Entrevista

O fado da extrema-direita na política austríaca

É quase certo que o FPÖ vai entrar na próxima coligação de governo."Vote eu o que votar. Isto é uma catástrofe", diz o escritor Robert Menasse.

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Sebastian Kurz lidera o partido de centro-direita OVP JULIEN WARNAND/EPA

As expectativas do escritor austríaco Robert Menasse em relação às eleições legislativas são muito negras.

Na Áustria há eleições em Outubro, e um real crescimento da extrema-direita, que já quase ganhou as últimas eleições presidenciais. Há quem veja o jovem ministro dos Negócios Estrangeiros, Sebastian Kurz, que agora lidera o Partido Popular Austríaco (ÖVP, centro-direita), como um salvador?

Não é salvador nenhum. Na Áustria passa-se algo de completamente irracional. Com a subida dos populistas de direita, o FPÖ [Partido da Liberdade, extrema-direita], os outros partidos começaram a ficar nervosos. Existe o potencial de que o FPÖ tenha mais ou menos 30% dos votos. E agora, todos os partidos querem estes 30%.

A certeza é que o FPÖ entra no Governo. Vote eu o que votar. Isto é uma catástrofe.

O jovem ministro dos Negócios Estrangeiros é, por seu lado, alguém que começou esta dinâmica de apropriação. Usou os mesmos argumentos e como ministro fez coisas que a direita, na oposição, não poderia. Por exemplo, na política dos refugiados, quando fechou as fronteiras, contra o Direito europeu. E disse que as pessoas morrem no Mediterrâneo mas não podemos fazer nada, que pode ser que percebam que é melhor não vir. Ele disse literalmente: “Vamos ver imagens horríveis mas tem de ser.” E de repente essa política da direita populista mostrou-se numa cara jovem, moderna. Isso é horrível.

Uma vez disse que tem de superar uma certa náusea quando vota. Vai ser assim de novo em Outubro?

O único partido decididamente contra a coligação com o FPÖ são os Verdes [do Presidente, Alexander Van der Bellen] mas a questão é se podem crescer tanto… Ninguém sabe. Lembro-me das últimas eleições para a presidência, a tensão, a agitação, o debate – o que aconteceu? Hoje, é apatia. Se estou no café com amigos e há um jornal com uma manchete e letras enormes com o que o jovem ministro disse… ninguém quer saber. Ninguém pode fazer nada, porque o FPÖ vai entrar no Governo. É como se fosse um fado, um destino.