Está na hora de os partidos anti-imigração tomarem o poder na UE, diz Orbán

Hungria, Itália e Polónia movimentam-se para formar aliança a pensar nas eleições europeias de Maio e também no controlo das instituições de Bruxelas. PPE pode sair fragmentado.

Foto
“Não há como negar que Emmanuel Macron é o líder das forças pró-imigração", disse Orbán Bernadett Szabo/REUTERS

Enquanto a Europa se assusta com os pesadelos do “Brexit”, Viktor Orbán, em Budapeste, prepara-se o seu assalto ao poder. Não da Hungria, o país que governa desde 2010 e que transformou num feudo seu, mas da própria União Europeia. Numa rara conferência de imprensa, apelou a uma aliança dos “políticos anti-imigração” para conquistar as instituições da EU, a começar pelas eleições para o Parlamento Europeu de Maio.

“O nosso objectivo é que os opositores da imigração se tornem a maioria nas instituições da UE” – para que não restem dúvidas, foi desta forma que o porta-voz do primeiro-ministro húngaro, Zoltan Kovacs‏, traduziu a declaração de Orbán. 

O Presidente francês, Emmanuel Macron, é identificado como o líder dos defensores da imigração – o inimigo, portanto, do que poderia ser uma nova aliança anti-imigração europeia, o tema mais caro a Orbán. “Não há como negar que Emmanuel Macron é o líder das forças pró-imigração. Se o que ele quer se materializar na Europa, isso será mau para a Europa, por isso tenho de lutar contra ele”, declarou o primeiro-ministro húngaro, que se assume como defensor da civilização cristã –​ supondo que os imigrantes são o invasor.

A escolha de Emmanuel Macron como inimigo acontece porque o Presidente francês se apresentou como o novo campeão da Europa – e também como inimigo declarado dos populismos. Para o Presidente francês, ter Orbán a escolhê-lo como opositor nem seria negativo para o arranque da sua estratégia para as europeias – correspondia até aos seus objectivos de campanha. A crise com os “coletes amarelos”, no entanto, gerou um pandemónio nos planos de Macron.

Na Hungria, Macron foi mesmo transformado num inimigo caricatural, objecto de uma campanha que o retrata como o grande adversário do primeiro-ministro Orbán, relata uma reportagem do Le Monde na redacção do site nacionalista húngaro Pesti Sracok. “Há uma verdadeira campanha contra o Presidente francês feita pelos jornalistas próximos do regime. Recebem as ordens directamente do gabinete do chefe do Governo. Rádio e televisão pública, sites, jornais: dizem todos a mesma coisa. Todos os dias temos notícias que caricaturam Macron, sugerem que pode ser gay ou toxicómano, que é impopular, que gosta dos imigrantes, que se rodeia de pessoas erradas. A narrativa é cada vez mais difamatória e racista”, analisa Peter Kreko, director do think tank liberal Political Capital.

Já os principais aliados para conseguir esta aliança são a Polónia e o ministro italiano do Interior, Matteo Salvini, sobre o qual o húngaro deixa cair uma chuva de elogios – “a meu ver, é um herói” –​, e com o qual se encontrou este Verão. Quarta-feira, Salvini, o líder da Liga, partido xenófobo e tenazmente anti-imigração, esteve em Varsóvia, para se reunir com Jaroslaw Kaczynski, o ideólogo e líder de facto do muito conservador Direito e Justiça, o partido no Governo.

Eixo ítalo-polaco

Salvini saiu do encontro a dizer que os seus pontos de vista “convergiam em 90% dos temas” e, embora não tenha revelado pormenores sobre projectos em comum, diz o jornal francês Le Monde, avançou que os dois países poderiam “propor um pacto em dez pontos para a Europa, que apresentaríamos a outros movimentos populares”.

Não lhe falta arrojo: “O eixo franco-alemão pode ser substituído por um eixo ítalo-polaco”, afirmou Salvini, que ao mesmo tempo ataca Macron e atira umas setas contra a chanceler alemã Angela Merkel, no momento em que sua saída do poder se aproxima.

Orbán só tinha coisas boas a dizer sobre esta ideia. “A aliança polaco-italiana ou entre Roma e Varsóvia é um dos maiores desenvolvimentos que podiam ter acontecido neste início de ano”, afirmou o primeiro-ministro húngaro.

Vingança

Orbán parece apostado em desferir um golpe mortal no Partido Popular Europeu (PPE), ao qual pertence o seu Fidesz, talvez como vingança porque o PPE permitiu que a 12 de Setembro o Parlamento Europeu aprovasse, com a necessária maioria de dois terços, a activação do artigo 7º. do Tratado de Lisboa contra a Hungria “por risco claro de violação grave do Estado de Direito”. Se o Conselho Europeu aprovasse esta recomendação do Parlamento, o direito de voto da Hungria poderia ser suspenso, por exemplo – mas é pouco provável que haja uma maioria no Conselho para que isso aconteça.

E isso não quer dizer que o PPE esteja disposto a expulsar o partido de Orbán. “Se excluísse o Fidesz, corria o risco que partidos da Croácia, da Eslovénia, da Eslováquia, da Bulgária, saíssem para engrossar as fileiras da extrema-direita”, escreveu numa análise no Le Monde Sylvain Kahn, professor no instituto Sciences-Po em Paris. “O argumento dos dirigentes [do PPE] tem sido que mais vale manter Orbán na família do que excluí-lo, pois é a melhor forma de conter as suas derivas”, explicou Kahn.

Mas Orbán sentiu-se traído pelos dirigentes do PPE, ao permitirem a activação do artigo 7º.. “Orbán começou a dizer ‘eu sou o novo PPE’. Até agora, achávamos que podíamos contê-lo, mas de facto, ele divide-nos cada vez mais”, comentou ao diário francês Ingeborg Grässle, eurodeputada alemã do PPE.

Grässle liderou em 2017 uma missão à Hungria para investigar usos duvidosos de fundos europeus. Vários milhões de euros foram desviados pelo genro do primeiro-ministro húngaro nos últimos anos, sem que a justiça de Budapeste investigue verdadeiramente o caso.