No coração das trevas

Na última das grandes obras de Joseph Conrad, mantêm-se os temas da oposição entre mal e inocência e do homem que deixa o Ocidente para se confrontar consigo próprio.

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Joseph Conrad traz para este romance até agora inédito em Portugal uma personagem secundária de Lord Jim

Heyst localizara a maior parte dos filões de carvão naquela região. Era visto em Manila ou em Saigão de vez em quando. Foi numa das suas erráticas e despojadas deambulações que conheceu Morrison, em Dili, “esse lugar pestilento”, e o ajudou a resgatar um barco apreendido pelas autoridades portuguesas. Morrison morre algum tempo depois e um boato sobre a relação dos dois é posto a circular. O propagador fora um tal Schomberg, “uma criatura grande, máscula, de origem teutónica, com uma língua ingovernável”.

Joseph Conrad (1857-1924) traz para o romance Vitória, até agora inédito em Portugal — e sem dúvida a última das suas grandes obras (1915) — uma personagem secundária de Lord Jim (e de um conto de 1902), o alemão Schomberg, e dá-lhe um papel de grande relevo, “mais verdadeiro em relação à vida”, como o autor sublinha na introdução. Este teutão, um estalajadeiro, e a sua “psicologia grotesca” servem a Conrad para, mais uma vez, introduzir o leitor nos seus temas preferidos: a ingenuidade e a maldade, a paz que é abalada pela chegada do mal, o homem europeu que é confrontado com o seu desenraizamento em diferentes partes do mundo, o choque entre o Ocidente e o Oriente, entre o civilizado e o “bárbaro”, e o conflito que se estabelece entre ocidentais que por diferentes razões tiveram De deixar a Europa. Mas a verdadeira questão central de Vitória é a oposição entre acção e pensamento (nunca resolvida) ou, de outra forma, a dúvida do indivíduo entre deixar-se envolver com uma realidade turbulenta ou descolar-se dela, afastando-se.

Axel Heyst, que se isolara do mundo na sua pequena ilha (onde vive com o chinês Wang), é continuamente tentado e provocado pelo vilão Schomberg. Ora são os boatos sobre o desaparecido Morrison, ora é a acção de Heyst que se vê forçado a retirar do hotel de Schomberg uma rapariga, Lena, em apuros por causa das investidas do teutão, ou o confronto com os três assassinos enviados pelo estalajadeiro para matarem Heyst na sua ilhota isolada. O conflito psicológico do protagonista vai crescendo, impelindo-o umas vezes para a acção e outras para uma espécie de retiro em que o assaltam inesperados pensamentos, sempre mantendo uma aura de inocência ou de ingenuidade.

Heyst e Lena apaixonam-se e vivem na idílica ilha, mas nem aí os mal-entendidos abandonam os dois. Ele não entende a rapariga, disposta ao sacrifício para se entregar ao seu amor. Há em Vitória uma nostalgia conradiana pela juventude, pelo momento em que a esperança ainda pode ser abraçada e tudo parece ser possível, e o cepticismo ainda não ocupou lugar. O amor e a esperança são apenas antigas ilusões. “Aquela rapariga (…) era-lhe como uma escritura numa língua desconhecida, ou talvez apenas misteriosa: como o é qualquer escrita para quem não sabe ler. No que dizia respeito às mulheres ele era perfeitamente iletrado e não tinha o dom da intuição que é cultivado durante os dias da juventude por sonhos e visões, exercícios do coração que o preparam para os encontros de um mundo em que o próprio amor assenta.”

Mais do que o trágico Heyst, o grande protagonista do romance acaba por ser Schomberg (acolitado pelos três bandidos que um dia aparecem no hotel). Conrad faz uma espécie de cartografia psicológica de dissecação dos mecanismos em que assenta a sua masculinidade hipócrita, mostrando-o ao longo do romance como um espectro do mal que acaba por encarnar nos três assassinos contratados para acabarem com Heyst na ilha.

Vitória, não mostrando a genialidade de romances anteriores de Conrad (como Nostromo ou O Coração das Trevas), consegue, pela estrutura cuidada em que a voz narrativa se vai alterando, um efeito pouco habitual na obra conradiana, o de várias perspectivas que mostram quão fácil é as personagens enganarem o leitor.