Para mexer as coisas em Cannes... nem selfies, nem Netflix, nem antecipação de filmes para a imprensa

Resoluções do delegado-geral, Thierry Frémaux, à beira do anúncio da edição 71.

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São medidas “para fazer mexer as coisas”, agora que o Festival de Cannes está a fazer 71 anos: os jornalistas deixarão de poder ver os filmes antes das projecções de gala, os convidados da gala deixam de poder fazer selfies no tapete vermelho e os filmes destinados a plataformas de streaming e não às salas deixarão de poder estar em competição.

Quando faltam três semanas para ser anunciada, a 14 de Abril, a programação de Cannes 2018, o delegado-geral  Thierry  Frémaux, numa entrevista à revista Film  Français, anuncia novas resoluções. Até agora, a imprensa via os filmes antes das projecções de gala. Por exemplo, às 8h da manhã os jornalistas deslocavam-se ao Palácio dos Festivais, eram os primeiros a ver os filmes que às 19h seriam projectados para o público; às 19h viam os filmes que seriam projectados para os convidados às 22h. Agora, com a reorganização, a imprensa passa a ver os filmes ou ao mesmo tempo que os espectadores ou até depois deles. Justifica Frémaux com a vontade de reforçar o brilho das sessões de gala ao conservar o “suspense total” sobre os filmes – publicações francesas como a revista Les  Inrockuptibles, referem por exemplo aquilo que chamam “o incidente Sean Penn”, quando The  Last Face, que estava em competição em 2016, chegou à gala já em perda devido às reacções negativas da imprensa, o que acabou com a festa.

Ainda nesta lógica de fazer de um filme em Cannes uma primeira vez para todos, o festival vai começar a uma terça-feira e não a uma quarta como até aqui, para que o filme de abertura possa ser uma verdadeira avant-première, antes da estreia nas salas francesas no dia seguinte –? em França, a quarta-feira é o dia das estreias comerciais.

Frémaux decidiu também – na sequência de comentários feitos há um ano, quando anunciou o programa de 2017 – “proibir” as selfies. “Sobre a passadeira vermelha, a trivialidade e a lentidão provocadas pela desordem criada pela prática das selfies prejudica a qualidade do desfile. Logo, de todo o festival”.

Também decorrente da polémica selecção para a competição, no ano passado, de Okja, de Bong Joon-ho, e de The Meyerowitz Stories, de Noah Baumbach, produções Netflix – protestos do meio cinematográfico francês, assunto para discussão ao longo do festival nas conferências de imprensa e até um statement do presidente do júri Pedro Almodóvar a colocar-se do lado dos filmes com estreia em sala –, Frémaux confirma agora que os filmes destinados ao serviço de streaming só poderão estar fora de competição em Cannes.

E no Cannes pós-Weinstein, o festival, garante o delegado-geral, vai fazer respeitar a igualdade de género no júri (presidido por Cate Blanchett) e no comité de selecção dos filmes.