Detidos cinco suspeitos de envolvimento na morte de Marielle Franco

Operação Os Intocáveis levou à detenção de alguns membros de uma milícia do Rio de Janeiro. Ministério Público emitiu 13 mandados de prisão preventiva.

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Protesto contra a morte de Marielle Franco em Paris EPA/ETIENNE LAURENT

Foram detidos na manhã desta terça-feira cinco suspeitos do assassínio da vereadora brasileira Marielle Franco e do seu motorista, Anderson Gomes, numa acção conjunta da Polícia Civil do Rio de Janeiro e do Ministério Público brasileiro. Outras oito pessoas são procuradas.

As detenções foram efectuadas no âmbito da operação Os Intocáveis, levada a cabo em Rio das Pedras (Rio de Janeiro) pelo grupo de actuação especial no combate ao crime organizado (GAECO) do Ministério Público do Rio de Janeiro em parceira com a delegacia de repressão às acções criminosas organizadas (DRACO) e da Coordenadoria de Recursos Especiais (CORE) da Polícia Civil. A operação mobilizou cerca de 140 elementos da polícia.

Os detidos farão parte de uma milícia com ligações ao ramo imobiliário ilegal em Rio das Pedras e Muzema (na zona oeste do Rio de Janeiro) e especializada em assassínios por encomenda, à qual dão o nome de Escritório do Crime, avança o jornal O Globo. Segundo o mesmo jornal, terão sido emitidos 13 mandados de prisão preventiva contra os membros da organização criminosa e outras oito pessoas continuam a ser procuradas.

Dois dos detidos são o major da Polícia Militar Ronald Paulo Alves Pereira e o subtenente da Polícia Militar (já reformado) Maurício Silva da Costa. Segundo O Globo, outros dos principais alvos são Adriano Magalhães da Nóbrega, o ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais (BOPE), e Jorge Alberto Moreth, um dos chefes da milícia.

De acordo com a publicação G1 do grupo Globo, as autoridades acreditam que a prisão de Ronald Paulo Alves Pereira poderá ser uma peça-chave na investigação da morte de Marielle Franco, apesar de não detalharem qual será o seu grau de envolvimento.

“Todos estes presos serão ouvidos, na expectativa de que possam colaborar noutras investigações. Não descartamos a participação no crime de Marielle Franco, mas não podemos afirmar isso neste momento”, disse a promotora Simone Sibilio, citada pela publicação G1.

Apropriação de terras na origem do crime?

A operação Os Intocáveis resulta de uma investigação de seis meses do Grupo de Actuação Especial de Repressão ao Crime Organizado e do Ministério Público brasileiro, que incluiu a intercepção de conversas telefónicas entre os chefes da organização.

Além de a polícia suspeitar que a milícia esteja envolvida no assassínio da vereadora da Câmara do Rio de Janeiro Marielle Franco, o Ministério Público acredita que esta organização criminal é responsável por vários crimes como extorsão, falsificação de documentos e outras actividades ilícitas ligadas ao ramo imobiliário e apropriação ilegal de terras.

Na passada sexta-feira, a versão brasileira do site de investigação The Intercept avançou que pelo menos seis testemunhas ouvidas no processo ao assassínio de Marielle Franco e de Anderson Gomes, assim como o cruzamento com casos antigos, apontam para o nome de um antigo capitão do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) como principal suspeito. 

Já em Dezembro, o chefe da Segurança Pública do estado brasileiro do Rio de Janeiro, general Richard Nunes, disse que Marielle Franco foi assassinada por milícias envolvidas na apropriação ilegal de terras que acreditavam que a vereadora podia ser um obstáculo aos seus negócios e que o crime estava a ser planeado desde 2017.

“Ela estava lidando em determinada área do Rio controlada por milicianos, onde interesses económicos de toda a ordem são colocados em jogo. A milícia actua muito em cima da posse de terra e assim faz a exploração de todos os recursos. E há no Rio, na área oeste, na baixada de Jacarepaguá problemas graves de loteamento, de ocupação de terras”, disse o general Richard Nunes ao jornal O Estado de São Paulo.

Uma testemunha que colabora com a Justiça brasileira acusou também, em Maio de 2018, o vereador do Rio de Janeiro Marcello Siciliano de planear o assassínio da colega parlamentar juntamente com um miliciano chamado Orlando Oliveira de Araújo, acusações que o vereador negou.

Marielle Franco foi morta na noite de 14 de Março de 2018 com quatro tiros na cabeça. No ataque, o motorista Anderson Gomes também morreu e uma assessora da vereadora ficou ferida sem gravidade.