Faltaram livros de portugueses em português na feira de Guadalajara

O primeiro-ministro foi ao México fechar a participação portuguesa na maior feira do livro da América Latina e passar, “afectuosamente”, o testemunho ao país convidado do próximo ano – a Índia. Entre as críticas recorrentes, houve quem dissesse que era preciso ter levado mais autores de ontem para que se pudesse compreender melhor os de hoje e quem se queixasse das prateleiras vazias do pavilhão nacional.

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Alguns editores portugueses criticaram a arquitectura do pavilhão pelas suas prateleiras vazias, mas a directora da feira achou-o acolhedor NABIL QUINTERO MKILIÁN/FIL
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Primeiro-ministro António Costa com Shri Muktesh Pardeshi, embaixador da Índia no México, na cerimónia de passagem de testemunho NATALIA FREGOSO/FIL
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Aspecto geral do Pavilhão de Portugal NABIL QUINTERO MKILIÁN/FIL
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António Costa é recebido pela fadista Kátia Guerreiro no Pavilhão de Portugal EVA BECERRA/FIL

Milhares de pessoas percorrem o recinto da Feira Internacional do Livro (FIL) de Guadalajara ao final da manhã de domingo. Andam de editora em editora fazendo compras, pedindo autógrafos e conversando com os autores. À passagem da comitiva encabeçada pelo primeiro-ministro português, há quem pergunte quem é e quem, reconhecendo de imediato António Costa, saque do telemóvel para lhe tirar fotografias

O chefe do Governo convidou Luís Filipe Castro Mendes para o acompanhar na viagem de dois dias ao México. Depois de uma visita à exposição Lo que cuentam las paredes: Almada Negreiros y la pintura mural, ambos passearam, como seria de esperar, pela feira. Isto porque, reconhecido o “excelente trabalho” que fez na preparação desta participação de Portugal no maior acontecimento literário e editorial da América Latina, “era da mais elementar justiça” que o ex-ministro da Cultura estivesse presente, disse Costa: “Sei que, quer como poeta, quer como homem da Cultura, [Castro Mendes] teria imensa pena de não visitar a feira de Guadalajara.” 

Quanto ao balanço desta edição em que Portugal foi o país-tema, António Costa disse que só o futuro o permitirá fazer, mas sublinhou um dado quantitativo ao lembrar que, graças aos apoios da Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB) e do Instituto Camões às edições para Guadalajara, temos hoje mais cerca de 50 obras da literatura em língua portuguesa traduzidas para castelhano.

“Tivemos aqui uma presença que irradiou um pouco por toda a cidade mexicana e que se projectará seguramente no futuro”, disse o primeiro-ministro, para quem a presença em Guadalajara “foi o projecto prioritário da diplomacia cultural portuguesa no último ano”, uma “travessia literária” que estava pensada há pelo menos uma década.

Discursando na cerimónia de encerramento da feira, em que saudou “afectuosamente” a Índia, que será o próximo país convidado, Costa lembrou as ligações históricas entre os dois países: “É com particular satisfação que participo nesta passagem de testemunho a um país com o qual Portugal tem uma profunda e contínua ligação histórica e cultural, uma Índia que tantas vezes foi lugar de idas e vindas da literatura escrita em português e que, para mim, nascido de pai goês, faz também parte da minha história pessoal.”

Terminada a feira, acrescentou o primeiro-ministro, espera que Portugal tenha deixado “a imagem de um país moderno, com tanta vitalidade criativa quanto densidade histórica”.

E isso parece ter acontecido. A directora da feira, Marisol Schulz, está convencida de que muitos mexicanos perceberam que “Portugal é muito mais do que fado e saudade”, assim como os portugueses que visitaram Guadalajara “descobriram que aqui há muito mais do que tequilla e mariachi”.

Na despedida do convidado desta 32.ª edição, Schulz reconheceu que a presença de Portugal e da sua literatura nos países ibero-americanos era uma dívida que importava saldar, garantiu que os autores nacionais, entre os quais destacou António Lobo Antunes, Gonçalo M. Tavares ou Ana Luísa Amaral, “continuarão a ser recebidos de braços abertos”, e elogiou o pavilhão de Portugal: “Fez-nos lembrar o aconchego de uma biblioteca em casa, onde convivem objectos que tanto amamos, como os livros, com muitas recordações que vão dando forma à nossa vida, à nossa memória.”

Os mais vendidos

Rui Zink considera que estas representações oficiais de Portugal enquanto país-tema nas diversas feiras internacionais “são muito importantes”, porque ele, que nunca antes integrara uma comitiva de escritores, beneficiou já várias vezes dessa exposição. “O que é fundamental numa embaixada como esta é que, no futuro, os escritores continuem a vir. Cinco ou seis por ano…” Cada participação de Portugal “é um investimento de longo prazo”, diz.

Zink tem alguma “inveja” dos escritores que participaram em 2013 na Feira Internacional de Bogotá, Colômbia, porque tiveram agora outro acolhimento no México. O autor de A Instalação do Medo, romance que na tradução francesa recebeu em 2017 o Prix Utopiales para melhor romance estrangeiro, acredita que no prazo de dois ou três anos venha a ter um livro publicado em castelhano. 

A editora Bárbara Bulhosa foi outra estreante na Feira Internacional do Livro (FIL) de Guadalajara e é da opinião que a secção internacional, sobretudo a que diz respeito a outros países da América Latina, é muito forte. Dois dos autores da sua Tinta-da-China, Ricardo Araújo Pereira e Dulce Maria Cardoso, que estiveram em Guadalajara, são bons exemplos da dinâmica de que fala Zink, a que começou a ser construída anos antes – tinham livros traduzidos na feira mas com chancelas colombianas.

Ao contrário da directora da feira, Marisol Schulz, Bulhosa não tece elogios ao pavilhão português. “O de 2013, em Bogotá, não pode ser comparado com este. A livraria era enorme, tinha uma boa mostra de livros portugueses editados em Portugal, para além dos autores traduzidos”, diz, explicando que o espaço em Guadalajara lhe parece “uma livraria sem livros”.

Para a responsável da Tinta-da-China, a dimensão da livraria no México, o reduzido número de títulos e a presença desigual de autores – enormes manchas de obras de Lobo Antunes, José Saramago e Fernando Pessoa, todas traduzidas – não permitiram aos visitantes tirar o retrato ao mercado português. “Quem entrar aqui e quiser saber o que se passa com a nossa edição, não fica com a mínima ideia”, diz, defendendo que nestas feiras, além do acesso do público aos autores e da venda de direitos e traduções, é também importante promover o trabalho dos editores. “Perceber que eu tenho mais livros de literatura portuguesa em casa do que os que estão aqui no pavilhão em Guadalajara faz-me alguma confusão”, remata.

Segundo os números oficiais, na livraria do Pavilhão de Portugal venderam-se cerca de três mil livros até este sábado, 1 de Dezembro, valor muito inferior aos mais de 10 mil transaccionados em 2013, ano em que o país foi o convidado em Bogotá. 

José Saramago, Gonçalo M. Tavares, António Lobo Antunes, Fernando Pessoa e Eça de Queirós ocupam os lugares cimeiros no top dos escritores portugueses mais procurados. Mas os números finais não estão ainda apurados, já que as vendas não se limitam ao pavilhão – autores como José Luís Peixoto, Nuno Júdice e Adélia Carvalho, por exemplo, já para não falar de Saramago e Lobo Antunes, tinham também títulos à venda em stands espalhados pela feira.

Camões, Vieira e Pascoaes

Quando Maria do Rosário Pedreira esteve em Guadalajara pela primeira vez, a Alemanha era o país convidado. Como eram os 25 anos da feira, escolheram 25 autores da América Latina, promissores, e fizeram com eles “uma espécie de Granta”. “Foi muito interessante para mim, como editora, porque eram autores muito novos, alguns tinham imensa piada, mas uns vingaram, outros nunca mais encontrei livros deles”, recorda.

Na opinião desta editora, que foi convidada para a 32.ª FIL na qualidade de poeta, o que distingue esta feira de outras é o facto de ser organizada por uma universidade: “Há uma ligação estreita dos convidados à universidade. Não é só fogo-de-vista, há coisas académicas que normalmente nas outras feiras a que fui e em que Portugal era país convidado não me lembro de ver.” 

Um italiano que está a fazer uma tese sobre os países-tema em feiras editoriais, lembra Rosário Pedreira, chamou-lhe a atenção para o facto de esta ser uma feira que celebra a produção actual, mas que não dá uma perspectiva evolutiva da literatura portuguesa a quem não a conheça. “O passado não está aqui presente”, reconhece a autora que tem uma antologia da sua poesia publicada na Colômbia e está à venda na feira. Em Frankfurt, onde havia mais condições e mais espaço, não era assim. “Fala-se muito do Pessoa, porque o Pessoa é um poeta que toda a gente conhece, mas, se calhar, faz falta mostrar outros nomes da literatura portuguesa: Padre António Vieira, Camões, Teixeira de Pascoaes ou Cesariny. As pessoas vêm ver espectáculos de música, vêem exposições de pintura, ficam com alguma ideia da ciência e da história nas conferências dos académicos. Aí a coisa está bem coberta, mas falta mostrar a história da literatura portuguesa, o que ela foi antes destes escritores que aqui estão.”

Espreitando para os sacos de compras de Zeferino Coelho, editor histórico da Caminho, salta à vista um volume de 400 páginas com os diários de Tolstoi, entre obras de Paul Ricoeur, uma edição com textos breves; uma história sobre os conflitos fronteiriços entre Portugal e Espanha, tanto na Península Ibérica como fora dela; e um livro de Karl Marx. Na mala de viagem terá de caber ainda uma biografia de Dostoievski em cinco volumes do americano Joseph Frank que está ainda na lista (a edição em inglês está esgotada e, por isso, vai tentar comprá-la em castelhano).

“É uma feira bastante maior do que eu pensava. Levo daqui boas perspectivas para a publicação em inglês dos livros da Isabela Figueiredo”, revela, estabelecendo comparações com a participação de Portugal como convidado na Feira de Frankfurt, em 1997, que teve “outro fôlego”. É verdade que os tempos eram outros, diz, mas isso não invalida que considere justas algumas das críticas que ouviu ao pavilhão nacional, desde logo as que referem a ausência de livros de portugueses em português, “uma falha”. “Este mobiliário, estas paredes que constituem o nosso pavilhão têm umas caixas que devem ter sido concebidas para terem livros, mas não têm. Era preciso ter investido um pouco mais, trazer para cá uns tantos livros, que depois até se podiam oferecer a bibliotecas aqui no México.”

Para este editor, seria interessante que a edição portuguesa no próximo ano voltasse a estar aqui representada: “Não digo com esta dimensão, mas trazer livros, vendê-los, promovê-los, para se prolongar o que se fez agora, para não se cair no vazio.”

Esta continuidade de que fala o editor da Caminho parece ter já sido assegurada pelos músicos portugueses, que protagonizaram vários concertos gratuitos a que assistiram 15 mil pessoas, de acordo com a comissária da participação portuguesa, Manuela Júdice. Capicua, Sara Tavares, Amor Electro e Dead Combo saem de Guadalajara com convites para participar em concertos e festivais no México.

O PÚBLICO viajou a convite do comissariado para a participação portuguesa na FIL Guadalajara 2018

Notícia corrigida às 18h40: No âmbito da feira de Guadalajara há hoje mais cerca de 50 obras da literatura em língua portuguesa traduzidas para castelhano e não "quase 100" como escrevemos anteriormente.