Editorial

Venezuela: até quando resistirá Maduro?

A Venezuela merece ser um país livre e democrático, e os venezuelanos merecem uma vida melhor, mas o apoio às forças democráticas tem de ir muito mais além dos canhões de Trump.

A Venezuela não é uma democracia. Apesar de as “democracias iliberais” estarem na moda, inclusivamente na União Europeia — o caso da Hungria, cujo partido faz parte da alegre família do Partido Popular Europeu, onde estão os nossos PSD e CDS —, a Venezuela vai além. As últimas eleições, realizadas em Maio, não foram reconhecidas pela União Europeia, e bem. A crise e a devastação económica juntaram-se à crise política: o regime de Maduro é insustentável sob todas as formas.

Juan Guaidó, o líder da Assembleia que se autoproclamou ontem presidente interino da Venezuela e que foi imediatamente reconhecido pelos Estados Unidos, Canadá e quase toda a América Latina, com a excepção do México e da Bolívia, parece vindo do nada, mas conhecendo a realidade da política venezuelana, isso não é estranho. A maior parte dos opositores históricos de Maduro está presa e quando Gaidó, há 15 dias, pela primeira vez assumiu o objectivo que ontem concretizou, a ministra responsável pela Administração Interna disse que lhe “estava já a preparar uma cela”.

Seria uma boa notícia para quem defende a democracia que fosse possível a Venezuela ter direito a eleições livres e justas num curto espaço de tempo. Mas a história da América Latina dos anos 1970 e 80 é demasiado negra para que a chegada ao poder de um homem com a bênção — e as armas, conforme foi ontem prometido — de um Presidente americano não faça acordar fantasmas nem há assim tanto tempo enterrados. Como esse Presidente americano se chama Donald Trump, é normal que a situação seja vista com o seu quê de aflitivo. Trump vai declarar guerra à Venezuela para defender a proclamação de Guaidó? A verdade é que o Presidente americano ameaçou tudo fazer.

Maduro está a caminho do fim e isolado da comunidade internacional, com o povo a morrer de fome, mas promete luta. Resta saber o que faz o Exército, até aqui aliado incondicional de Maduro. A Venezuela merece ser um país livre e democrático, e os venezuelanos merecem uma vida melhor, mas o apoio às forças democráticas tem de ir muito mais além dos canhões de Trump.

P.S. No editorial de terça-feira, cujo título era “A tragédia dos CTT”, cometi um erro: omiti que a privatização estava no programa da troika aprovado pelo Governo de Sócrates. Aos leitores as minhas desculpas.