimentando é que se sabe e sente como é efectivamente nadar no mar.”

Após esse “mergulho”, abre-se “a porta interior”. “Depois de aberta essa porta e em função das competências da pessoa, explora-se um conjunto de técnicas. Também se pode recorrer a uma espécie de aulas, com o bê-á-bá de hipnose.”

Defende que não é a “ideia feita” de sono. O que se faz é “permitir a pessoa sentir, vivenciar e ter a sensação interior do estado hipnótico”. Ou seja: “É mais acordar do que adormecer.”

A MindGrow, clínica de desenvolvimento pessoal, tem vários programas, como os de desenvolver áreas de chefia e de liderança ou de relacionamento interpessoal. Os especialistas tanto são solicitados para questões de perda, ansiedade, como para deixar de fumar. A procura de ajuda é maior no feminino (70%) do que no masculino (30%). Mais de 60%, estima o terapeuta, têm idades entre os 40 e os 55 anos.

Diálogo e silêncio

Mário Lima, na sua vida pessoal, encontrou alguém que o levou a perceber que era preciso agir de maneira diferente. Vive há seis anos com a namorada. “Antes, a minha abordagem era outra e não resultava. As respostas e aquilo que possa trazer para a vida comum e para a relação passaram a ser diferentes”, conta.

E acrescenta, feliz: “Proporciona-me aquilo que idealizei num relacionamento: aquela capacidade de se poder estar em silêncio e estar a comunicar tudo. Podemos estar horas a conversar, se o quisermos, mas também estar em silêncio, olhos nos olhos e saber o que o outro quer dizer. Isso preenche-me totalmente.”

Também ele aprendeu a amar.

O Dia dos Namorados (14 de Fevereiro) é só uma data, mais comercial do que afectiva. Não faz mal. Ninguém ama por calendário.