As Crianças Loucas matam o pai no D. Maria II

A partir de um filme de Francis Ford Coppola e de um livro de Joseph Conrad, uma jovem companhia portuguesa apresenta-se com a peça E Todas as Crianças São Loucas, de 11 a 13 de Janeiro.

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E Todas as Crianças São Loucas é a primeira criação do colectivo As Crianças Loucas, fundado em 2018 LEONOR FONSECA
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A música é uma das premissas das criações do colectivo As Crianças Loucas LEONOR FONSECA
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Antes sequer de terem nome para a companhia, As Crianças Loucas escolheram o título para a sua primeira criação: E Todas as Crianças São Loucas. Se há algo de familiar nesta designação que antes foi verso, é porque o leitor estará, provavelmente, a escutar dentro da sua cabeça a voz de Jim Morrison a largar no final estonteante de The end as palavras “and all the children are insane”. Mas não foi apenas esse verso desirmanado que o colectivo criado em 2018 pelos actores João Cachola e Vicente Wallenstein – e que não demorou a expandir-se para um núcleo duro de sete elementos – foi buscar a um dos temas mais populares dos The Doors. Ninguém se esquecerá que é nessa canção, das mais intensas da discografia do grupo, que Morrison leva a cabo uma prédica edipiana sobre uma combustão rock’n’roll.

Ora E Todas as Crianças São Loucas – a peça a que o grupo regressa agora no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, de 11 a 13 de Janeiro, no âmbito do ciclo Recém-Nascidos – parte precisamente de uma premissa edipiana: a de matar o pai. No caso, o "filho" é um capitão, investido da missão de matar o coronel. Encontramo-lo a liderar um grupo de cinco pessoas dentro de um barco que sobe um rio carregado de simbologia. “A subida do rio torna-se um símbolo daquilo que é a nossa vida e do caminho que estamos a traçar”, decifra João Cachola ao PÚBLICO. “E a ideia de fecharmos a porta da casa dos pais e de continuarmos na nossa jornada rumo ao futuro incerto era algo que se ligava também ao rio e à viagem que estão presentes tanto no filme quanto no livro.”

Qual filme e qual livro, certo? Falta explicar que nesta primeira criação d’As Crianças Loucas, grupo constituído por cinco actores e dois músicos com idades compreendidas entre os 23 e os 26 anos, havia claramente a intenção artística de abordar o abandono dos últimos resquícios da infância e a chegada à idade adulta. E que nas primeiras reuniões a cinco (entre os actores Bruno Ambrósio, João Cachola, Rodrigo Tomás, Sílvio Vieira e Vicente Wallenstein, cujos destinos se cruzaram na Escola de Teatro de Cascais e na Escola Superior de Teatro e Cinema) descobriram, entre os materiais partilhados – como um álbum de fotografias da Guiné-Bissau, do tempo da Guerra Colonial –, um documentário intitulado Hearts of Darkness: a Filmmaker’s Apocalypse que se revelou o rastilho perfeito.

O filme co-realizado por Eleanor Coppola, que documenta a rodagem de Apocalypse Now, havia de atirar os cinco para a revisitação do filme de Francis Ford Coppola e para a leitura do romance Coração das Trevas, de Joseph Conrad, em que o cineasta se baseou, transpondo a narrativa do comércio de marfim (mas que é tão mais do que isso) no Congo ainda sob domínio belga para o cenário da Guerra do Vietname. “De repente, ao vermos o filme”, relata João Cachola, “demo-nos conta de que eles também eram cinco e de que podíamos traçar um paralelo curioso”.

Ao escolherem seguir as pistas dessa missão de “futuro incerto e vago”, de destino final impreciso, As Crianças Loucas dão arranque à exploração de uma linguagem que é também ela, em toda a sua potencialidade, ainda incerta. Sabem apenas que querem que a música faça parte das suas criações (aqui contam com temas ao vivo interpretados por Fernão Biu e João Sala, membros dos Zarco) e que os textos a levar à cena devem ser inéditos criados no contexto da companhia. E sabem ainda que, como os Zarco, quiseram fazer uma primeira obra mais ou menos homónima. À qual sucederá uma outra a estrear no final do ano e que, diz-nos a história da música pop, tem a reputação de ser especialmente difícil.