Miguel Feraso Cabral

Um porco passeia por Bruxelas e é o fim da Europa tal como a conhecemos

A Capital é uma sátira com um crime por resolver. É uma provocação e um exercício ensaístico. O protagonista? Bruxelas, cidade atravessada por um porco. O romance do austríaco Robert Menasse é uma reflexão sobre os fantasmas que ameaçam o projecto comum. É escrita por um europeísta convicto mas céptico que durante quatro anos observou os funcionários da UE. Chega agora a Portugal e terá edição no Reino Unido no final de Fevereiro, em plena discussão do Brexit.

“Haverá arte que seja importante numa época, mas que depois seja, e com razão, esquecida?” No romance A Capital, a interrogação surge no contexto de uma exposição. Alguém organiza uma mostra de artistas esquecidos, mas o questionar do papel da arte e de como ela sobrevive ao  tempo está implícito não só ao longo de todo o livro, mas também da conversa com Robert Menasse, o escritor e ensaísta austríaco, autor daquele que é apresentado como o primeiro romance sobre a União Europeia (EU). É um desafio literário, como denota o arranque. “Quem foi que inventou a mostarda? Este não é propriamente um bom começo para um romance. Por um lado: não pode haver nenhum bom começo, pois seja ele bom ou menos bom, não há qualquer começo. Com efeito, qualquer primeira frase que se possa conceber é em si já um fim, mesmo que depois prossiga. Está no fim de muitos milhares de páginas que nunca foram escritas: a nota prévia.”

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Nasceu em 1954, estou literatura e cultura alemãs, filosofia, ciência política. Foi influenciado por Marx e Hegel, mas também Ernest Bloch ou Georg Lukács. Jornalista, ensaísta, romancista, foi um ex-eurocéptico convertido às virtudes de uma “união democrática” daniel rocha

Como nota prévia, a esta entrevista, diga-se que Robert Menasse gostaria que a sua literatura se inscrevesse na tradição daquela que reflecte sobre o tempo em que é escrita e é capaz de sobreviver a esse tempo. Uma literatura capaz de desafiar e vencer o esquecimento. A Capital é sobre este tempo e constrói-se a partir da memória de um erro, aqui apresentado como o grande erro da História da Humanidade e que terá dado origem à União Europeia, agora a atravessar a maior crise de sempre. A Capital é uma sátira, de uma ironia quase grotesca, com um crime por resolver, uma proposta muito provocatória e um exercício ensaístico. Chamam-lhe um romance político. Menasse acha que é mais do que isso. Qual é o protagonista? Bruxelas, capital de uma união em risco.

“Um dia interroguei-me acerca da razão pela qual ninguém contou como trabalham os funcionários públicos nas instituições europeias; como vivem, o que fazem, que ideias têm, como é que aquilo funciona e porque é que tanta coisa não funciona. Achei um escândalo. A UE é um projecto político que influencia toda a nossa vida. É tão importante e não o entendemos”, diz Robert Menasse, 64 anos, natural de Viena, filho de um judeu que fugiu ao nacional-socialismo em 1938 e regressou depois da guerra.

Robert nasceu em 1954, estou literatura e cultura alemãs, filosofia, ciência política. Foi influenciado por Marx e Hegel, mas também Ernest Bloch ou Georg Lukács. Jornalista, ensaísta, romancista, foi um ex-eurocéptico convertido às virtudes de uma “união democrática” — é autor do ensaio Mensageiro Europeu (2012), onde defende que as democracias nacionais estão a impedir a democracia europeia. Quis que esta conversa, ao telefone desde Viena, fosse em português. “Se falar bem devagar acho que vai dar”, ri, contando que o que sabe de português aprendeu no Brasil, onde foi leitor no Instituto de Teoria Literária na Universidade de São Paulo nos anos 80. “Dá para fingir que sei falar, mas espero que ponha a minha linguagem mais elegante”, continua, com os érres carregados e os ésses arrastados, a contar como em 2010 decidiu mudar-se para Bruxelas.

O fantasma do porco

“Tentei conhecer tantos funcionários públicos quanto possível, falar com eles e entender o que fazem. É que esse grande abstracto que é União Europeia é feito por homens e tudo o que os homens fazem pode ser contado. Aluguei um apartamento por um mês porque achei que conseguiria entender alguma coisa. Acabei por ficar quatro anos. Tentei olhar minuciosamente o quotidiano dos funcionários, a vida particular. Fiz amizade com eles. Encontrava-os geralmente à noite, bebíamos nos bares, mas ao mesmo tempo penetrei nos gabinetes, vendo o que faziam, no que trabalhavam. Espero que um leitor possa entender as contradições internas destas instituições; perceber que o projecto vale a pena, mas não tem muita hipótese de ser bem-sucedido”, diz o escritor que, apesar do cepticismo, se afirma europeísta. “Defendo a ideia europeia e não aguento a maneira como  está a ser destruída neste momento pelos egoísmos, pelo ressurgir dos nacionalismos.” 

No romance estamos em Bruxelas, “a capital de um estado nacional falhado, a capital de um país com três línguas oficiais”, como a define uma das personagens, cidade escolhida para capital da União Europeia. Robert Menasse começa por apresentar as figuras que se propõe seguir por essa cidade no momento em que cada uma delas se cruza com um porco numa manhã normal. “Vai ali um porco a correr!”. E é assim que sabemos de David de Vriend, belga, sobrevivente do Holocausto, quando, antes de se mudar para uma residência sénior, vai pela última vez à janela do apartamento onde viveu 60 anos.

“E agora também Kai-Uwe Frigge o via”, ao porco. Seguia num táxi. “Com as costas da mão limpou o vidro, o porco passou a correr, de lado, o lombo do animal, de um rosado sujo e molhado da chuva, brilhava e reflectia a luz dos candeeiros.” Kai, aqui nomeado Frigge, alemão, pouco mais de 40 anos, tem um cargo invejável, chefe de gabinete na Direcção Geral do Comércio. Vai encontrar-se com Fenia Xenopoulou.

“Como?! Fenia ergueu o olhar, viu o modo como o empregado espreitava para o exterior, na direcção da praça, fascinado, e foi então que ela mesma o viu: o porco vinha a correr rumo ao restaurante...” Cipriota grega, Fenia — ou Xeno — vira muito recentemente a sua competência ser premiada com uma promoção. Desprezou-a, contudo. A sua ambição ia muito além de chefiar a Direcção-Geral da Cultura. “Cultura!”; “A Cultura era uma pasta sem qualquer importância, sem orçamento, sem peso na Comissão, sem influência, nem poder”, era chamada de pasta-alibi, e Fenia estava disposta a tudo para sair dali, mas em grande, e iria fazer lóbi com a ajuda de Frigge.

Enquanto isso, Ryszard Oswiecky saía do hotel sem se querer fazer notar. “Não conseguia acreditar no que estava a ver. Estava ali um porco entre dois postes de ferro forjado.” Polaco, fora criado num convento católico e cumpria uma missão secreta em Bruxelas. Viu o porco e desatou a correr. Fugia. Mais ou menos no momento em que Martin Susman avistou o animal.

“Estivera a reflectir sobre a sua vida, sobre os acasos que haviam conduzido a que ele, filho de agricultores austríacos, estivesse agora a viver e trabalhar em Bruxelas, a sua disposição fazia com que tudo se lhe afigurasse disparatado e estranho, mas um porco a correr livremente pela praça, lá em baixo, isso já era disparate a mais.” Susman era agora chefiado por Fenia e peça central num projecto que podia ser a salvação da carreira da eurocrata ambiciosa: o de salvar a imagem da EU.

E foi quando Gouda Moustafa chocou no porco, caiu, e acabou amparado pelo velho professor Alois Erhart, alojado no Hotel Atlas onde acabara de ser cometido um crime: um homem fora morto e todas as sirenes seguiam aquela direcção. Erhart é a espécie cérebro do livro, o homem que vai a Bruxelas para expor o seu pensamento sobre a União e aquele que no final do prólogo — no qual Menasse põe as personagens centrais perante o desconcerto provocado pela existência de um porco que corre pela cidade burocrática — tem um quase desabafo: “O seu pai avisara-o em relação à Europa.”

Robert Menasse não assume, mas Erhart será um alter-ego do autor. Percebe-se isso lendo o livro, juntando a narrativa à conversa e aos escritos já publicados pelo escritor  que em 2017 chorou em público quando lhe viu ser atribuído o mais prestigiado prémio literário alemão. Com A Capital ganhou o German Booker Prize, o equivalente para a língua alemã do Booker inglês — numa shortlist onde estava outro romance, entretanto publicado em Portugal, o inquietante Fora de Si, da estreante Sasha Marianna Salzmann. Na altura, o júri justificou a decisão referindo-se a A Capital como “um texto de múltiplas camadas que entrelaça de forma magistral as questões existenciais nas esferas privada e política, e liberta o leitor para um final aberto”; ressalva ainda a habilidade dramatúrgica com que Menasse vai até às “camadas mais profundas deste mundo que chamamos de nosso”.

O romance chega agora a Portugal, num ano de eleições Europeias e terá edição no Reino Unido no final deste mês de Fevereiro, em plena discussão do Brexit. Um dos pressupostos de Menasse ao escrevê-lo mantém-se: o livro está e irá gerar ainda mais discussão.

“Foi claro para mim desde o início que só podia escrever este romance se aceitasse que não era suficiente ter uma figura principal. Precisava de muitas figuras por causa das muitas mentalidades, línguas, culturas que se encontram em Bruxelas. A segunda evidência depois de algum tempo a viver em Bruxelas é que ali não vivem apenas funcionários públicos das instituições europeias, mas também outras pessoas. Depois de mais ou menos um ano, sabia que este romance teria de se desenvolver na cidade e não ficar apenas nas instituições europeias. E depois Bruxelas não é só a sede de instituições europeias, é também a sede da NATO. Senti-me também impelido a contar isso. No fim, desejei que o romance começasse a tornar-se cada vez mais um mosaico. A tarefa final foi a de reunir todos os quadradinhos que tinha coleccionado num quadro, numa pintura que mostra a situação.” 

A narrativa, na terceira pessoa, justapõe as personagens que habitam a cidade, pondo em conflito interesses pessoais, cruzando a intimidade e a história de cada existência com a história de um projecto supranacional em todas as suas contradições. E é aí que o porco aparece como a “grande metáfora universal”, descrito desta forma pelo respeitável articulista de um tablóide: “... era o único animal que enquanto metáfora cobria todas a extensão de emoções humanas e concepções ideológicas, desde o uso do porquinho como amuleto até às expressões que contém a palavra ‘porco’, ora com sentidos positivos, ora negativos; aventurou-se mesmo no campo da política e discorreu sobre expressões como ‘porca judia’ e ‘porco nazi’, rumando de seguida às proibições relativas aos porcos nas religiões e ao entusiasmo em redor do Porquinho Babe, da Miss Piggy e do Porquinho Esperto dos Três Porquinhos.”

O conto sobre o comum

O porco anda no centro de uma intriga que serve ao escritor para discorrer sobre interesses nacionais versus interesses europeus; o porco também enquanto produto transaccionável pelo qual competem vários estados membros serve para por a nu a fragilidade do interesse comum. Menasse usa o conhecimento que acumulou ao passar por gabinetes de muitos funcionários, experiência que classifica de ambivalente. “Por um lado comecei realmente a admirar a qualificação de muitos funcionários públicos, o esforço na tentativa de unir este continente. Por outro, percebi que da maneira como as instituições estão organizadas, a UE não pode funcionar no seu objectivo de união”, refere, dizendo ainda que um dos seus objectivos foi “criticar o statu quo”. Em quê? “Uma união onde um país tem mais poder do que outro país não é uma união real, verdadeira; uma organização na qual duas instituições — o Conselho Europeu e a Comissão Europeia — se atrapalham e quase trabalham uma contra a outra impede a resolução de problemas, não funciona. O Conselho trabalha o tempo inteiro contra a Comissão. A Comissão tem a tarefa de produzir uma política geral para todos e o Conselho defende interesses nacionais. Isso não faz sentido. Eu queria mostrar essa contradição: como é que um projecto pode nascer numa instituição e estar logo destruído pela outra instituição. Essa era a ideia básica.”

No livro, o raciocínio é sintetizado desta forma, nada mais do que pelo professor Erhart: “Estados nacionais concorrentes não formam uma união, mesmo que formem um mercado comum. Estados nacionais concorrentes numa união bloqueiam ambas as coisas: a política europeia e a política de cada Estado por si. O que seria agora necessário? A evolução futura no sentido de uma união social, de uma união fiscal, ou seja, a criação de condições que permitam que de uma Europa de entidades colectivas concorrentes se faça uma Europa de cidadãos soberanos e dotados de direitos iguais. Era essa a ideia, foi com isso que os fundadores do projecto de unificação europeia sonharam, em resultado das experiências que tinham tido.”

A exposição remete para a forma ensaística familiar a Menasse, e surge aqui integrada numa intriga internacional movida pela ambição de uma mulher que conhece bem — e se aproveita do conhecimento dos outros, entretanto seus inferiores hierárquicos — a crise na imagem da EU. Fenia Xenopoulous aceita a proposta como boa depois de desconfiar dela. A comemoração do Jubileu da UE passará pelo seu gabinete com ela ciente de que é um projecto arriscado. Aqui entramos numa das propostas centrais do romance: a importância da memória do erro para que o erro não se repita. Tem sido um argumento  utilizado pela retórica política e é aqui elevado à categoria de ficção. Uma ficção também política. 

“Nos meus ensaios tento reconstruir ou retomar a ideia europeia, a ideia dos fundadores desse projecto, e tento defender essa ideia. Acho muito importante não esquecer qual era o objectivo desse projecto que nasce da lição mais importante da história europeia, a história do autoritarismo, do fascismo, do estalinismo, duas guerras mundiais. Mas no romance não quero escrever uma tese, a explicação de uma ideia. Quero contar de uma maneira realista o que está a acontecer com essa ideia europeia; o que há de mal-entendido nessa ideia, como essa ideia está a ser destruída pelos diferentes interesses que existem nesta união. No ensaio, quero forçar uma discussão: como é que politicamente podemos construir o comum. O romance é um conto sobre o que é que se está a fazer.”

A provocação

Nesse conto há um Jubileu em que Auschwitz aparece como possibilidade de ser o centro das celebrações. Mais. Pode até ser proposta como a nova capital da União Europeia. Auschwitz enquanto  símbolo da diversidade da Europa pela diversidade das suas vítimas; e símbolo do erro. Se em Auschwitz a diversidade aconteceu enquanto erro, a união da Europa surgiu para que o erro não se repetisse; formou-se enquanto projecto de paz. Este é o núcleo do livro e a sua  provocação. A proposta gerada no gabinete de Fenia é consubstanciada pela outra proposta do velho professor à Comissão Europeia: defender que Auschwitz deva ser a capital em vez de uma Bruxelas que parece limitada à entropia burocrática sem capacidade para responder àquilo de que a Europa precisa. Robert Menasse explica a ideia nesta conversa: “É uma provocação, e ao mesmo tempo é uma piada; é o tipo de ideia completamente lógica e em simultâneo totalmente impossível de ser realizada. Imagine que a Europa decide construir uma capital que não é historicamente a capital de uma nação, que seria a capital de uma Europa pós-nacional, uma capital do futuro. E vai construir isso no lugar onde é impossível esquecer a história. Repito: é a coisa mais lógica e mais necessária. Ao mesmo tempo impossível. Mas no romance é possível. No romance  posso fazer isso. Esse projecto é inventado, é ficção, mas tipifica milhares de outros projectos que são realidade” 

Menasse pode dizer, como o professor Erhart perante a perplexidade da sua audiência, que “a capital europeia tem naturalmente de ser construída num local cuja história tenha sido determinante para a ideia de unificação da Europa, uma história que a nossa Europa quer superar, mas que ao mesmo tempo jamais deverá ser esquecida. Terá de ser um local em que a história permaneça palpável e vivenciável, mesmo depois de já ter morrido a última pessoa que a viveu ou que a ela sobreviveu. Um lugar que seja um perpétuo fanal para a política futura da Europa.”

A ouvir Erhart estão os tais funcionários que surgem aqui divididos em três categorias: os vaidosos, os idealistas, os lobistas. São eles quem escutam que a Europa é a moral de uma história, ainda que a moral nunca tenha constituído um “programa político”. Nada de muito diferente do argumento, talvez ingénuo, de Martin para convencer Xeno da bondade de celebrar o Jubileu em Auschwitz. “A segurança de vida com dignidade, felicidade, direitos humanos, foi desde Auschwitz que isso se tornou uma exigência para todo o sempre, não é assim? Qualquer pessoa entende isso. É isso que temos de deixar claro: que somos a instituição que dá resposta a essa exigência. Os guardiães desse contrato eternamente válido. Nunca mais... É isso a Europa. Nós somos a moral da história.”

Por Auschwitz estamos aqui enquanto Europa, dizem Erhart, Martin e diz Menasse: “Auschwitz para mim era muito importante neste romance. O choque que tomou conta do mundo depois se saber o que tinha acontecido ali foi o momento no qual a Europa se constituiu com os estados fundadores. De repente era evidente que o que parecia impossível imediatamente antes de Auschwitz e também logo depois de Auschwitz acontecera. O choque abriu uma janela de oportunidade. Aquilo não podia repetir-se nunca mais. Os sobreviventes do genocídio sonharam com uma vida baseada na dignidade humana. Isso não tinha nada a ver com nacionalidade, com raça, com língua, com mentalidade, com cor de pele. Somente dignidade humana. Por isso há um vínculo directo entre Auschwitz e a possibilidade de fundar um europeu unido, uma Europa Unida.”

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Faz uma breve pausa, parece andar a procurar as palavras, e continua: “Na Alemanha surgiu a noção de que Auschwitz não é um problema europeu nem um problema da União Europeia; era um crime alemão que a Alemanha tinha ultrapassou. No meu entender, Auschwitz tem a ver com todos os países europeus, mesmo aqueles que não participaram no crime. Sobretudo em países que têm, de facto, a experiência do fascismo. De diferentes formas de fascismo, mais radical ou menos radical. Temos de concentrar os inimigos do Estado, de quebrar a resistência. Mas a consequência mais radical do fascismo, do nacionalismo, é Auschwitz. E isso é um problema de cada país. Repito: Auschwitz é a consequência mais radical do racismo e do nacionalismo e em toda a nação ou país em que o nacionalismo surge os direitos humanos morrem. Por isso a memória de Auschwitz é tão importante. Falei com vários funcionários públicos na Comissão e todos dizem que sem Auschwitz é muito mais complicado explicar o sentido de unificar completamente este continente.”

Passado e futuro, uma tradução

Fala-se do futuro. É para aí que o livro se vira tentando encontrar a tradução mais correcta para o tempo. Histórico, mas também enquanto construção abstracta. The past forms the future, without regards to life: é uma frase que soa bem a Fenia Xenopoulous. E o passado tem tradução diferente em grego, em inglês, e nas outras línguas que compõem a união. Como passar o sentido exacto dessa palavra e de outras para que a Europa multilingue se entenda de facto? A questão da tradução é premente para que a discussão surta efeitos, sublinha Menasse em A Capital. “Erhart tinha noção de que o problema das línguas estrangeiras, quando não as dominamos, se não como língua materna, pelo menos como língua madrasta, era a que apenas se diz aquilo que se consegue dizer. A diferença é a terra de ninguém entre as fronteiras do mundo.” Essa terra de ninguém será Bruxelas? Alguém dirá, entretanto, que na Europa já não há um lugar que seja terra de ninguém e que esse é o problema, ou um problema. Todo o lugar carrega uma história e é com ela que a Europa terá de viver no futuro. The past forms the future... Ou, como refere Menasse sobre a encruzilhada actual, “o futuro é uma coisa acerca da qual podemos ter duas perspectivas: podemos sofrer ao pensar nele ou projectá-lo mais suave. Tenho a impressão, actualmente, que a maioria dos cidadãos europeus prefere sofrer o futuro. Por causa do medo excessivo do que pode acontecer, defendem-se contra qualquer solução que não entendem, a que não estão acostumados, e agarram-se a costumes e ideias antigas. Dessa maneira vão sofrer, vão produzir miséria.”

No livro o medo é tipificado de muitas maneiras, há muitos medos, muitas gradações de medo e há o medonho, também notado por Erhart. “O século XX deveria ter sido a transformação da economia nacional do século XIX na economia da humanidade do século XXI. Impediu-se de uma forma tão medonha e criminosa que tal acontecesse, que a seguir a nostalgia apenas ressurgiu de novo e de modo ainda mais premente. Contudo, apenas na consciência de uma pequena elite política, cujos sucessores não tardaram a ser incapazes de compreender duas coisas: a energia criminosa do nacionalismo e as consequências que havia já sido tiradas dessa experiência.”

É o regresso do escritor a outra ideia central do livro: a superação dos interesses nacionais a favor de um interesse colectivo, continental. “Os grandes problemas que enfrentamos só podem ser solucionados através de uma política unida. Os grandes problemas são transnacionais. Economicamente, ecologicamente. Grandes países como a Alemanha, que têm mais influência, mais poder dentro da União, impõem uma política que faz sofrer países mais pequenos. Isso corresponde a um grande défice democrático que não é aceitável. É preciso entender como as coisas funcionam e porque é que não estão a funcionar. Isso é necessário para mudar a política.” 

Musil e Graham Greene

Robert Menasse deteve-se neste presente, seguiu-lhe o passo em Bruxelas no mesmo sentido de que falava outro austríaco, Robert Musil, no início de O Homem Sem Qualidades. “As cidades, como os homens, reconhecem-se pelo passo.” É um livro sobre o tal passado que Menasse usa como um arco temático e literário para a actualidade. E vai satirizando as reacções ao livro de Musil, o modo como muitos se apropriam dele para brilhar. “Na Áustria é tradição os políticos declararem-se adeptos de O Homem Sem Qualidades. Menos do que isso nem pensar.” Xeno aposta que é o romance preferido do presidente da Comissão. Quer impressioná-lo numa eventual conversa, não ser apanhada desprevenida, poder brilhar se tiver oportunidade, e para isso, está convencida, terá de Musil. Engana-se. O romance preferido do presidente da Comissão é outro — e nem o presidente nem o livro são aqui explicitamente mencionado. Mas o propósito de Xeno mantém-se: ler um romance “a bem da sua carreira”.

O Homem sem Qualidades é para Menasse referência fundamental em A Capital. “Musil descreveu o fim de um grande império; um império com funcionários públicos muito dotados; era uma burocracia que funcionava muito bem. Mas a coisa quebrou por causa do nacionalismo. Há uma certa semelhança com a situação actual e por isso também aqui falo do império austro-húngaro. Era um estado sem ideia nacional, com um mercado geral, com uma moeda única, uma burocracia única, tudo unificado, mas destruído pelos nacionalistas. Só que o que está agora a acontecer não é só isso. É uma coisa completamente nova, sui generis, com uma história diferente. No fim, simplesmente, reservo-me ao tipo de literatura que realmente tem esse desejo: mostrar como  estamos a viver e a sofrer na nossa contemporaneidade. Essa literatura, para mim, é uma grande tradição.”

A Capital também é fragmentado, mas não com a complexidade do livro de Musil. Segue uma linha narrativa fluida, intercalada pela existência das diferentes personagens que o habitam. Seria mais próximo de Graham Greene. Persegue um crime que misteriosamente é apagado, movimenta-se por desvios obscuros, traz latente o preconceito religioso, faz um jogo intrincado entre real e ficção. É claro na escrita, irónico no tom, nostálgico ou meio depressivo quando aprofunda a vida.

“A ironia é muito importante. O mais importante na literatura é a ironia ou sentido para o trágico-cómico. Sem isso teríamos de nos suicidar”, justifica o escritor numa entrevista que seguiu logo para outra das marcas da cidade e, necessariamente, da vida de quem a habita, tantas vezes escrita e descrita ao longo do romance. Cinismo.

“Detesto o cinismo. Acho que a ironia é um elemento básico, mas cinismo é muito brutal. O facto é que actualmente a turma dos cínicos está a crescer e a turma de irónicos, dos sensíveis, a diminuir.” Outra pequena pausa, e... “Os fanáticos, nas suas próprias áreas, estão sempre a fazer uma política contra fanáticos. Os fanáticos são sempre os outros.”

O que motiva, então, a propagação dos cínicos em relação aos irónicos? Menasse ri e acrescenta uma história de depressão, outro dos ingredientes aqui tão indispensáveis. “É preciso ser cínico se se quiser fazer carreira nas condições actuais. Os irónicos usam a ironia para sobreviver nessas mesmas condições. Vi isso quando estudei os funcionários públicos nas instituições europeias. Encontrei quase santos, realmente muito comprometidos e dedicados ao trabalho da ideia europeia. E encontrei pessoas que desistiram disso, que me contaram que as contradições são demasiadas, não se quiseram continuar a magoar, fazem coisas muito escorregadias; outros não têm ideia nenhuma, outros só têm a ideia de carreira. É típico e completamente normal, porque é uma instituição feita por seres humanos e os seres humanos têm todos esses aspectos. Senti-me muito mais próximo dos que sobreviveram com ironia e uma certa dose de depressão.”

Como se os não cínicos não tivessem alternativa a não ser deprimirem-se? “Exactamente. Essa foi uma experiência muito forte. Eu não esperava isso, mas depois de um certo tempo percebi que não posso contar muitas dessas histórias sem que isso reflicta uma inclinação para a depressão. Uma manhã um funcionário perguntou-se se eu tinha lido a primeira página do jornal desse dia. Eu disse que não. Ele contou então que trazia escrito em letras grandes: DEPRESSÃO, e disse que se sentia chocado. ‘O que sabem eles de mim? Porque sou eu a notícia mais importante?’, indagava. Depois li o artigo e era sobre a depressão da bolsa. Esse exemplo mostra a mistura de depressão e ironia de muitos funcionários.” 

A política e a polémica

Fala-se, lê-se A Capital e o território é inevitavelmente político. É política a escolha de pôr o centro da intriga no departamento de Cultura, por exemplo. “Achei muito engraçado verificar que a Cultura não tem muita importância neste sistema. Entendo porquê. Qualquer direcção-geral tem as possibilidades que os países lhes transferem. A cultura é, realmente, uma coisa muito complicada. Por exemplo, na Alemanha não é uma área política da nação, mas das províncias. É muito difícil transferir direitos para a Comissão. Por outro lado, a Direcção-Geral da Comissão de Cultura está a lutar bastante para defender a riqueza da cultura europeia. É um facto; o orçamento é curto, mas luta. Quis que essa fosse a base da narrativa do meu romance, porque a Cultura é geral, atravessa tudo. Ali trabalha-se sobre as coisas gerais.”

Talvez falte a pergunta óbvia: estamos ou não diante de um romance  político, um romance-tese, como antes Menasse disse que não queria escrever? “Pense, por exemplo, em Saramago. A literatura que quer reflectir a sua contemporaneidade é automaticamente política. Política significa o interesse por entender a maneira como vivemos e ao mesmo tempo entender quando é necessário mudar certas coisas na maneira como vivemos. Quando o romance está a mostrar isso apenas pela narrativa já estamos envolvidos numa discussão política. Tive sempre a ideia de escrever romances com este objectivo: quero contar o que está a acontecer de uma maneira que os meus contemporâneos entendam e gerações posteriores nos possam entender.” Disto isto, está a repensar a sua ida a Londres para a promoção da edição inglesa de A Capital. Já há entrevistas marcadas, mas... “não quero dar entrevistas sobre o Brexit. Quero falar ou não falar sobre literatura.”

E o livro tem andado a ser discutido em circuitos políticos. Contestado por deputados da CDU alemã, por exemplo, que alegaram que não merecia a distinção. Acusado de plágio de ideias. Ele refuta. Ao Ípsilon diz apenas que não quis causar polémica e que o prémio além de satisfação lhe mudou pouco a vida. Pouco?

“Não esperava, não podia esperar. Quando se espera, perde-se. Mas mudou muito e, ao mesmo tempo, não mudou nada, porque no fim uma pessoa como eu continua sentada muito sozinha numa sala. Não mudei a minha vida. Continuo sozinho no meu escritório. Mas percebo que mudou o modo como outros me olham. Por exemplo, para os inimigos da Europa agora a minha voz é muito mais perigosa do que era. É verdade que com o prémio o meu nome e a minha voz tornaram-se mais influentes e neste momento, quando se assume uma posição política, tem-se imediatamente inimigos políticos. Eu não esperava isso. Às vezes sou muito ingénuo [gargalhadas], mas não estamos a viver uma ditadura e ninguém me pode matar. Estou atento a certas iniciativas em que me querem matar simbolicamente.”