Trump dramatiza receios sobre imigração no discurso ao país

Num discurso de dez minutos, o Presidente norte-americano falou sobre os seus receios com a imigração ilegal vinda do Sul. O shutdown parcial federal, que já dura há 18 dias, continua sem fim à vista.

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LUSA/PETER FOLEY

O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, falou aos norte-americanos, na noite desta terça-feira, para justificar a construção de um muro na fronteira com o México, salientando as questões de segurança e os receios com a imigração ilegal e referiu-se a uma "crescente crise humanitária" para pressionar os democratas a assumir um acordo para o financiamento.

Mas não declarou estado de emergência, como anunciaram alguns meios de comunicação do país.

Trump fez o seu primeiro discurso televisionado pela primeira vez a partir da Sala Oval, na Casa Branca. Responsabilizou os democratas pela paralisação parcial do Governo (que dura há 18 dias) e pela inexistência de um acordo no Congresso para financiar o muro com o México — uma das suas principais promessas de campanha, e da qual não abdica. 

Trump pediu aos democratas que regressem à Casa Branca para se reunirem com ele, argumentando ser "imoral os políticos não fazerem nada" para resolver esta crise.

"Hoje à noite [terça-feira] falo-vos porque estamos a testemunhar uma crescente crise humanitária — uma crise do coração e da alma", frisou, referindo-se à situação que se vive na fronteira sul, num discurso que durou nove minutos. Argumentou que o sistema actual de imigração permite que "coiotes cruéis e gangues violentos" façam dos imigrantes as suas vítimas, especialmente as mulheres e as crianças, escreve o The Guardian.

O Presidente norte-americano tem discutido a ideia de declarar uma emergência nacional para contornar o impasse no Congresso e que lhe permita avançar com o muro na fronteira, mas essa possibilidade não foi abordada durante o discurso. Em vez disso, Trump atirou apenas que o shutdown parcial do Governo "ficaria resolvido numa reunião com 45 minutos", que não acontece porque os democratas não estão dispostos a ceder na questão do muro, que defendeu com unhas e dentes. 

"As forças de segurança pediram 5,7 mil milhões de dólares (cerca de 4,4 mil milhões de euros) para uma barreira física", começou. "A pedido dos democratas, será um muro de aço e não de cimento. Este muro é absolutamente fulcral para a segurança na fronteira."

"É senso comum. Este muro vai pagar-se muito rapidamente. O custo com as drogas ilegais supera os 500 mil milhões de dólares por ano (436 mil milhões de euros), muito mais do que os 5,7 mil milhões que pedimos ao Congresso. Este muro também será pago indirectamente com o novo grande acordo comercial que celebrámos com o México."

Num vídeo publicado em Dezembro, na conta oficial da Casa Branca no Youtube, o Presidente tenta sustentar a teoria de que os democratas não são avessos à ideia de um muro com uma colagem manipulada de excertos de democratas célebres, como Hillary Clinton (a sua adversária presidencial) e Barack Obama, o seu antecessor. "Sempre apoiaram muros e separações, mas agora não o querem fazer por minha causa", defendeu o Presidente norte-americano, nesse vídeo.

Nesta terça-feira, Trump tentou lançar mais achas para a fogueira e lembrou os norte-americanos assassinados por imigrantes ilegais, embora alguns estudos realizados ao longo de vários anos (o último de 2018, conduzido pelo Instituto Cato) tenham apontado que os imigrantes são menos propensos a cometer crimes do que aqueles nascidos nos Estados Unidos.

"Encontrei-me com dezenas de famílias, cujos entes queridos foram 'roubados' pela imigração ilegal. Eu segurei as mãos das mães que choravam e abracei os pais angustiados. Tão triste. Tão terrível", afirmou. 

A líder da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, reagiu minutos depois do discurso de Trump, sublinhando que o Presidente escolheu o discurso do medo e assegurou que os democratas querem privilegiar os factos.

"O Presidente Trump deve parar de manter o povo americano como refém, deve parar de fabricar uma crise e deve reabrir o Governo", declarou Pelosi, numa alusão ao shutdown parcial federal.

"Todos concordamos que é preciso proteger as nossas fronteiras", sublinhou Pelosi, lembrando que a Câmara dos Representantes, agora sob o controlo dos democratas, aprovou no primeiro dia do novo Congresso legislação para terminar com a paralisação parcial do Governo. Uma solução rejeitada por Trump porque não prevê o financiamento do muro.

Já o líder democrata no Senado, Chuck Schumer, declarou que o Presidente Donald Trump devia pôr cobro à paralisação parcial do Governo, enquanto prosseguem as negociações sobre o financiamento do muro entre os Estados Unidos e o México, porque "não há desculpa para prejudicar milhões de americanos".