Manuela Júdice: Guadalajara abriu uma porta, mas é preciso que haja estratégia na política do livro

A comissária da participação de Portugal na mais importante feira do livro do espaço latino-americano termina o seu mandato e entrega esta sexta-feira ao Governo o relatório de balanço da operação.

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Manuela Júdice, comissária da participação de Portugal na Feira Internacional do Livro (FIL) de Guadalajara em 2018 daniel rocha
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O Pavilhão de Portugal na Feira Internacional (FIL) de Guadalajara NABIL QUINTERO MILIÁN/FIL
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Jerónimo Pizarro, comissário da participação de Portugal na Feira Internacional de Bogotá em 2013 Nuno Ferreira Santos

Quinze meses depois de ter começado a trabalhar no projecto, Manuela Júdice, a comissária da participação de Portugal na Feira Internacional do Livro (FIL) de Guadalajara 2018, entrega esta sexta-feira ao Governo o seu balanço da presença portuguesa na feira mexicana, que decorreu de 24 de Novembro a 2 de Dezembro, e abandona o gabinete da Torre do Tombo, em Lisboa, onde a sua equipa esteve a trabalhar desde 15 de Setembro de 2017.

A actual secretária-geral da Casa da América Latina em Lisboa estava esta quinta-feira a terminar as conclusões do relatório da participação de Portugal como país convidado de honra da 32.ª feira, operação que o primeiro-ministro português considerou, na cerimónia de passagem do testemunho à Índia, o convidado de honra do próximo ano, “o projecto prioritário da diplomacia cultural portuguesa no último ano”. Por lá terão passado 19 mil profissionais do livro e 328 agentes literários entre os 819 mil visitantes.

Alguns dos grupos que participaram no Foro Fil saíram de Guadalajara já com portas abertas para voltarem ao México: Camané, Amor Electro, Sara Tavares e Capicua e os Dead Combo. Os Moonspell, campeões em termos de público, já tinham uma legião de fãs no México. No total, o público nos concertos de artistas portugueses ultrapassou as 16 mil pessoas.

Também a direcção da Feira Internacional do Livro de Guadalajara fez já uma proposta a Portugal para que no próximo ano o país venha a ter um stand na área internacional, com a presença de alguns escritores, para que o trabalho que foi feito não se perca. A ciência é outra área em que Portugal pode reforçar a sua presença, sugere ainda a direcção da feira, pois a participação na La FIL también es Ciencia e na FIL Joven, por exemplo, dos cientistas Élio Sucena, do Instituto Gulbenkian de Ciência, e de José Feijó, investigador da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, em sessões em que falaram sobre Darwin, tiveram grande repercussão.

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Todos os anos, a FIL tem tido ilustradores portugueses convidados, além dos que participaram neste ano, o que leva a crer que esse intercâmbio vá continuar.

“Esta feira é uma festa. Não é só uma feira do livro, não é só para se vir ouvir os autores, é sobretudo para se festejar com os autores, ao que se juntam a música, o teatro, o cinema e as exposições”, disse Manuela Júdice aos jornalistas quando ainda estava em Guadalajara.

A comissária, que irá reformar-se no final deste ano, tentou passar naqueles dias a ideia, tanto ao primeiro-ministro como à ministra da Cultura, de que a participação portuguesa abriu portas, tal como quando Portugal foi país convidado na Feira Internacional do Livro de Bogotá, em 2013, com o académico e pessoano Jerónimo Pizarro como comissário. “Depois desse ano, nunca deixámos de ter presença na Colômbia, quer em Bogotá, em Medellín ou em Cartagena das Índias”.

“O nosso cômputo geral é muito positivo. No meu relatório vou dizer que não se pode parar aqui”, afirma Manuela Júdice, defendendo que se deverá continuar a investir na política de apoios à Tradução e à Edição que este ano, através da Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB) e do Instituto Camões, serviu para apoiar obras lançadas na feira mexicana. Mas a comissária entende que para o ano é preciso rever essa política. Além das verbas, “deve haver uma estratégia”, diz.

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Jerónimo Pizarro

Nesta edição da FIL de Guadalajara houve “uma porta que se abriu” mas “é preciso entrar por essa porta”, acrescenta. “Isso significa termos uma política do livro e não só ficarmos à espera que apareçam candidaturas aos apoios. É preciso ser mais pró-activo na internacionalização dos autores portugueses”, diz Manuela Júdice.

“Eu tentei fazê-lo este ano, mas já cheguei depois de o projecto estar em andamento e a decisão do programa especial de apoio estava tomada e publicada”. A comissária ainda propôs que, a par do concurso, fosse apresentado aos editores estrangeiros um documento com sugestões de novas vozes e de clássicos da língua portuguesa que pudessem ser traduzidos. “Por exemplo, uma lista de dez títulos de romance, dez títulos de poesia, dez títulos de ensaio e dez títulos de literatura infantil que servisse de sugestão para eventuais candidaturas. Isso não foi entendido como importante e nunca foi feito.” Por isso defende agora que deve fazer-se um exercício crítico sobre essas linhas de financiamento.

O programa especial de apoio à Tradução e Edição “Portugal-Guadalajara 2018” apoiou 47 obras, publicadas por 26 editoras repartidas por Argentina, Chile, Colômbia, México, Uruguai e Venezuela. O montante total do apoio ascendeu a 113.869 euros (52.019 mil euros da DGLAB para tradução e ilustração, mais 61.850 euros do Instituto Camões para edição). Ambas as entidades estavam preparadas para dar mais apoio, pois o contingente inicial de candidaturas validadas chegava às 61. Entretanto houve desistências de editoras que, por variadas razões, não conseguiram reunir as condições para concretizar a edição.

“O que é que é feito? Recebem-se 61 candidaturas, há X dinheiro e distribui-se por todos. Tem pouco sentido apoiar cinco ou sete traduções de um mesmo autor num mesmo país, quando já se sabe que esse autor vende”, defende agora Manuela Júdice. “Porquê apoiar cinco traduções no México quando se podia reforçar uma candidatura desse mesmo autor no Peru, onde nunca foi traduzido? Lembro-me do caso do poeta Al Berto, que nunca foi traduzido na América Latina e tinha uma candidatura de uma editora da República Dominicana. Mas o que lhe foi atribuído não chegava para concretizar a edição e o livro não saiu.”

O colombiano Jerónimo Pizarro, que esteve entre os convidados desta FIL, considera que uma das coisas que correram melhor foi Portugal ter pensado Guadalajara não apenas como uma feira mexicana mas como fazendo parte da América hispânica. O que explica em parte o crescimento do número de obras apoiadas em relação às 35 da feira de Bogotá: “A DGLAB e o Camões não apoiaram só editoras mexicanas, apoiaram editoras latino-americanas (argentinas, colombianas, entre outras). Isso foi uma coisa lindamente pensada e decidida”, diz.

“Pela primeira vez, já há poucos autores que falta traduzir de português para o espanhol. No outro dia falámos de Natália Correia, de Maria Teresa Horta, e de outros que têm poucas obras traduzidas, como Agustina Bessa-Luís. Faltam claro, muitos dos clássicos e dos mais antigos, mas pelo menos relativamente ao século XX e XXI começo a ter uma sensação de abrangência quase total.”

O especialista em Pessoa nunca comprou tantos livros de autores portugueses em traduções hispânicas numa feira, quer na livraria do Pavilhão de Portugal quer em duas ou três editoras que tinham à venda livros de autores portugueses. “Devo ter uma mala com 45 livros”, contabilizou ainda em Guadalajara. Levou muita poesia (como o livro de Rui Cóias e algumas antologias) e romances (como os mais recentes de José Eduardo Agualusa ou coisas de Mia Couto que estavam esquecidas e foram agora reeditadas em editoras hispânicas).

Na livraria do pavilhão português foram vendidos 3485 livros, dos quais 2463 títulos foram disponibilizados pelo Fondo de Cultura Económica (edições em língua castelhana) e 1022 foram disponibilizados por Portugal (edições em língua portuguesa). Números com um valor muito inferior aos mais de 10 mil transaccionados em 2013 na livraria do Pavilhão de Portugal na Feira do Livro de Bogotá.

Mas se o termo de comparação for a região de Madrid, a convidada da FIL no ano passado, “Portugal vendeu mais 171%”, diz Manuela Júdice. No ano passado, venderam-se no pavilhão de Madrid 2040 títulos.

“Estou a sofrer de uma coisa que disse ao PÚBLICO há muitos meses: que para mim a fasquia não era Madrid, que tinha sido um ano bastante fraco, mas Bogotá, porque já tínhamos ultrapassado essa feira em termos de edições apoiadas”, diz Manuela Júdice. “Mas em termos de vendas penso agora que não nos podemos comparar com Bogotá dadas as condições e as condicionantes geográficas que este pavilhão nos apresentava.”

De resto, e segundo o comissário da participação portuguesa na feira colombiana de 2013, há outras vitórias de que a operação Guadalajara se pode reclamar: “Há cinco anos, tentei muito fazer uma homenagem a Ana Hatherly em Bogotá e não consegui. Ela não quis, queria que se desse atenção aos autores mais novos. A Manuela Júdice conseguiu ter a exposição de Ana Hatherly em Guadalajara e colocar uma figura que estava relativamente apagada como uma das figuras principais da cultura portuguesa. Nós não conseguimos ter o António Lobo Antunes em Bogotá e ele aceitou estar agora no México. Há poetas que não podiam estar em Bogotá e estiveram no México, e há autores como a Hélia Correia, que eu nunca esperaria que estivessem, como não espero que esteja a Adília Lopes. Mas a Hélia Correia aceitou o convite. Portanto, mesmo alguns autores que defendem uma certa invisibilidade e consideram que o que importa são os livros estiveram presentes em Guadalajara. E isso é muito importante.”

Tal como Manuela Júdice, Jerónimo Pizarro acredita que “esta feira é a promessa de muitas mais": “Depois de Portugal já ter estado nas duas principais feiras da América Latina, fica a faltar apenas Buenos Aires, na Argentina. Mas a literatura portuguesa está cada vez mais bem posicionada.”