Na estrada para lugar nenhum com Christian Petzold

Transit, o novo filme do realizador de Barbara e Phoenix, adapta aos nossos dias um romance sobre a Segunda Guerra Mundial. Petzold explica como foi adaptar um dos seus livros de referência.

Transit é exibido no Medeia Monumental Sala 1 Terça 20, às 18h, e 6ª 23, às 21h45;  no Centro Cultural Olga Cadaval Auditório Jorge Sampaio Quarta 21, às 18h
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Transit é exibido no Medeia Monumental Sala 1 Terça 20, às 18h, e 6ª 23, às 21h45; no Centro Cultural Olga Cadaval Auditório Jorge Sampaio Quarta 21, às 18h

“Ao que se diz, Alfred Hitchcock terá dito que só se podem fazer filmes a partir de maus livros e eu acho que ele tem toda a razão.” Então se concorda com o seu “mestre”, porque é que Christian Petzold, o autor de Barbara e Phoenix e o mais importante cineasta alemão dos nossos dias, se decidiu a adaptar ao cinema Transit? Um romance da escritora alemã Anna Seghers (1900-1983), que diz ser não apenas uma das grandes obras da literatura, mas um dos seus livros preferidos?

A resposta, perante uma mesa redonda de jornalistas num recanto do Berlinale Palast num fim de tarde de Fevereiro, é mais complicada do que parece. Está intimamente ligada à longa colaboração entre Petzold (n. 1960) e o falecido Harun Farocki (1944-2014), seu mentor, professor na Academia de Cinema em Berlim e co-argumentista ou consultor de guião em todos os seus filmes. Transit foi o “livro de referência” de todas as suas colaborações, como explica o cineasta: “Definimos desde muito cedo algumas regras de base. Uma delas era que todas as personagens nos nossos filmes teriam sempre de estar em trânsito, em movimento, e que teríamos de ter sempre duas histórias diferentes que tinham de se interligar e contrabalançar uma à outra. Mas nunca tínhamos pensado fazer um filme a partir do livro. Teria sido absurdo tentar interpretá-lo directamente. A única coisa que podia fazer era tentar colocar no filme a mesma paixão que senti enquanto o lia.”

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Transit, que esteve a concurso no festival de Berlim este ano e faz parte da competição do LEFFEST, e que chegará daqui a algumas semanas às salas portuguesas, é o “ponto de chegada” de 30 anos de cinema – o primeiro filme de Petzold após a morte de Farocki, e também o último em que ainda trabalharam juntos. E apesar de se basear num romance publicado em 1944, sobre as experiências dos exilados que procuravam fugir à Segunda Guerra Mundial, não é um filme de época: mantendo Marselha como cenário, Petzold transpôs a acção para os nossos dias, mas de forma indeterminada, com carros e cenários modernos mas sem telemóveis nem computadores.

“Antes do Harun morrer, decidimos tentar adaptar Transit,” explica Petzold, “e escrevemos um primeiro tratamento. Mas eu tinha acabado de rodar Phoenix, que era um filme de época, e não tinha vontade absolutamente nenhuma de fazer outro logo a seguir. Decidimos adiar o projecto. O Harun morreu uma semana depois. E agora vou dizer uma coisa um bocado pirosa,” ri-se. “Como no filme de John Ford sobre Abraham Lincoln, A Grande Esperança, fui à campa do Harun e pus um galho em cima da pedra, e disse a mim próprio que se o galho caísse para a esquerda fazia uma adaptação de época e se caísse para a direita situava o filme no futuro. E depois o galho caiu para a direita... com alguma ajuda minha!”

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Ernesto Ruscio/Getty Images)

Então e a questão dos refugiados? pergunta uma jornalista. Transit é uma história de gente que procura fugir à guerra (qual, nunca se saberá), gente vinda de toda a Europa que procura um visto para partir de barco para um país que os aceite, e das relações que se criam entre eles durante o limbo da espera. A transposição da trama para os nossos dias leva a uma curiosa inversão da questão dos refugiados: onde o ponto de fricção contemporâneo está em deixar entrar aqueles que fogem à guerra, o filme coloca os europeus a quererem sair e a verem-se na posição do outro. Mas Petzold, aceitando que Transit é um filme do seu momento, diz que não precisou de sublinhar a questão a traço grosso, evocando a própria história dilacerada da Alemanha do século XX. “Temos uma Lei de Base que declara que todos aqueles que sejam refugiados por motivos políticos, religiosos, de sexualidade e por aí fora receberão asilo na Alemanha,” diz. “É uma responsabilidade que nasceu a partir da nossa história. Quando Anna Seghers escreveu o romance, os refugiados tinham muita dificuldade em encontrar um país que os aceitasse, e foi essa dificuldade que levou à criação das leis de asilo alemãs. Que estão agora a ser restringidas, talvez mesmo abolidas, mas que precisamos, hoje mais do que nunca, que sejam cumpridas. Estamos a ver o regresso das mesmas ideias e dos mesmos conceitos que levaram aos desastres da década de 1940, pessoas que falam de nação, fronteiras, identidade… E toda essa discussão está presente em Transit, mas não precisei de a por em primeiro plano. O filme fala por si próprio sobre estes temas, e não precisa de explicações.”

É também por isso que Transit encerra ao som da Road to Nowhere dos Talking Heads – “porque precisávamos de uma canção que de algum modo abrangesse todos os refugiados, todos aqueles que estão numa situação específica. Não era o fim que Christian Petzold tinha pensado — “queria fazer uma coisa como o final da minha série televisiva preferida de sempre, Os Sopranos, em que um corte abrupto a negro deixava tudo em suspenso. Mas depois senti que era preciso algo mais. E ouvi o Road to Nowhere na rádio, e pareceu-me perfeito. Começa como uma canção gospel, e diz-nos que estamos sempre em trânsito, sem saber para onde vamos, sem termos lar ou casa onde pertençamos, e que isso pode não ser assim tão horrível. Que pode haver algo de bom nesse trânsito.”

 Toda a programação em: www.leffest.com