Crítica

O efeito borboleta

Filme de primeira água sobre um divórcio que descamba para um conflito judicial, “Uma Separação” não é “Kramer contra Kramer” em Teerão - mas é um filme que tem conquistado o Ocidente por todas as razões certas

É um dos “casos do ano”. Podia sê-lo por todas as razões erradas (já lá vamos), felizmente não: Urso de Ouro e prémios de Melhor Actor e Melhor Actriz para o conjunto do elenco em Berlim 2011, um milhão de espectadores em França, candidato oficial à nomeação ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, “melhor filme estrangeiro do ano” para os críticos de cinema nova-iorquinos e para a National Board of Review americano, aclamação crítica e sucesso público um pouco por onde tem estreado.


O êxito de “Uma Separação” podia ser indissociável da origem iraniana do filme de Asghar Farhadi; não é certo que lhe seja inteiramente alheio, mas a verdade é que este não é o “filme iraniano do costume”, e por difícil que seja vê-lo sem levar em conta a sua nacionalidade, a verdade é que o seu sucesso não se deve apenas à boa consciência ocidental.É que “Uma Separação” é realmente um grande filme, que lida, muito simplesmente, com a verdade, a partir do momento em que um acontecimento aparentemente anódino - um pedido de divórcio - despoleta um efeito-borboleta de consequências imprevisíveis.

Simin sai de casa porque Nader não lhe dá o divórcio; este precisa que alguém tome conta do seu pai, que sofre de Alzheimer, enquanto trabalha, e contrata Razieh, cujo marido está desempregado; quando regressa a casa um dia, Nader dá pelo pai amarrado à cama à beira da morte, sem sinal de Razieh; quando esta aparece, Nader empurra-a para fora de casa, ela cai nas escadas e vai parar ao hospital; Hojjat, marido de Razieh, leva Nader a tribunal como responsável do aborto que a mulher sofreu; este por seu lado processa Razieh por ter deixado o pai sozinho em casa.

Segue-se um fascinante jogo de espelhos que reflecte toda uma série de questões centrais da vida moderna: a classe média urbana e confortável de Nader e Simin contra a classe operária pobre e suburbana de Hojjat e Razieh, agnosticismo contra religião, orgulho contra pragmatismo, justiça contra injustiça - e tudo isto explica muito bem porque é que “Uma Separação” tem ressoado mundialmente. Não estamos longe de um “Magnolia”, de um “Babel”, de um “Crash” no modo como o filme de Asghar Farhadi recusa eleger um herói para se mover por entre um elenco de conjunto onde não há heróis nem vilões, como utiliza a mecânica narrativa do acaso e da coincidência.

A diferença de um Iñárritu ou de um Haggis está em que Farhadi não nos diz nunca o que devemos pensar nem sentir, recusa terminantemente toda e qualquer manipulação gratuita, sabe que basta confiar na força da situação e na entrega dos actores para gerar o suspense e a emoção. Longe de ser um filme que se deleita na sua importância moral, deixa ao espectador a abertura para tirar as suas próprias reflexões; é um cinema que não está ao serviço de nada a não ser da história que quer contar.

“Uma Separação” reflecte as contradições e a complexidade do mundo em que vivemos, ao ponto da sua nacionalidade deixar de ser significativa, mesmo que seja impossível olhar para ele sem sermos recordados dos problemas específicos da República Islâmica; não faz parte da estética autoral da maior parte do cinema iraniano que é divulgado mundialmente, não se refugia em meditações oblíquas e ensaios audiovisuais. É verdade que as questões todas que aqui se abordam também se jogam no tabuleiro de uma sociedade presa entre a espada e a parede, reflectindo de modo agudo as tensões subjacentes ao Irão moderno - mas este é um filme que sabe que só falando do pessoal conseguimos chegar ao universal. É por isso, também, que é bom perceber que o seu triunfo não se limita a ser um caso manifesto de condescendência de boa consciência ocidental. Nada disso: “Uma Separação” é um filme de primeiríssima água que calhou ser iraniano.