Crónica

Os abismos dos outros, à falta dos nossos

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Dorothée Munyaneza

É demasiado vasto, o mundo da banda desenhada em francês – uma espécie de caminho para a perdição e para o endividamento (ou seja, o equivalente ao inferno, na versão tardo-capitalista do Juízo Final). Mesmo que nos acantonemos numa prateleira mais comedida, nada a fazer, mise en abyme na certa. Tudo começa com uma exposição sobre como a banda desenhada se apropriou do Holocausto, e depois… depois não acaba. Porque a banda desenhada apropriou-se de tudo, guerras mundiais, genocídios, revoluções, golpes de estado, ocupações, libertações; e porque depois, agigantando o abismo, fazendo desta uma queda sem ascensão, ainda há a banda desenhada em inglês e a banda desenhada em espanhol e haverá um dia, fazemos figas, a banda desenhada em português (que até agora pouco se tem ocupado do nosso passado problemático passado colonial: procuram-se, mas não se encontram, mais novelas gráficas para fazer companhia à portuguesa Os Vampiros, de Filipe Melo e Juan Cavia, e à brasileira Cumbe, de Marcelo D’Salete).

Entre essas tantas coisas de que a banda desenhada se apropriou estão histórias mais ou menos esquecidas como a da Revolução das Astúrias, a revolta mineira que em 1934 produziu uma efémera república socialista (e o correspondente exército vermelho) na Espanha pré-Guerra Civil (La Balada del Norte, épico em três volumes de Alfonso Zapico), e abalos históricos da magnitude do banho de sangue que em 1994 fez do Ruanda um apocalipse em tempo real, só que em África (e, como nesse Verão diria François Mitterrand, “um genocídio em África não é muito importante”). É um apocalipse que já tem direito à sua própria prateleira de banda desenhada franco-belga (ainda bate na Europa, esse coração das trevas), uma prateleira onde se vão arrumando, entre várias outras, novelas gráficas como Deogratias, do belga Jean-Philippe Stassen (o mesmo de Louis, le Portugais), ou La Fantaisie des Dieux, dos franceses Patrick de Saint-Exupéry e Hippolyte.

PÚBLICO -
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Perante os nossos próprios abismos coloniais e pós-coloniais, o Ruanda não é exactamente o tipo de história que esteja em vias de se tornar leitura de cabeceira por aqui. A não ser que venha ter connosco, como será o caso esta noite, quando Dorothée Munyaneza subir ao palco do Teatro Municipal Campo Alegre, no Porto, para contar como decidiu ir ao encontro de 70 dos cerca de dois a cinco mil bebés que a Human Rights Watch estima terem nascido das violações sistemáticas ocorridas nos três meses do genocídio ruandês – ou melhor, das pessoas em que eles se tornaram –, e das suas mães. Unwanted, o segundo espectáculo em que a artista remexe na ferida da matança a que escapou quando tinha 12 anos (o primeiro foi Samedi Détente, que trouxe ao Porto em 2017), amplifica a violência inominável que foi para essas mulheres terem de amamentar os filhos dos homens que minutos antes de as violarem lhes assassinaram toda a família. Mas depois embala-a, como elas os embalaram, em kinyarwanda – uma língua mais gráfica do que a mais gráfica das bandas desenhadas, uma língua que mesmo não sendo de cabeceira nunca nos sairá da cabeça.