Netflix retira cinco produções de Cannes

Reacção às declarações do delegado-geral do Festival, Thierry Frémaux, de que um filme para estar em competição no festival terá de garantir a distribuição em sala de cinema. Entre as "baixas" está o restauro de The Other Side of the Wind, o filme incompleto de Orson Welles.

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A Netflix, Frank Marshall e Peter Bogdanovich deram as mãos para o restauro de The Other Side of the Wind, de Orson Welles

Duelo Cannes-Netlix aproxima-se do pôr do sol: falta menos de uma semana para o anúncio da programação da 70.ª edição de Cannes – esta quinta-feira, dia 12 – mas é já dado como certo que cinco produções Netflix que tinham lugar marcado no line up  foram retiradas pela plataforma de streaming. Foi uma resposta às declarações de Thierry Frémaux, delegado-geral do festival, à revista Film  Français, em Março, quando apresentou novas regras do festival: para um filme pretender estar em competição, terá de garantir a estreia em sala. Frémaux disse então respeitar o modelo económico da Netflix, o seu compromisso com a exibição em streaming, mas sublinhou que Cannes é um festival de cinema, que luta pelo regresso dos espectadores às salas, esse era o seu compromisso.

As cinco “baixas”, a confirmarem-se, serão Roma, de Alfonso Cuarón, Hold the Dark, de Jeremy Saulnier, Norway, de Paul Greengrass e dois títulos de e à volta de Orson Welles: The Other Side of the Wind, o seu filme incompleto, e o documentário de Morgan Neville They’ll Love Me When I’m Dead – seriam exibidos fora de competição. No dia 12 se confirmará se estão dentro ou fora do alinhamento de Cannes, porque Frémaux admitiu à IndieWire  que decorrem ainda conversações e que os filmes são bem vindos.

Flashback: na edição do ano passado, Cannes exibiu em competição Okja, de Bong Joon Ho, e The Meyerowitz Stories, de Noah Baumbach, duas produções Netflix. Foi justificado na altura pelo próprio Frémaux como desejo do festival de se abrir à nova realidade, de não ignorar um parceiro que começou a dar cartas na produção. Isso desagradou ao meio cinematográfico francês que, durante essa edição, não deixou de se mostrar – a polémica estava nos corredores, nas salas de projecção (assobios de cada vez que aparecia o logo Netflix) e nas conferências de imprensa, onde o próprio presidente do júri, Pedro Almodóvar, praticamente deixou no ar que os seus jurados iriam olhar de soslaio para filmes sem estreia em sala já que segundo ele seria paradoxal que algum deles recebesse a Palma de Ouro e nunca chegasse a ser exibido no circuito convencional.

Recorde-se que uma lei francesa exige que passem 36 meses entre a estreia de um filme em sala e a sua exibição em streaming, o que obrigaria a Netflix a esperar três anos antes de exibir os filmes na sua plataforma se os quisesse apresentar em competição em Cannes – regra que não se aplicaria se os filmes fossem exibidos em outras secções. Em 2017 Frémaux tentou negociar com a Netflix, que se mostrou desinteressada na exibição em sala de Okja e de The Meyerowitz Stories. Mas os filmes passaram ainda assim em concurso. Os protestos da indústria levaram o delegado-geral a não abrandar o jogo de forças e a anunciar novas regras que se aplicam na edição de 2018.

A IndieWire cita declarações de Frank Marshall, produtor do restauro do filme que Orson Welles começou a rodar em 1970 e de que algumas cenas avulsas apareceram em documentários ou em festivais, mas que nunca foi acabado. Apoia a Netflix se houver decisão de não ir a Cannes, onde seria obviamente um dos acontecimentos na secção Cannes Classics. “Não teria havido filme sem eles. Durante anos todos os estúdios e financiadores em Hollywood ignoraram este projecto”.

Jeremy Saulnier, que viu dois títulos anteriores serem apresentados na Quinzena dos Realizadores — Blue Ruin e Green Room — confirmou já que o seu filme, Hold the Dark, não irá a Cannes. “Quem raio gostará de ver apupada no genérico a primeira apresentação do seu filme, sobretudo quando se está a denegrir a entidade que o tornou possível?”. Saulnier coloca-se, na declarações à IndieWire, numa posição de consenso e espera mesmo por ela: “Respeito Cannes por querer proteger o que entende ser o cinema tradicional e o modelo de negócio que o suporta. E respeito a Netflix por desbravar novos caminhos que contornam o tradicional método de distribuição para se ligar directamente a um público enorme. Mas as duas entidades estão a evoluir e penso que acabarão por resolver as suas diferenças.”