Editorial

Os bárbaros existem entre nós

Não é fácil derrotar os bárbaros que existem entre nós. Mais difícil, porém, é deixar de os denunciar.

As notícias com balanços das vítimas de violência doméstica repetem-se mês após mês, ano após ano numa rotina que tende a conferir uma aura de normalidade à barbárie que se esconde entre nós. Não bastou o fim do horrível “entre o marido e a mulher ninguém meta a colher” para a debelar. Como não bastou a inclusão destes crimes em contexto doméstico no rol dos “crimes públicos”, a criação de mecanismos de protecção às vítimas, as campanhas de sensibilização ou uma melhor preparação das forças policiais ou dos procuradores para lidarem com o problema.

Chegados ao primeiro mês do ano com um terço de todas as vítimas mortais registadas no ano passado, é imperativo regressar ao problema. Este tipo de crime violento e cobarde exige que o país lhe conceda toda a atenção e nenhuma tolerância.

Estando os números de vítimas de 2018 acima dos de 2017 e estando as mortes em Janeiro tão acima dessas médias, a pergunta sobre o que está a falhar é imperativa. Não faltam diagnósticos nem recomendações. Que apontam para actos inaceitáveis de laxismo por parte das autoridades em casos sinalizados de mulheres sujeitas a práticas continuadas de violência pelos maridos ou familiares. Que sinalizam exemplos de ligeireza com que a polícia regista e acode a mulheres em situações críticas. Ou que, ainda mais grave, dão conta da existência no sistema judicial de magistrados onde o ranço da superioridade de género persiste em sentenças que invocam o adultério como atenuante de crimes ou subvalorizam a gravidade de uma violação pelo facto de a vítima estar inconsciente.

As mulheres que todos os anos morrem às mãos dos seus maridos, amantes ou familiares expressam afinal uma realidade na qual uma parte significativa da sociedade exibe com crueldade o seu atavismo, a sua boçalidade e o seu apego a um sistema de valores no qual as mulheres são apenas peças acessórias do poder masculino.

O crime é, todos os especialistas o apontam, estimulado por um sistema cultural que resiste aos avanços da educação ou à luta pela igualdade de género. Mais do que um falhanço das forças da segurança e da Justiça, que também é, a proliferação de casos que acabam com a morte de mulheres é o testemunho da sobrevivência de uma ideia de comunidade que teima em alimentar-se da exclusão do outro – seja o negro, o homossexual ou a mulher. Não é fácil derrotar os bárbaros que existem entre nós. Mais difícil, porém, é deixar de os denunciar.