Opinião

Álvaro de Campos e uns versos: manuais escolares entre a censura e a incúria?

Não é só a amputação de textos literários que devemos lamentar – é a superficialidade das propostas de trabalho e um sistema educativo que não preza a memória e a historicidade dos textos literários.

A recente polémica sobre os versos 81 e 82 da Ode Triunfal não tem razão de ser. Trata-se de um caso típico de erros e usurpações que se inscrevem na péssima tradição dos manuais escolares que, independentemente da chancela editorial, truncam ou alteram textos, catalogam ou deslocam para períodos literários errados certos autores e obras. Num manual do ano 2002, Ramos Rosa, por exemplo, aparecia numa tábua de autores do século XX como poeta central da "Poesia Experimental". O caso da Ode Triunfal apenas confirma o menoscabo a que a poesia, em particular, está votada na leccionação do Português. Por isso se espantaram (nos casos mais autênticos) os alunos ao ouvir a ode de Campos, e por isso se indignaram (nos casos mais hipócritas) aqueles que falam em censura. Seja como for, duas respostas próprias de quem, no fundo, desconhecia o texto. E aqui é que está o ponto.

Na verdade, esta polémica cai pela base se recuarmos no tempo e folhearmos alguns manuais dos anos oitenta e noventa. Tenho à minha mão o manual adoptado em 1995, Letras Portuguesas, edições Asa, dirigido aos alunos de Português A, isto é, aos que seguiam as Humanidades. Nesse poema central da evolução estilística de Campos, os versos que dizem respeito à actual polémica ("E cujas filhas aos oito anos – e eu acho isto belo e amo-o! - / Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada", além dum outro onde se referem pândegos e putas) foram substituídos por uma linha a tracejado. Mas à época o professor responsável pela disciplina mostrou-nos a versão integral e, com auxílio de um texto crítico de Jacinto do Prado Coelho, esclareceu as razões pelas quais aquela ode triunfal tinha de ser escrita num estilo incisivo e mordaz, revoltado e torrencial.

Com efeito, este é um poema de invectiva contra toda a sorte de vícios e de sinais de degenerescência da civilização europeia, legitimando, inclusivamente, que o engenheiro igualmente condene (sob a aparência de um triunfalismo da máquina e da indústria) aquela "fauna e flora totalmente desconhecida dos antigos". Ironiza-se o binómio de Newton na comparação com a Vénus de Milo. Sarcástico e em convulsões, o sujeito dirige a sua verve aos motores e aos maquinismos sádicos de guindastes lúbricos. Ode anti-triunfal porque na "flora estupenda, negra, artificial e insaciável" há a promiscuidade de quem quer rasgar-se todo e abrir-se a todos os "perfumes de óleos e calores e carvões". Num estilo estrepitoso e virulento porque o futurista Campos, discípulo de Whitman, mas contemporâneo de Marinetti, escreve febrilmente "rangendo os dentes", Campos derrama a raiva de saber que toda esta civilização da guerra, da banalidade e da máquina corrompe o ideal clássico de outras eras. Um verso final comprova a impossibilidade de redenção: "Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!". Não leu Pessoa Thomas Carlyle e a sua noção de génio? O ser tudo de todas as maneiras não se relaciona com a procura de diferentes linguagens e ideias para cada um dos seus heterónimos? E não é a decadência o conceito operatório de finais de oitocentos e de inícios do século XX?

Espanta, por isso, tamanha discussão. Grave é que no manual adoptado, na versão para os alunos, estes versos não estejam consagrados, porque tal ausência vai contra o espírito das "aprendizagens essenciais", à luz do qual os alunos devem fruir em pleno os textos do património literário português. Grave se os professores, tomados da mesma surpresa dos alunos, não leram a versão reservada a quem ensina e onde a ode vem na íntegra. O que fica como indício é que, não fora os alunos terem ouvido o suporte áudio que acompanha este poema e nem sequer suspeitariam (porque ninguém lhes diria?, porque nas aulas não se analisam metodicamente os textos?) da existência daqueles versos necessariamente veementes e obscenos. Mas perguntemo-nos que poemas de Pessoa e não só de Pessoa estão amputados nos manuais de agora. No limite, que autores e obras são verdadeiramente respeitados (isto é: lidos e comentados a sério) hoje? Bastaria comparar os manuais da Aster (anos 60 e 70) com os da actualidade e ver o emagrecimento dos conteúdos literários e históricos e a infantilização em curso desde há uns bons 20 anos a esta parte... Infantilização que se agudizou desde a reforma de 1996... Sinais dos tempos? 

Num manual diferente, o da Santillana, só três poemas de O Guardador de Rebanhos são contemplados: o I, o II e o IX andamentos. Por que razão não se lê o VIII poema de O Guardador? Talvez porque, quando o menino Jesus de Caeiro, descendo num raio de sol, anuncia a verdade suprema, se afirme que Deus é um velho sempre a escarrar no chão. Talvez porque aí Santa Maria seja uma mala que veio do céu e que o Espírito Santo "era a pomba mais estúpida do mundo"? Desconfio que os novos censores deste tempo acéfalo e sem memória defendam a obliteração deste e doutros versos... Bem vistas as coisas, falamos de desconhecimento dos textos por parte da Escola, não por apenas determinadas escolas. Com a velocidade a que se tem de "dar Pessoa", "dar Torga", "dar O’Neill", "dar Eça" ou dar qualquer outro conteúdo do programa, não espanta que a literatura surpreenda e agite as consciências quando é descoberta. Desconfio também que um poema longo como O Sentimento dum Ocidental igualmente não esteja na íntegra (ou nem sequer seja contemplado) em diversos manuais... E fala-se de "educação literária"...

Este erro apontado à Porto Editora pode ser assacado a outros grupos editoriais. No fundo, não é só a amputação de textos literários que devemos lamentar – é a superficialidade das propostas de trabalho e um sistema educativo que não preza a memória e a historicidade dos textos literários. Esse desprezo pelos textos é transversal a muitos manuais. Uma colecção antiga, a dos Textos Literários, da Editorial Comunicação, dirigida e coordenada por Maria Alzira Seixo, eis um bom exemplo de manuais. Em tempo de censuras subtis e várias, voltar a ler impõe-se: reler, compreender o contexto de produção, cultivar a leitura integral para que as aprendizagens sejam essenciais.