Sindicato vai apurar situação de estafetas de plataformas digitais de entrega

Estafetas que trabalham através da Glovo exigem à empresa saber que seguro existe e qual o seu alcance.

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Os trabalhadores das novas plataformas digitais de entrega, como a Glovo ou a Uber Eats, não estão organizados, mas já se nota alguma movimentação destinada a reclamar algum tipo de direitos. O Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Hoteleira do Norte está a preparar-se para uma acção de rua. 

Na quarta-feira, dia 9, mais de uma dezena de estafetas acorreu ao escritório da Glovo no Porto. Um colega teve um acidente de moto em serviço, partiu a clavícula e a representante da empresa na cidade não estava a ser capaz de o esclarecer sobre o seguro. Outros estafetas foram lá exigir saber se existe e qual o seu alcance​.

Ao PÚBLICO, a Glovo afiançou que disponibiliza um seguro de responsabilidade civil e acidentes pessoais para os estafetas, que actua em paralelo com o que eles devem ter enquanto trabalhadores independentes. A Uber Eats também informou que tem uma parceria internacional com uma seguradora. ​

A segurança é a maior preocupação de Francisco Figueiredo, presidente do sindicato. “Andam com a mochila às costas.” No caso dos da Glovo, até podem levar uma panela de sopa de uma mãe para uma filha. “Ficam numa situação mais vulnerável.” A outra “grande preocupação” de Francisco Figueiredo é a precariedade.

Cada plataforma tem a sua política. Na Glovo, por exemplo, todo o estafeta é trabalhador em nome individual. Já a Uber Eats também estabelece parcerias com empresas de entrega que gerem as suas frotas e empregam os seus estafetas.

Ao que o PÚBLICO apurou, umas empresas parceiras da Uber Eats pagam ao estafeta apenas uma percentagem do que ele fizer, facultando-lhe o transporte e o combustível. Outras uma avença (600 euros por mês para trabalhar das 12h às 15h e das 19h às 23h, com uma folga por semana, por exemplo).

Na tentativa de ganhar mais, há quem alugue mota para trabalhar directamente com as plataformas. “Só de aluguer de moto pago 220 euros por mês. Gasto 150 a 180 em gota, depende do ritmo”, conta um rapaz, que prefere não se identificar. “Você recebe 1,40 euros por recolha, 0,53 por entrega, 0,88 por quilómetro. Só que desconta 25% para a Uber Eats. Do que sobrar, tem de descontar 23% de IVA. No final do ano, ainda tem de pagar IRS.” Como este é o seu primeiro ano de trabalho, está isento de Segurança Social. “Dá para viver.” Veio do Brasil no ano passado já com este trabalho em vista. “Sobra 1000 a 1200. Para fazer isso, tem de ficar das 12h às 24h. Directo. Quando não tem gente, tem de ficar até às duas ou às quatro da manhã fazendo bónus.”

A companhia escusou-se a confirmar os valores, que o rapaz comprova mostrando os recibos de entrega: "A nossa taxa de entrega em Portugal é actualmente de 2,90 euros, mas este não é correspondente ao valor do serviço prestado pelos parceiros por cada entrega. Os parceiros de entrega recebem um valor que resulta do somatório de três componentes: (1) um valor por recolha da refeição no restaurante, (2) um valor proporcional à distância percorrida e (3) um valor pela entrega da refeição ao utilizador. Estes componentes variam entre as diferentes cidades onde estamos presentes."

Não vive paranóico com a pontuação, como o colega de apartamento que trabalha através da Glovo. Todos os dias, mal acorda, este último vai ver se teve alguma avaliação negativa. O estafeta é avaliado pela plataforma, pelo parceiro e pelo cliente. Uma má avaliação de um cliente, por exemplo, implica uma penalização de três pontos e isso basta para ver o horário reduzido. Para recuperar precisa de responder a 50 pedidos sem problemas.

Já lhe aconteceu ir buscar comida a um restaurante que se recusou a emitir a factura, cancelar a entrega e ver a aplicação tirar-lhe três pontos. Em vez de lhe abrir 13 horas de trabalho, como vinha fazendo, para ele escolher as que lhe convinha trabalhar, abriu-lhe sete. 

Questionada pelo PÚBLICO, a Glovo não diz quantas situações destas já ocorreram, nem como lidou com elas. Afirma apenas que a emissão de factura é uma obrigação legal. 

Há meio ano, o sindicato fez uma ronda pelos pontos de paragem dos estafetas. Como era Verão, espantou-se com os baixos valores auferidos. No início do próximo mês, fará outra. “Há malta que tem receio de dar a cara e de falar nas condições de trabalho, mas não nos vamos esconder”, diz Figueiredo. “É nossa intenção verificar o que mudou nestes seis meses.”