Crítica

Uma obra redentora

O novo livro de Hélia Correia é uma obra verdadeiramente redentora - capaz até de redimir a nossa abalada confiança no poder transformativo da arte literária.

O texto de Hélia Correia é uma obra verdadeiramente redentora
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O texto de Hélia Correia é uma obra verdadeiramente redentora enric vives-rubio

O deserto, enquanto alegoria, nunca deixou de ser fértil no Ocidente, pelo menos desde uma sua famosa travessia pelos hebreus em busca da Terra Prometida, a imagem acabando por recobrir a totalidade do mundo, como em Álvaro de Campos — “Grandes são os desertos, e tudo é deserto.” — ou em Brodsky — “Ao deserto como ao destino deves, / meu filho, habituar-te. / Onde quer que estejas, é nele / que viverás.” (cito uma tradução de Carlos Leite, que grafa Brodskii). O fulgor ambivalente do deserto é também legível no livro mais recente de Hélia Correia (n. 1949), que começa citando os últimos versos de um dos Ditirambos de Diónisos, de Nietzsche (em tradução de João Barrento) — “Cresce o deserto: ai de quem desertos quer esconder!” (Paulo Quintela havia traduzido: “O deserto cresce: ai de quem acoita desertos!”) —, e termina com um poema da autora: “O som das tíbias contra as pedras. / Grandes ossos jogados pelo vento / no deserto como os últimos dados / sobre a mesa. / […]”.

Um Bailarino na Batalha é um (magnífico) poema narrativo épico em prosa (não encontro melhor maneira de descrever, com brevidade e justiça, o livro) que prolonga a eloquência nobre de A Terceira Miséria (o último volume de poemas de Hélia Correia, publicado em 2012). Vivemos sitiados pela indústria da ficção jornalístico-realista de alegada ‘denúncia’, ou divertimento, e por um certo lirismo miúdo e lamuriento. A obra de Hélia Correia — com a sua dicção alta e meditada, o seu andamento largo, herbertiano, bíblico e homérico, a sua assombrosa capacidade de mitificar o real quotidiano, transfigurando-o, poética e politicamente — vem recordar-nos que, nestes novos tempos sombrios, a literatura pode continuar a ‘servir’ para aguçar o sentido das “palavras da tribo” (salvando-as das “armadilhas da informação”, por exemplo). Ainda que estas, as palavras, provavelmente nem ossos hão-de deixar nas areias dos desertos. Porque “o esquecimento tudo esquecerá”.

Poderemos dizer que Um Bailarino na Batalha narra também uma travessia do deserto. Uma travessia tragicamente ilusória. Um grupo de caminhantes, exilados do seu quotidiano por sabidas atrocidades guerreiras, busca alcançar o mar e o que há para além do mar: uma ‘terra prometida’ chamada Europa. Tais caminhantes conformam, na sua forçada errância, uma pequena “pátria nómada”, inominada mas eventualmente reconhecível em alguns dos seus atributos: a severidade dos trajes das mulheres, a segregação que estas padecem, confinadas àquela “domesticidade dolorosa […] onde havia nascimento e morte”, etc. E descobrem, os errantes, que “afinal não há nenhuma Europa para onde fugir” (p. 73). Porque “os caminhos têm sempre dono” (p. 59), como lembra o guarda da cidade dos “nove círculos”, que os impede de prosseguirem e que lhes diz: “A Europa não vos quer.” Porquê? “Paramos muito. Damos prejuízo. Paramos para rezar. Temos costumes.” (p. 99) Que fazer, quando “para trás não há nada” e “para a frente, também não”? Que fazer, se “ninguém vive sem terra prometida” (p. 105)?

Há nesta espécie de epopeia frustrada e sem herói, oásis que salvam temporariamente da escravidão da fome, onde abundam “cabras dos ermos, brancas, negras, de beiços poderosos, gazelas muito leves, cor de mel, pequenos roedores de unhas visíveis, todos eles tão belos no seu medo” (p. 51); “há certas terras atapetadas de pequenos frutos vermelhos como lábios […] tão saborosos que, se um homem lhes tocasse, perderia para sempre a altivez” (p. 17); há crianças com estranhos poderes e que, imunes ao “feitiço da experiência”, dançam impunemente (a dança sendo metáfora recorrente da dionisíaca liberdade); há mulheres mais matreiras do que Ulissses e capazes de desafiarem os costumes, desvelando o rosto e devorando as próprias crias mortas. Mas o que faz do texto de Hélia Correia uma obra verdadeiramente redentora (capaz até de redimir a nossa abalada confiança no poder transformativo da arte literária) é a maneira como a autora, tematizando um assunto das notícias de todos os dias, o amplifica e soleniza, emprestando-lhe a “intemporalidade” que qualifica os mitos e as honras de uma epopeia clássica. Repare-se, por mero exemplo, nesta pequena e precisa observação: “Nuru disse: ‘De repente, perdi a fome.’ Mas, sendo um velho, não parava de comer.” Não é uma observação digna de Homero?