Zhang Yimou já não vem a Berlim (e o Netflix continua a criar sururu)

Estava a ser uma Berlinale morna até este choque: o novo filme do autor de Milho Vermelho e Herói foi retirado da competição, presumivelmente por pressões da China. Entretanto, os exibidores alemães protestam por haver um filme Netflix a concurso: Elisa y Marcela, de Isabel Coixet.

Foto
One Second, mergulho de Zhang Yimou na Revolução Cultural, foi afastado da competição DR

Berlim acordou cinzenta esta segunda-feira, e com más notícias para a Berlinale de 2019, agora que o festival se aproxima do meio-tempo: Zhang Yimou já não virá à capital alemã, onde One Second, o seu mais recente filme, iria estrear-se em competição na sexta-feira. As razões apontadas não são inteiramente congruentes, avança a Variety: segundo a produção chinesa, o filme foi retirado por “dificuldades técnicas”; segundo a organização do festival, sai da competição por não ter sido "terminado a tempo”.

A verdade faz-nos mais fortes

Das guerras aos desastres ambientais, da economia às ameaças epidémicas, quando os dias são de incerteza, o jornalismo do Público torna-se o porto de abrigo para os portugueses que querem pensar melhor. Juntos vemos melhor. Dê força à informação responsável que o ajuda entender o mundo, a pensar e decidir.

Berlim acordou cinzenta esta segunda-feira, e com más notícias para a Berlinale de 2019, agora que o festival se aproxima do meio-tempo: Zhang Yimou já não virá à capital alemã, onde One Second, o seu mais recente filme, iria estrear-se em competição na sexta-feira. As razões apontadas não são inteiramente congruentes, avança a Variety: segundo a produção chinesa, o filme foi retirado por “dificuldades técnicas”; segundo a organização do festival, sai da competição por não ter sido "terminado a tempo”.

Ao que parece, contudo, One Second, que mergulha na Revolução Cultural de Mao Tsé-Tung, terá sido retirado da Berlinale por pressões políticas, não tendo a sua exibição sido autorizada pelas autoridades chinesas – que em 2018 colocaram a regulamentação da produção cinematográfica sob a alçada do departamento de propaganda do Partido Comunista. Uma ironia tanto maior quanto Zhang, um dos cineastas-chave da chamada “quinta geração”, por três vezes premiado em Berlim (Urso de Ouro por Milho Vermelho, Grande Prémio do Júri por Regresso a Casa e prémio Alfred Bauer por Herói), se tornara nos últimos anos o realizador “oficial” do regime chinês, chegando até a dirigir as cerimónias de abertura e de encerramento dos Jogos Olímpicos de Berlim. Independentemente da qualidade do filme, não são boas notícias – nem para Berlim nem para o cinema chinês.

Foto
One Second, de Zhang Yimou DR

Entretanto, como um mal nunca vem só, 160 exibidores independentes alemães escreveram uma carta à ministra da Cultura, Monika Grutters, e ao director cessante do festival de Berlim, Dieter Kosslick, a pedir que Elisa y Marcela, da espanhola Isabel Coixet, que se estrearia em concurso esta quarta-feira, seja também ele retirado da competição – o filme é uma produção Netflix e vai entrar directamente no serviço de streaming sem passagem pelas salas.

“O Netflix está a usar os grandes festivais e prémios de cinema como plataforma de marketing e a diminuir a posição do cinema como um local de cultura”, lê-se na carta dos exibidores. A exigência é ecoada pela Confederação Internacional dos Cinemas de Arte e Ensaio (CICAE), num comunicado que reza: “Se o filme se estrear numa plataforma de streaming sem ter passado por uma estreia em sala, isso pode significar que a competição da Berlinale – à imagem da Mostra de Veneza e em contraste com o Festival de Cannes – está aberta a uma companhia que boicota os acordos internacionais relacionados com as janelas de estreia de um filme”. Recordemos que Roma, de Alfonso Cuarón, que teve dez nomeações para os Óscares, teve direito a estreia em sala, mas que o Netflix, à imagem do que faz relativamente às audiências efectivas do serviço de streaming, se recusa a divulgar (inclusive em Portugal) os números de bilheteira.

É um duplo golpe para Dieter Kosslick, que se retira este ano da direcção do festival, pondo fim a um mandato cujas opções geraram acesos debates – ao ponto de um conjunto de realizadores alemães, incluindo nomes de ponta como Maren Ade ou Christian Petzold, ter subscrito uma carta a apelar a uma reorientação da política de programação do festival, sob pena de este cair lentamente na irrelevância. Essa carta terá certamente pesado na decisão de se retirar este ano, cedendo o posto a partir da 70.ª edição do festival (que terá lugar entre 20 de Fevereiro e 1 de Março de 2020, mais tarde do que é normal para evitar o choque com os Óscares) a Carlo Chatrian, oriundo do Festival de Locarno, que trará consigo o grosso da sua equipa.

Uma edição desinspirada

Se a espaços, ao longo dos últimos 18 anos, Berlim recuperou algum do cachet – com César Deve Morrer, dos irmãos Taviani, Uma Separação, de Asghar Farhadi, e Táxi, de Jafar Panahi, a vencerem o Urso de Ouro, respectivamente, em 2011, 2012 e 2015 –, a programação 2019 é unanimemente considerada das menos inspiradas das edições mais recentes. A competição tem progredido paulatinamente na sua lógica de “filmes de tema” mais ou menos soporíferos, mais ou menos bem-intencionados – nem Mr. Jones, biografia do jornalista galês Gareth Jones, que denunciou ao mundo as políticas de fome estalinistas, dirigida pela polaca Agnieszka Holland, nem Grâce à Dieu, de François Ozon, sobre o abuso sexual de crianças por padres católicos, entusiasmaram as audiências até ver –, mas ainda estão por ver os filmes mais aguardados. Isto, claro, para não falar de Der Goldene Handschuh, o filme-pára-raios de Fatih Akin que tem sido arrasado pela crítica (o americano Jordan Cronk, num exemplo perfeito, tweetou que “a boa notícia é que o filme pode finalmente matar a carreira de Fatih Akin”) e que, de um momento para o outro, se tornou o escândalo do dia num festival que não costuma ter escândalos destes.

Foto
Mr. Jones, de Agnieszka Holland DR

Os protestos relativamente à presença a concurso de Isabel Coixet, que conta em Elisa y Marcela a história verídica de um casal lésbico na Espanha do início do século XX, inserem-se nos protestos regulares da exibição contra a investida dos serviços de streaming na produção cinematográfica, que ganharam visibilidade quando Cannes recebeu a concurso Okja, de Bong Joon-ho, e The Meyerowitz Stories, de Noah Baumbach. Mas ofuscam o facto de a cineasta catalã ser, para perplexidade geral de muitos observadores, uma “autora da casa”: é a sua quarta presença na competição, e é uma das “mascotes” da era Kosslick.

Foto
Elisa y Marcela, de Isabel Coixet, conta a história real de um casal de lésbicas na Espanha do início do século XX DR

Quanto à operação de charme que Berlim tem feito ao longo dos últimos anos para atrair a produção chinesa, parece não ter surtido efeito: já antes de One Second, um outro filme, Better Days, de Derek Kwok-cheung Tsang, tinha sido retirado da secção paralela Generation 14Plus, e The Shadow Play, de Lou Ye, policial sobre a corrupção na China contemporânea presente na paralela Panorama, teria também estado em vias de ser retirado (embora, até ver, continue na programação). Os muitos filmes chineses nas secções paralelas, contudo, não foram até ver afectados.